Lista de Poemas
LUMES PASSAGEIROS
Ao contrário de Quintana
minha rua não tinha cataventos
Era quente e sem brisas
e minha casa ficava em frente ao cemitério
Às noites contemplava assustado
o bailar azulado dos fogos-fátuos
últimos suspiros dos mortos
antes de se tornarem fantasmas
Minha infância foi cheia de assombrações
sustos pasmos e espantos
mas o meu menino sempre adormecia
seguro de que os mortos
no quarto nunca entrariam
Hoje quando lembro da rua do cemitério
penso em visitá-la no dia dos meus finados
Joaquim Cesário de Mello
minha rua não tinha cataventos
Era quente e sem brisas
e minha casa ficava em frente ao cemitério
Às noites contemplava assustado
o bailar azulado dos fogos-fátuos
últimos suspiros dos mortos
antes de se tornarem fantasmas
Minha infância foi cheia de assombrações
sustos pasmos e espantos
mas o meu menino sempre adormecia
seguro de que os mortos
no quarto nunca entrariam
Hoje quando lembro da rua do cemitério
penso em visitá-la no dia dos meus finados
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 18
GÉNESIS
Não vim do barro
nem da costela do meu pai
Fui feito de placenta
e tenho os olhos verdes
Do seu marido herdei
a miopia, a calvície e o gosto
pela poesia
Dela este nariz empinado
o jeito aristocrático
e o enorme medo das baratas
Meu pai me queria diplomata
minha mãe que eu falasse francês
Que me desculpem tê-los decepcionado
mas o que gosto mesmo
é de tomar cerveja, fumar cigarro
e de vez em quando assistir
um ou outro seriado
Não posso negar, contudo,
minha melanina mulata
e o instinto português
Mas sei que ambos se orgulhariam
do homem de bem que me tornei
Conheci o mundo lendo Tintim
embora gostasse mais de Asterix
e hoje quando vejo meu neto
brincando de explorar o planeta
percebo que a vida não é redonda
e muito menos uma linha reta
Se algum dia nos reencontrarmos
vou agradecer o vácuo deixado
em que meu menino cresceu
perplexo e assombrado
Joaquim Cesário de Mello
nem da costela do meu pai
Fui feito de placenta
e tenho os olhos verdes
Do seu marido herdei
a miopia, a calvície e o gosto
pela poesia
Dela este nariz empinado
o jeito aristocrático
e o enorme medo das baratas
Meu pai me queria diplomata
minha mãe que eu falasse francês
Que me desculpem tê-los decepcionado
mas o que gosto mesmo
é de tomar cerveja, fumar cigarro
e de vez em quando assistir
um ou outro seriado
Não posso negar, contudo,
minha melanina mulata
e o instinto português
Mas sei que ambos se orgulhariam
do homem de bem que me tornei
Conheci o mundo lendo Tintim
embora gostasse mais de Asterix
e hoje quando vejo meu neto
brincando de explorar o planeta
percebo que a vida não é redonda
e muito menos uma linha reta
Se algum dia nos reencontrarmos
vou agradecer o vácuo deixado
em que meu menino cresceu
perplexo e assombrado
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 96
AS MANGAS DE SANTO AMARO
Detesto velórios mas
gosto de visitar cemitérios
Ali tudo é tão calmo
como os mortos
e o tempo passeia sem pressa
pelas alamedas arborizadas
de jambeiros, oiteiros e mangueiras
onde comecei a perder a infância
no Cemitério de Santo Amaro
São tantos os túmulos e gavetas
alguns de mármore uns de granito
outros de chão e vários amontoados
Há os adornados e os humildes
os lembrados e os esquecidos
os conhecidos e os anônimos
os santificados e os hereges
os floridos e os apagados
e todos sobrevivem aos seus domiciliados
Quando morrer
meus sonhos virarão pó
e se transmutarão em seiva
a alimentar as veias das árvores
e o ovário dos frutos vindouros
Quando morrer
vou virar manga
Joaquim Cesário de Mello
gosto de visitar cemitérios
Ali tudo é tão calmo
como os mortos
e o tempo passeia sem pressa
pelas alamedas arborizadas
de jambeiros, oiteiros e mangueiras
onde comecei a perder a infância
