Lista de Poemas

Sophia I


Procuro-te no sol da manhã, 
Procuro-te no luar inconsolado, 
Procuro uma réstia de ti 
Que habita agora no passado 
Penso e relembro 
Deste-me tudo menos tempo 
 
Regaste a nossa semente com o teu amor 
Que crescia numa bela flor, 
Cortada pelo caule num golpe de letargia 
É agora ornamento defeituoso 
Destinado ao lamento da terra fria. 
 
Encontro-me aqui 
Meio perdido, 
Meio de um todo partido 
Assente na ambição do teu ser  
Silhueta escondida no vulto do teu viver. 
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Sophia II



Observo-te agora, no barulho das ondas do mar 
Na sombra dos meus dias de sol,
Na lagoa que reflete o luar 
E no navio perdido, em busca do seu farol. 
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Resido alegremente no futuro


Resido alegremente no futuro, 
Numa realidade esperançosa que me acalma, 
Onde o calor da luz, pinta a tela da minha face,  
E desenha um sorriso desde a superfície dos lábios  
Até ao profundo da minha alma. 
 
Esta, que já de corpo carece, 
Enaltece o meu íntimo no exterior, 
Onde revivo a felicidade de criança que o “agora” amadurece 
Esquecendo-me, deliberadamente, que o presente, 
Representa a ideia de um futuro anterior. 
 
Abruptamente, cai o pano sem aparente razão 
E ouço desmedidos aplausos para esta interpretação atrevida. 
Com uma vénia agradeço a ovação, que pensava ser ausente, 
E percebo que a vivacidade das linhas, traçadas no guião,  
Já não representa o monólogo da minha vida,  
Mas o epílogo do meu presente. 
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Se um dia a saudade te achar


Coração desfigurado 
Que incentiva o meu pensar 
Numa luta desigual 
Porque não me deixas sonhar? 
  
Diz-me ó coração apressado, 
Que minha razão tende a não acompanhar, 
Porque foges nesse frenesim? 
  
Se um dia a saudade te achar, 
Não te equivoques! 
Coloca a tua calejada mão no seu ombro, 
E, olhando-a nos olhos, 
Pede-lhe que parta de mim.  
 
Já lhe dei tudo o que tinha. 
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Em terra de cegos quem tem olho é rei



Há quem ouse comentar: 
Em terra de cegos quem tem olho é rei. 
 
Sinceramente, gostaria de saber  
De que serve observar tal funesta paisagem, 
Fomentada pelo olhar pretensioso  
De quem nunca olhou para dentro.  
Prefiro a acalmia da cegueira, 
Onde vejo o que sinto, 
E não sinto o que vejo. 
Onde procuro enaltecer a verdade no meu íntimo, 
E reconhecer-me na faceta mais fiel de mim,  
Resguardando-me dessa escuridão avassaladora, 
Que, apesar de tudo, 
Forma a minha identidade.  
 
Em terra de cegos quem tem olho é rei. 
Noutra realidade 
(que não a minha) 
Talvez... 
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Escadaria


Encontro-me plantado 
Na base enraizada da longa escadaria de minha casa. 
Penso em subir, 
Hesito. 
Decido que não quero subir. 
 
Apercebo-me do movimento intrínseco e involuntário, 
Um nervosismo incontrolável, 
Que me toma e me doma. 
 
Já não sou dono de mim. 
Encontro-me no segundo degrau. 
 
Olho, por cima do ombro, 
Para o desgraçado que para trás ficou e me abandonou. 
Pedi-lhe que voltasse. 
Disse-me que já não tinha mais nada a oferecer 
Exceto a melancólica lembrança de um excerto já lido, 
Um sentimento gasto, meio esquecido, 
Que o comum mortal denomina por... 
Saudade. 
 
Aqui de cima 
Parece loucura dizê-lo, 
Mas ainda bem que subi essa escadaria.
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Transeunte


Dizem que não sei cumprir horários, 
Que me atraso sempre sem aparente razão, 
Como se houvesse um conluio divino 
Organizado para tornar irrealizável os meus planos. 
 
Todas as manhãs 
Sou vítima desse defeito intrínseco, 
Quando, insistentemente, faço questão  
De perder o primeiro comboio da manhã. 
Não é que eu o queira evitar,  
Ele é que teima em estar sempre um passo à minha frente. 
 
Por isso decido ficar aqui, 
Meio desamparado, 
No banco da paragem,  
Já sujo e desgastado 
(Parece que não sou o único) 
A vê-lo partir implacavelmente pelos carris, 
Levando com ele, 
Todos os dias, 
Um pequeno pedaço de mim. 
 
Resta-me então a inevitável esperança, 
De que, amanhã,  
Os deuses decidam brindar em meu nome 
E me devolvam os segmentos de “ser”, 
Que involuntariamente se perdem 
Nas cinzas e no fumo 
Expelidos pela locomotiva. 
 
Nessa altura, 
Pode ser que a apanhe. 
Se não me atrasar... 
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Autobiografia



Sou quem sou, 
E, por vezes, também quem acham que sou. 
De tanto ser  
Não sou nada,  
Ou talvez pensem que não seja. 
Olho para dentro, sinto-me completo, 
Existo na minha inexistência. 
Felizmente. 
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