Lista de Poemas
SOU POETA
Não sou poeta das horas vagas
nas horas vagas sobrevivo
Não sou poeta do momento certo
porque mesmo o próximo verso
é tão incerto quanto eu
Não sou poeta dos recitais da moda
pois até o sapato com que piso sonhos
vem comigo desde o século passado
Não sou poeta para ser imortal
a última eternidade deixei no travesseiro
me aguardando à próxima noite
Não sou poeta de poemas digitais
minhas impressões já trago nos dedos
Não sou poeta para entrar na História
porquanto vivo na memória do meu menino
Nem também sou poeta para ser gostado
uma vez que tenho comigo divergências
por isso muitas vezes me desvio
para logo me encontrar na posterior esquina
Não sou poeta
sou apenas alado
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 20
SOBRE POMBOS E FORMIGAS
Existem mais pombos no céu
que anjos e gente
Descansando nas nuvens
eles olham a cidade dos homens
formigas inquietas a rastejar
pelas ruas calçadas e avenidas
olhando o distante brilho das estrelas
se achando gigantes como em seus sonhos
enquanto miúdas em suas vidas pequenas
são esmagadas pelas solas dos sapatos
desgastados do tempo
Se soubéssemos o que sabem os pombos
evitaríamos as migalhas das praças
e dentro do centímetro que nos cabe
seríamos mais afortunados que os gigantes
que enganosamente pensamos que somos
Os pombos por sobre os telhados
absolvem a arrogância e eximem os nossos pecados
In nomini Patri et Filii
et Spiritus Sancti
Amen
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 36
... E A PRAIA CONTINUAVA LÁ
Meus pés novamente pisam
as areias cor-de-rosa
da praia do meu menino
Caminho sobre pegadas miúdas
rastros que se foram
arrastados pelo hálito dos ventos
O bravio das ondas
são amainadas pelos arrecifes
erguimentos legados de um deus
devorado pela gula insaciável de Cronos
Outras crianças brincam
construindo castelos de areia
em reinos que já foram meus
Das espumas do mar nasceu Afrodite
onde lá conheci meu primeiro amor
(não sabia que os deuses
podiam ser castrados)
Era quase pálida e sardenta
usava óculos fundo de garrafa
e tinha as madeixas laterais
sempre amarradas junto à cabeça
Ritinha
era assim que sua mãe lhe chamava
toda vez que ia embora
levando-a de mim
muito antes de conhecê-la
Nas margens desse corpo de água
onde o oceano acaricia o chão
esculpi-me molhado de sol e sal
Era feliz
e todos estavam nos retratos natalinos
Onde estão as conchas e os búzios
que um dia aqui deixei?
Joaquim Cesário de Mello
as areias cor-de-rosa
da praia do meu menino
Caminho sobre pegadas miúdas
rastros que se foram
arrastados pelo hálito dos ventos
O bravio das ondas
são amainadas pelos arrecifes
erguimentos legados de um deus
devorado pela gula insaciável de Cronos
Outras crianças brincam
construindo castelos de areia
em reinos que já foram meus
Das espumas do mar nasceu Afrodite
onde lá conheci meu primeiro amor
(não sabia que os deuses
podiam ser castrados)
Era quase pálida e sardenta
usava óculos fundo de garrafa
e tinha as madeixas laterais
sempre amarradas junto à cabeça
Ritinha
era assim que sua mãe lhe chamava
toda vez que ia embora
levando-a de mim
muito antes de conhecê-la
Nas margens desse corpo de água
onde o oceano acaricia o chão
esculpi-me molhado de sol e sal
Era feliz
e todos estavam nos retratos natalinos
Onde estão as conchas e os búzios
que um dia aqui deixei?
Joaquim Cesário de Mello
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LACUNAS
Fui feito de despedidas
de saudades me construí
Em cada perda ou partida
somou-se mais um vazio aqui em mim
Dos tantos buracos que ora trago
enormes corredores de memórias silenciadas
se interligam neste entrelaçar labiríntico
por onde percorro me perdendo
Somente eu escuto as vozes dos meus passados
nos tímpanos moucos dos neurônios
rachaduras discretas a transpirar
porções de inquietudes mal-entendidas
E quando a última fenda em mim se abrir
vou desaparecer no fundo dos meus adeuses
como palavras isoladas em um livro fechado
em uma prateleira incendiada
debaixo do céu esfumaçado da Babilônia
joaquim Cesário de Mello
de saudades me construí
Em cada perda ou partida
somou-se mais um vazio aqui em mim
Dos tantos buracos que ora trago
enormes corredores de memórias silenciadas
se interligam neste entrelaçar labiríntico
por onde percorro me perdendo
Somente eu escuto as vozes dos meus passados
nos tímpanos moucos dos neurônios
rachaduras discretas a transpirar
porções de inquietudes mal-entendidas
E quando a última fenda em mim se abrir
vou desaparecer no fundo dos meus adeuses
como palavras isoladas em um livro fechado
em uma prateleira incendiada
debaixo do céu esfumaçado da Babilônia
joaquim Cesário de Mello
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ECLIPSE
Primeiro foram os pequenos detalhes
como aquele sinal da bochecha direita
e o arqueado triste das sobrancelhas
Depois foi o contorno e as sombras ao redor
seguido do desvanecer do nariz e dos lábios
logo após foram as pálpebras os cílios
o amendoado dos olhos até que me restou
somente o verde semelhante aos meus
Acaso não fosse o remanescente das fotos
para onde foi o rosto de minha mãe?
