AS MANGAS DE SANTO AMARO

Detesto velórios mas

gosto de visitar cemitérios
 

Ali tudo é tão calmo

como os mortos

e o tempo passeia sem pressa

pelas alamedas arborizadas 

de jambeiros, oiteiros e mangueiras

onde comecei a perder a infância

no Cemitério de Santo Amaro

 
São tantos os túmulos e gavetas

alguns de mármore uns de granito

outros de chão e vários amontoados

 
Há os adornados e os humildes

os lembrados e os esquecidos

os conhecidos e os anônimos

os santificados e os hereges

os floridos e os apagados

e todos sobrevivem aos seus domiciliados

 
Quando morrer 

meus sonhos virarão pó

e se transmutarão em seiva

a alimentar as veias das árvores

e o ovário dos frutos vindouros

 
Quando morrer

vou virar manga


 
                                                        Joaquim Cesário de Mello
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