no Cemitério de Santo Amaro
São tantos os túmulos e gavetas
alguns de mármore uns de granito
outros de chão e vários amontoados
Há os adornados e os humildes
os lembrados e os esquecidos
os conhecidos e os anônimos
os santificados e os hereges
os floridos e os apagados
e todos sobrevivem aos seus domiciliados
Quando morrer
meus sonhos virarão pó
e se transmutarão em seiva
a alimentar as veias das árvores
e o ovário dos frutos vindouros
Quando morrer
vou virar manga
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 149
MINHA INFÂNCIA
Em minha infância
não existia Noruega
e bacalhau era prato
nos domingos de Páscoa
Em minha infância
havia presépios nos natais
onde hoje habitam shoppings
e as Coca-colas não se fantasiavam
de velhos Papais-noéis
Em minha infância
faroestes eram em preto e branco
e o verde o azul e o amarelo
não pertenciam ao mundo
dos desenhos animados
Em minha infância
não voavam condores
mas urubus pousados
nos telhados das casas sem chaminés
esperavam a carne sua de cada dia
Em minha infância
tinha uma árvore cuja sombra já estava ali
desde antes de quando eu nasci
e que ontem a derrubaram
porque estava podre por dentro -
foi o que disse a prefeitura
Em minha infância
as ruas eram de paralelepípedos cinzentos
com restos de trilhos espalhados pelo chão
e trens atravessavam as tardes e as cidades
antes do sereno molhado das madrugadas
Em minha infância
eu era menino
e nada mais
Joaquim Cesário de Mello
não existia Noruega
e bacalhau era prato
nos domingos de Páscoa
Em minha infância
havia presépios nos natais
onde hoje habitam shoppings
e as Coca-colas não se fantasiavam
de velhos Papais-noéis
Em minha infância
faroestes eram em preto e branco
e o verde o azul e o amarelo
não pertenciam ao mundo
dos desenhos animados
Em minha infância
não voavam condores
mas urubus pousados
nos telhados das casas sem chaminés
esperavam a carne sua de cada dia
Em minha infância
tinha uma árvore cuja sombra já estava ali
desde antes de quando eu nasci
e que ontem a derrubaram
porque estava podre por dentro -
foi o que disse a prefeitura
Em minha infância
as ruas eram de paralelepípedos cinzentos
com restos de trilhos espalhados pelo chão
e trens atravessavam as tardes e as cidades
antes do sereno molhado das madrugadas
Em minha infância
eu era menino
e nada mais
Joaquim Cesário de Mello
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BIOGRAFIA
Tenho mais anos que meu pai
e quatro dentes a menos
Trago do que me sobrou
mais cabelos brancos que minha mãe
por isso aprendi a nadar cedo
e não morrer afogado
Se me dessem o poder da escolha
eu geraria mais filhos e filhas
uma só não me basta
Caso soubesse antes
teria me confessado menos
apenas para ter
um pouco mais de pecados
Sou um homem tardio
desses que escuta blues de madrugada
tomando gin com soda limonada
e que tem as unhas amarelecidas
pelas nicotinas dos cigarros
Sonho em ser menino outra vez
simplesmente para viver de novo
mudando apenas aqui e ali
alguns quase mínimos detalhes
Joaquim Cesário de Mello
e quatro dentes a menos
Trago do que me sobrou
mais cabelos brancos que minha mãe
por isso aprendi a nadar cedo
e não morrer afogado
Se me dessem o poder da escolha
eu geraria mais filhos e filhas
uma só não me basta
Caso soubesse antes
teria me confessado menos
apenas para ter
um pouco mais de pecados
Sou um homem tardio
desses que escuta blues de madrugada
tomando gin com soda limonada
e que tem as unhas amarelecidas
pelas nicotinas dos cigarros
Sonho em ser menino outra vez
simplesmente para viver de novo
mudando apenas aqui e ali
alguns quase mínimos detalhes
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 195
ENQUANTO LEIO KEROUAC
A vida continua indo, amor
enquanto leio Kerouac
ou assisto filmes na televisão
esperando o salário ao final do mês.
