Lista de Poemas

SOU POETA




Não sou poeta das horas vagas

nas horas vagas sobrevivo

 

Não sou poeta do momento certo

porque mesmo o próximo verso

é tão incerto quanto eu

 

Não sou poeta dos recitais da moda

pois até o sapato com que piso sonhos

vem comigo desde o século passado

 

Não sou poeta para ser imortal

a última eternidade deixei no travesseiro

me aguardando à próxima noite

 

Não sou poeta de poemas digitais

minhas impressões já trago nos dedos

 

Não sou poeta para entrar na História

porquanto vivo na memória do meu menino

 

Nem também sou poeta para ser gostado

uma vez que tenho comigo divergências

por isso muitas vezes me desvio

para logo me encontrar na posterior esquina

 

Não sou poeta

sou apenas alado


Joaquim Cesário de Mello
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SOBRE POMBOS E FORMIGAS



Existem mais pombos no céu
que anjos e gente

Descansando nas nuvens
eles olham a cidade dos homens
formigas inquietas a rastejar
pelas ruas calçadas e avenidas
olhando o distante brilho das estrelas
se achando gigantes como em seus sonhos
enquanto miúdas em suas vidas pequenas
são esmagadas pelas solas dos sapatos
desgastados do tempo

Se soubéssemos o que sabem os pombos
evitaríamos as migalhas das praças
e dentro do centímetro que nos cabe
seríamos mais afortunados que os gigantes
que enganosamente pensamos que somos 

Os pombos por sobre os telhados
absolvem a arrogância e eximem os nossos pecados

In nomini Patri et Filii
et Spiritus Sancti
Amen


Joaquim Cesário de Mello
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... E A PRAIA CONTINUAVA LÁ

Meus pés novamente pisam
as areias cor-de-rosa
da praia do meu menino 

Caminho sobre pegadas miúdas
rastros que se foram
arrastados pelo hálito dos ventos

O bravio das ondas 
são amainadas pelos arrecifes
erguimentos legados de um deus
devorado pela gula insaciável de Cronos

Outras crianças brincam 
construindo castelos de areia
em reinos que já foram meus

Das espumas do mar nasceu Afrodite
onde lá conheci meu primeiro amor
(não sabia que os deuses
podiam ser castrados)
                                                    
Era quase pálida e sardenta
usava óculos fundo de garrafa
e tinha as madeixas laterais
sempre amarradas junto à cabeça
 
Ritinha
era assim que sua mãe lhe chamava
toda vez que ia embora
levando-a de mim
muito antes de conhecê-la

Nas margens desse corpo de água
onde o oceano acaricia o chão
esculpi-me molhado de sol e sal

Era feliz
e todos estavam nos retratos natalinos

Onde estão as conchas e os búzios
que um dia aqui deixei?


Joaquim Cesário de Mello
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LACUNAS

Fui feito de despedidas

de saudades me construí
 

Em cada perda ou partida

somou-se mais um vazio aqui em mim

 
Dos tantos buracos que ora trago

enormes corredores de memórias silenciadas

se interligam neste entrelaçar labiríntico

por onde percorro me perdendo

 
Somente eu escuto as vozes dos meus passados

nos tímpanos moucos dos neurônios

rachaduras discretas a transpirar

porções de inquietudes mal-entendidas 

 
E quando a última fenda em mim se abrir

vou desaparecer no fundo dos meus adeuses 

como palavras isoladas em um livro fechado

em uma prateleira incendiada 

debaixo do céu esfumaçado da Babilônia 

joaquim Cesário de Mello
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ECLIPSE

Primeiro foram os pequenos detalhes
como aquele sinal da bochecha direita
e o arqueado triste das sobrancelhas

Depois foi o contorno e as sombras ao redor
seguido do desvanecer do nariz e dos lábios
logo após foram as pálpebras os cílios
o amendoado dos olhos até que me restou
somente o verde semelhante aos meus

Acaso não fosse o remanescente das fotos
para onde foi o rosto de minha mãe?

