Transeunte


Dizem que não sei cumprir horários, 
Que me atraso sempre sem aparente razão, 
Como se houvesse um conluio divino 
Organizado para tornar irrealizável os meus planos. 
 
Todas as manhãs 
Sou vítima desse defeito intrínseco, 
Quando, insistentemente, faço questão  
De perder o primeiro comboio da manhã. 
Não é que eu o queira evitar,  
Ele é que teima em estar sempre um passo à minha frente. 
 
Por isso decido ficar aqui, 
Meio desamparado, 
No banco da paragem,  
Já sujo e desgastado 
(Parece que não sou o único) 
A vê-lo partir implacavelmente pelos carris, 
Levando com ele, 
Todos os dias, 
Um pequeno pedaço de mim. 
 
Resta-me então a inevitável esperança, 
De que, amanhã,  
Os deuses decidam brindar em meu nome 
E me devolvam os segmentos de “ser”, 
Que involuntariamente se perdem 
Nas cinzas e no fumo 
Expelidos pela locomotiva. 
 
Nessa altura, 
Pode ser que a apanhe. 
Se não me atrasar... 
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