Breve o que teremos
é este pouco de memória
e quem sabe se ainda der
uma casinha azul na praia
para vermos netos crescerem molhados.
A roupa e o carro novos não me calam o jovem
pois a minha juventude é feita de rebeliões
embora as revoluções que fiz de fato
fossem apenas mudar de bairro e de penteado.
A vida continua indo, amor
sem mim
sem você
sem ninguém
afinal é próprio da vida se ir
deixando aqui sempre nós
ou lendo livros ou vendo filmes
no aguardo do próximo final de mês.
(De onde vem este vento tão gelado
se todas as janelas estão fechadas?)
Evitemos ao menos hoje
olhar espelhos, amor
Joaquim Cesário de Mello
enquanto leio Kerouac
ou assisto filmes na televisão
esperando o salário ao final do mês.
Breve o que teremos
é este pouco de memória
e quem sabe se ainda der
uma casinha azul na praia
para vermos netos crescerem molhados.
A roupa e o carro novos não me calam o jovem
pois a minha juventude é feita de rebeliões
embora as revoluções que fiz de fato
fossem apenas mudar de bairro e de penteado.
A vida continua indo, amor
sem mim
sem você
sem ninguém
afinal é próprio da vida se ir
deixando aqui sempre nós
ou lendo livros ou vendo filmes
no aguardo do próximo final de mês.
(De onde vem este vento tão gelado
se todas as janelas estão fechadas?)
Evitemos ao menos hoje
olhar espelhos, amor
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 170
NO ESTALAR DAS NUVENS CINZAS
A chuva afoga as calçadas
e esgotos regurgitam seus excessos
lavando o pecado dos homens
Na água que o céu devolve
casais se desabraçam
e correm
à busca dos abrigos dos cimentos
e das lajes -
um cão tenta espaço no meio das pernas
pelos sapatos é enxotado
não há lugar para tantos sonhos molhados
No frio o ranger dos ossos velhos
se mistura ao ruído sossegado
dos pingos
enquanto do outro lado da cidade
à margem da vida e dos rios
há os que suplicam misericórdia dos deuses
e o socorro de quem os oprimem
No trânsito dos sinais parados
ouço no carro uma música morta
no cemitério dos meus tantos passados
Nas chuvas de ontem
galochas pisam poças e ensopados
brincando felizes por não haver aula
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 182
NO INTERIOR DAS SEREIAS
Parem as máquinas
suspendam o tempo
Congelem os São Joãos e os Natais
deixem tudo que estão fazendo
Que seja amanhã feriado nas escolas
fábricas comércios e repartições
Indultem os presos
desocupem os manicômios
fechem os bares e os bordeis
interrompam velórios e enterros
pois de tudo o que me sobrou
basta somente apenas este meu
Que estejam todos às calçadas
desliguem por minutos
os afazeres miúdos do cotidiano
e se retirem dos mundinhos
para então ver passar
pelas bordas e arredores da vida
este meu tão anônimo e
desacompanhado cortejo
Que se alegrem as flores
que cantem os pássaros
que venham a lua e as estrelas
juntas com o sol
regozijarem-se neste apressado dia
em que minhas cinzas serão lançadas
no costado dos Oceanos
quando afogadas se espalharão
a alimentar corais crustáceos
peixes e todas as sereias
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 173
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JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO, natural de Recife (PE), psicólogo,
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).