Lista de Poemas

LUMES PASSAGEIROS

Ao contrário de Quintana
minha rua não tinha cataventos 

Era quente e sem brisas
e minha casa ficava em frente ao cemitério 

Às noites contemplava assustado
o bailar azulado dos fogos-fátuos 
últimos suspiros dos mortos
antes de se tornarem fantasmas

Minha infância foi cheia de assombrações
sustos pasmos e espantos
mas o meu menino sempre adormecia
seguro de que os mortos
no quarto nunca entrariam 

Hoje quando lembro da rua do cemitério
penso em visitá-la no dia dos meus finados


Joaquim Cesário de Mello
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GÉNESIS

Não vim do barro
nem da costela do meu pai
Fui feito de placenta
e tenho os olhos verdes 

Do seu marido herdei
a miopia, a calvície e o gosto
pela poesia
Dela este nariz empinado
o jeito aristocrático 
e o enorme medo das baratas 

Meu pai me queria diplomata
minha mãe que eu falasse francês
Que me desculpem tê-los decepcionado
mas o que gosto mesmo
é de tomar cerveja, fumar cigarro
e de vez em quando assistir
um ou outro seriado 

Não posso negar, contudo,
minha melanina mulata
e o instinto português
Mas sei que ambos se orgulhariam
do homem de bem que me tornei

Conheci o mundo lendo Tintim 
embora gostasse mais de Asterix
e hoje quando vejo meu neto
brincando de explorar o planeta
percebo que a vida não é redonda
e muito menos uma linha reta
 
Se algum dia nos reencontrarmos
vou agradecer o vácuo deixado
em que meu menino cresceu
perplexo e assombrado
 

Joaquim Cesário de Mello
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AS MANGAS DE SANTO AMARO

Detesto velórios mas

gosto de visitar cemitérios
 

Ali tudo é tão calmo

como os mortos

e o tempo passeia sem pressa

pelas alamedas arborizadas 

de jambeiros, oiteiros e mangueiras

onde comecei a perder a infância

no Cemitério de Santo Amaro

 
São tantos os túmulos e gavetas

alguns de mármore uns de granito

outros de chão e vários amontoados

 
Há os adornados e os humildes

os lembrados e os esquecidos

os conhecidos e os anônimos

os santificados e os hereges

os floridos e os apagados

e todos sobrevivem aos seus domiciliados

 
Quando morrer 

meus sonhos virarão pó

e se transmutarão em seiva

a alimentar as veias das árvores

e o ovário dos frutos vindouros

 
Quando morrer

vou virar manga


 
                                                        Joaquim Cesário de Mello
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MINHA INFÂNCIA

Em minha infância

não existia Noruega

e bacalhau era prato

nos domingos de Páscoa

 

Em minha infância

havia presépios nos natais

onde hoje habitam shoppings

e as Coca-colas não se fantasiavam

de velhos Papais-noéis 

 

Em minha infância

faroestes eram em preto e branco

e o verde o azul e o amarelo

não pertenciam ao mundo

dos desenhos animados

 

Em minha infância

não voavam condores 

mas urubus pousados

nos telhados das casas sem chaminés 

esperavam a carne sua de cada dia

 

Em minha infância

tinha uma árvore cuja sombra já estava ali

desde antes de quando eu nasci

e que ontem a derrubaram

porque estava podre por dentro -

foi o que disse a prefeitura

 

Em minha infância

as ruas eram de paralelepípedos cinzentos

com restos de trilhos espalhados pelo chão

e trens atravessavam as tardes e as cidades

antes do sereno molhado das madrugadas

 

Em minha infância

eu era menino

e nada mais

 

 

 Joaquim Cesário de Mello
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BIOGRAFIA

Tenho mais anos que meu pai

e quatro dentes a menos
 

Trago do que me sobrou

mais cabelos brancos que minha mãe

por isso aprendi a nadar cedo

e não morrer afogado

 
Se me dessem o poder da escolha

eu geraria mais filhos e filhas

uma só não me basta
 

Caso soubesse antes

teria me confessado menos

apenas para ter 

um pouco mais de pecados

 
Sou um homem tardio

desses que escuta blues de madrugada

tomando gin com soda limonada 

e que tem as unhas amarelecidas

pelas nicotinas dos cigarros


Sonho em ser menino outra vez

simplesmente para viver de novo

mudando apenas aqui e ali

alguns quase mínimos detalhes

 

Joaquim Cesário de Mello
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ENQUANTO LEIO KEROUAC

A vida continua indo, amor
enquanto leio Kerouac
ou assisto filmes na televisão
esperando o salário ao final do mês.

Breve o que teremos
é este pouco de memória
e quem sabe se ainda der
uma casinha azul na praia
para vermos netos crescerem molhados.

A roupa e o carro novos não me calam o jovem
pois a minha juventude é feita de rebeliões
embora as revoluções que fiz de fato
fossem apenas mudar de bairro e de penteado.

A vida continua indo, amor
sem mim
sem você
sem ninguém
afinal é próprio da vida se ir
deixando aqui sempre nós
ou lendo livros ou vendo filmes
no aguardo do próximo final de mês.

                               (De onde vem este vento tão gelado
                                se todas as janelas estão fechadas?)

Evitemos ao menos hoje
olhar espelhos, amor


Joaquim Cesário de Mello
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NO ESTALAR DAS NUVENS CINZAS



A chuva afoga as calçadas

e esgotos regurgitam seus excessos

lavando o pecado dos homens

 

Na água que o céu devolve

casais se desabraçam

e correm

à busca dos abrigos dos cimentos

e das lajes - 

um cão tenta espaço no meio das pernas

pelos sapatos é enxotado 

não há lugar para tantos sonhos molhados

 

No frio o ranger dos ossos velhos

se mistura ao ruído sossegado

dos pingos

enquanto do outro lado da cidade

à margem da vida e dos rios

há os que suplicam misericórdia dos deuses

e o socorro de quem os oprimem 

 

No trânsito dos sinais parados

ouço no carro uma música morta

no cemitério dos meus tantos passados

 

Nas chuvas de ontem

galochas pisam poças e ensopados

brincando felizes por não haver aula

 

 

Joaquim Cesário de Mello
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NO INTERIOR DAS SEREIAS



Parem as máquinas

suspendam o tempo

Congelem os São Joãos e os Natais

deixem tudo que estão fazendo

 

Que seja amanhã feriado nas escolas

fábricas comércios e repartições

 

Indultem os presos

desocupem os manicômios

fechem os bares e os bordeis 

interrompam velórios e enterros

pois de tudo o que me sobrou

basta somente apenas este meu

 

Que estejam todos às calçadas

desliguem por minutos

os afazeres miúdos do cotidiano

e se retirem dos mundinhos

para então ver passar

pelas bordas e arredores da vida

este meu tão anônimo e

desacompanhado cortejo

 

Que se alegrem as flores 

que cantem os pássaros

que venham a lua e as estrelas

juntas com o sol

regozijarem-se neste apressado dia

em que minhas cinzas serão lançadas

no costado dos Oceanos

quando afogadas se espalharão 

a alimentar corais crustáceos 

peixes e todas as sereias

 

 

 

                                                                                                                         Joaquim Cesário de Mello
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