Joaquim Cesário de Mello
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POMAR DAS FRUTEIRAS

No pretérito dos meus antigos
havia uma expressão que dizia
Cuida da tua vida
como quem cuida de um jardim
 
Ninguém nasce advogado
psicólogo bancário professor
comerciante empresário médico
engenheiro militar pintor
marinheiro ou poeta

Não chegamos com crachás
batas fardas ternos saltos
nem viemos encarnados
em empregos cargos ofícios
muito menos se é gerado
gasto aposentado ou velho
(a vida tem seu tempo
de uso e desuso) 

Um jardim descuidado
desprezado e esquecido
é um terreno baldio
de folhas e frutos decaídos
cheio de matos ervas daninhas
flores murchas e mortas
agreste coberto de entulhos
cheiro fétido e pestilento 

A gente só nasce é para ser jardineiro


Joaquim Cesário de Mello
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POÉTICA 2

Sou um poeta avulso

muitas vezes afeito aos impulsos
 

Mas impulsos não fazem poemas

descobrem apenas o que nos afetam
 

Quem faz a poesia poema

são os versos

que métricos ou assimétricos 

são sempre palavras suadas de sentimentos
 

Um poeta não é um fingidor

ele está sempre a revelar 

o que verdadeiramente sente
 

O poeta é um tradutor

das coisas que passam desapercebidamente  

e a poesia nada mais é 

que depreender o que antes parecia ausente 
 

Sou um poeta avulso

que em princípio aceita seus impulsos


Joaquim Cesário de mello
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BELA ADORMECIDA

Um dia vou dormir
como uma Bela Adormecida
por mais de mil anos
em que tudo em mim vai passar
 
Ao meu redor edificar-se-á um castelo
que os séculos irão encobrir
de arbustos matos e espinhos
e toda uma floresta infinda me isolará
do mundo em que serei alheio
e ao qual já não mais irei pertencer
 
Nem sequer meu túmulo
resistirá a minha ausência
e tudo que uma vez conheci
desaparecerá até mesmo
depois do meu próprio esquecimento

Em breve vou jazer
muito mais que mil anos
e nenhum beijo poderá
voltar-me sequer a acordar

Um dia vou dormir
como uma bela adormecida

 
 Joaquim Cesário de Mello
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PREFERÊNCIAS

Prefiro a quiescência dos hormônios
ao inquietar das testosteronas e das adrenalinas

o estalar dos papéis dos livros
que o salivar estéril dos bares

descobrir um verso novo em mil palavras
que mil frases já conhecidas
 
o ziguezaguear excitante das curvas
que a monotonia sonolenta das retas
 
a hipertrofia dos neurônios
que os dos bíceps dos tríceps e do abdômen 

a introspecção das cobertas dos dias chuvosos
que a extroversão suada das manhãs de verão
 
o desassossego ansioso das perguntas
que o calar dócil das respostas fáceis
 
a polissemia ambígua dos deuses
que o monólogo tedioso de um deus solitário

 Nasci
como dizia Sartre
para satisfazer a necessidade de ser eu mesmo
e não para satisfazer a necessidade do ser dos outros

Eu sou minhas escolhas

Joaquim Cesário de Mello
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POST MORTEM

Não há além depois de mim
e minha alma é tão recente quanto eu.

Já são tantas e tamanhas as ardências
que trago no peito e no pulsar das veias
o que nenhum inferno me há de ter reservado.

Ninguém me esperará depois de mim
sequer meus mortos ou minhas lembranças
pois no despejado azul do céu
não habitam anjos ou querubins
apenas pássaros que voam
indiferentes e alheios
à romaria terrena dos homens vagos.

São muitos os abandonados
assim como muitos abandonarei
mas quando nada mais restar
exceto a mudez das minhas memórias
e o vácuo geométrico da ausência
estarei quem sabe escondido
do meu rosto e da minha face
em um lugar que não existe
a não ser na exaustão dos sonhos
jamais consumados

E por fim
quando o fim vier
no fechar derradeiro das pálpebras
não haverá o encerrar de cortinas
nem o silenciar surdo dos aplausos
mas tão somente e apenas
o fechar deste rápido e estreito parêntesis.

Não há além depois de mim
e a vida é tão precoce quanto eu
 

Joaquim Cesário de Mello
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