Joaquim Cesário de Mello
como aquele sinal da bochecha direita
e o arqueado triste das sobrancelhas
Depois foi o contorno e as sombras ao redor
seguido do desvanecer do nariz e dos lábios
logo após foram as pálpebras os cílios
o amendoado dos olhos até que me restou
somente o verde semelhante aos meus
Acaso não fosse o remanescente das fotos
para onde foi o rosto de minha mãe?
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 156
POMAR DAS FRUTEIRAS
No pretérito dos meus antigos
havia uma expressão que dizia
Cuida da tua vida
como quem cuida de um jardim
Ninguém nasce advogado
psicólogo bancário professor
comerciante empresário médico
engenheiro militar pintor
marinheiro ou poeta
Não chegamos com crachás
batas fardas ternos saltos
nem viemos encarnados
em empregos cargos ofícios
muito menos se é gerado
gasto aposentado ou velho
(a vida tem seu tempo
de uso e desuso)
Um jardim descuidado
desprezado e esquecido
é um terreno baldio
de folhas e frutos decaídos
cheio de matos ervas daninhas
flores murchas e mortas
agreste coberto de entulhos
cheiro fétido e pestilento
A gente só nasce é para ser jardineiro
Joaquim Cesário de Mello
havia uma expressão que dizia
Cuida da tua vida
como quem cuida de um jardim
Ninguém nasce advogado
psicólogo bancário professor
comerciante empresário médico
engenheiro militar pintor
marinheiro ou poeta
Não chegamos com crachás
batas fardas ternos saltos
nem viemos encarnados
em empregos cargos ofícios
muito menos se é gerado
gasto aposentado ou velho
(a vida tem seu tempo
de uso e desuso)
Um jardim descuidado
desprezado e esquecido
é um terreno baldio
de folhas e frutos decaídos
cheio de matos ervas daninhas
flores murchas e mortas
agreste coberto de entulhos
cheiro fétido e pestilento
A gente só nasce é para ser jardineiro
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 73
POÉTICA 2
Sou um poeta avulso
muitas vezes afeito aos impulsos
Mas impulsos não fazem poemas
descobrem apenas o que nos afetam
Quem faz a poesia poema
são os versos
que métricos ou assimétricos
são sempre palavras suadas de sentimentos
Um poeta não é um fingidor
ele está sempre a revelar
o que verdadeiramente sente
O poeta é um tradutor
das coisas que passam desapercebidamente
e a poesia nada mais é
que depreender o que antes parecia ausente
Sou um poeta avulso
que em princípio aceita seus impulsos
Joaquim Cesário de mello
muitas vezes afeito aos impulsos
Mas impulsos não fazem poemas
descobrem apenas o que nos afetam
Quem faz a poesia poema
são os versos
que métricos ou assimétricos
são sempre palavras suadas de sentimentos
Um poeta não é um fingidor
ele está sempre a revelar
o que verdadeiramente sente
O poeta é um tradutor
das coisas que passam desapercebidamente
e a poesia nada mais é
que depreender o que antes parecia ausente
Sou um poeta avulso
que em princípio aceita seus impulsos
Joaquim Cesário de mello
👁️ 154
BELA ADORMECIDA
Um dia vou dormir
como uma Bela Adormecida
por mais de mil anos
em que tudo em mim vai passar
Ao meu redor edificar-se-á um castelo
que os séculos irão encobrir
de arbustos matos e espinhos
e toda uma floresta infinda me isolará
do mundo em que serei alheio
e ao qual já não mais irei pertencer
Nem sequer meu túmulo
resistirá a minha ausência
e tudo que uma vez conheci
desaparecerá até mesmo
depois do meu próprio esquecimento
Em breve vou jazer
muito mais que mil anos
e nenhum beijo poderá
voltar-me sequer a acordar
Um dia vou dormir
como uma bela adormecida
Joaquim Cesário de Mello
como uma Bela Adormecida
por mais de mil anos
em que tudo em mim vai passar
Ao meu redor edificar-se-á um castelo
que os séculos irão encobrir
de arbustos matos e espinhos
e toda uma floresta infinda me isolará
do mundo em que serei alheio
e ao qual já não mais irei pertencer
Nem sequer meu túmulo
resistirá a minha ausência
e tudo que uma vez conheci
desaparecerá até mesmo
depois do meu próprio esquecimento
Em breve vou jazer
muito mais que mil anos
e nenhum beijo poderá
voltar-me sequer a acordar
Um dia vou dormir
como uma bela adormecida
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 153
PREFERÊNCIAS
Prefiro a quiescência dos hormônios
ao inquietar das testosteronas e das adrenalinas
o estalar dos papéis dos livros
que o salivar estéril dos bares
descobrir um verso novo em mil palavras
que mil frases já conhecidas
o ziguezaguear excitante das curvas
que a monotonia sonolenta das retas
a hipertrofia dos neurônios
que os dos bíceps dos tríceps e do abdômen
a introspecção das cobertas dos dias chuvosos
que a extroversão suada das manhãs de verão
o desassossego ansioso das perguntas
que o calar dócil das respostas fáceis
a polissemia ambígua dos deuses
que o monólogo tedioso de um deus solitário
Nasci
como dizia Sartre
para satisfazer a necessidade de ser eu mesmo
e não para satisfazer a necessidade do ser dos outros
Eu sou minhas escolhas
Joaquim Cesário de Mello
ao inquietar das testosteronas e das adrenalinas
o estalar dos papéis dos livros
que o salivar estéril dos bares
descobrir um verso novo em mil palavras
que mil frases já conhecidas
o ziguezaguear excitante das curvas
que a monotonia sonolenta das retas
a hipertrofia dos neurônios
que os dos bíceps dos tríceps e do abdômen
a introspecção das cobertas dos dias chuvosos
que a extroversão suada das manhãs de verão
o desassossego ansioso das perguntas
que o calar dócil das respostas fáceis
a polissemia ambígua dos deuses
que o monólogo tedioso de um deus solitário
Nasci
como dizia Sartre
para satisfazer a necessidade de ser eu mesmo
e não para satisfazer a necessidade do ser dos outros
Eu sou minhas escolhas
Joaquim Cesário de Mello
👁️ 145
POST MORTEM
Não há além depois de mim
e minha alma é tão recente quanto eu.
Já são tantas e tamanhas as ardências
que trago no peito e no pulsar das veias
o que nenhum inferno me há de ter reservado.
Ninguém me esperará depois de mim
sequer meus mortos ou minhas lembranças
pois no despejado azul do céu
não habitam anjos ou querubins
apenas pássaros que voam
indiferentes e alheios
à romaria terrena dos homens vagos.
São muitos os abandonados
assim como muitos abandonarei
mas quando nada mais restar
exceto a mudez das minhas memórias
e o vácuo geométrico da ausência
estarei quem sabe escondido
do meu rosto e da minha face
em um lugar que não existe
a não ser na exaustão dos sonhos
jamais consumados
E por fim
quando o fim vier
no fechar derradeiro das pálpebras
não haverá o encerrar de cortinas
nem o silenciar surdo dos aplausos
mas tão somente e apenas
o fechar deste rápido e estreito parêntesis.
Não há além depois de mim
e a vida é tão precoce quanto eu
Joaquim Cesário de Mello
e minha alma é tão recente quanto eu.
Já são tantas e tamanhas as ardências
que trago no peito e no pulsar das veias
o que nenhum inferno me há de ter reservado.
Ninguém me esperará depois de mim
sequer meus mortos ou minhas lembranças
pois no despejado azul do céu
não habitam anjos ou querubins
apenas pássaros que voam
indiferentes e alheios
à romaria terrena dos homens vagos.
São muitos os abandonados
assim como muitos abandonarei
mas quando nada mais restar
exceto a mudez das minhas memórias
e o vácuo geométrico da ausência
estarei quem sabe escondido
do meu rosto e da minha face
em um lugar que não existe
a não ser na exaustão dos sonhos
jamais consumados
E por fim
quando o fim vier
no fechar derradeiro das pálpebras
não haverá o encerrar de cortinas
nem o silenciar surdo dos aplausos
mas tão somente e apenas
o fechar deste rápido e estreito parêntesis.
Não há além depois de mim
e a vida é tão precoce quanto eu
Joaquim Cesário de Mello
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JOAQUIM CESÁRIO DE MELLO, natural de Recife (PE), psicólogo,
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).
psicoterapeuta, bacharel em Direito e professor universitário. Sócio e membro
do CTCR – Centro de Terapia Clínica do Recife, foi também responsável pelo
Setor de Psicologia do CTP – Comunidade de Tratamento Psiquiátrico (PE) e
participante do IAF – Instituto de Apoio à Família (PE). Pós-graduado em
Pedagogia (UPE) e Mestre em Psicologia Social e da Personalidade (PUC/RS).
Manteve coluna literária no Encarte Cultural do Jornal do Commercio (1998 –
2001), e é autor do Blog Literalmente. Endereço eletrônico jcesariomelo@bol.com.br
Escritor e poeta, em meados dos anos 80 integrou o Movimento de Escritores
Independentes, tendo participado de várias antologias literárias, entre elas
Ensaio V, Grupo Poeco Só Poesia (1981), Banco de Talentos (FEBRABAN,
1995) Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996), Nouveaux Brésils Fin de Sciècle
(Caravelle nº 75, Universidade de Toulouse, França, 2000),) e Cronistas de
Pernambuco (Carpe Diem, 2010). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral,
2003), A Alma Humana (Labrador, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares
(Labrador, 2020) e A Vida Como Um Espanto (no prelo).