Escritas

Lista de Poemas

Breathing

não tenho a certeza
que não vi
se foi com o sorriso em luz, com as palavras curtas ou com uma mão estendida,ou com isso tudo que carregaste e mais aquela tua parte do coração a transpirar bonito,
que te interpuseste
entre os fios puídos e baços dos meus entremeios e as flores do mal

mas
o meu peito fez o movimento de declinação de onda a desfazer-se
e o dia deitou-se na fatia de sol.

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Tormenta

Sei do tremor dos nós dos teus dedos a compor o mundo
pela cadência e profundidade das nervuras das velas
a rasgar ventos à conta dos estilhaços
ou a desfilar doce com uma réstia de novo.

- E os nós dos teus dedos
a armar palavras como se içam velas
a urdir a grafia de gritos com a urgência de portos - .

Sei do bater do teu coração pelo tremor dos nós dos teus dedos
no ondeado negro das noites de mar picado
a morrer no silêncio branco das ondas
que serenam na praia.



Storm, Point Sur, Monterey Coast CA, 1942 | Ansel Adams
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coordenadas

muito para além das tuas palavras,
é no intervalo delas,
na sedução do que não dizes,
que descubro a luz de todos os verões
para ver o rasto aveludado dos amores imperfeitos
a fazer o chão que me falta.
e falta tanto chão. e casa também.
não é o tempo que falta, é o lugar.
centro fotográfico álvarez bravo | oaxaca de juarez, oaxaca, méxico

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Celebração

é nos dias longos e opacos
que mais me aproximo da tua imagem.

com as mãos abro uma estrada no negrume
que me leva ao mar dos teus olhos
e encontro os teus braços feitos barcos de outubro
a fazer riscos no céu para roubar as estrelas
iguais ao meu vestido, mas que tu não te lembras,
tal era a pressa de me iluminares.

num quase finados
numa quase noite
a disfarçar a timidez com movimentos de lábios
cumpriu a purificação
que lhe escrevera
a ondulados
no lindo lençol de seda negra.

Herbert List | Liguria, Itália, 1936



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Prata escovada

do veludo azul-noite
em que a encontrei estendida junto ao cais
ponteada a sorrisos da artista
orgulhosa de erguer a manhã na exuberância do arco
desenhou fios de pérolas
a espirais de luz
que se estenderam pelas águas
até encontrar o redondo da tarde
no arco da timidez
em que baloiçam olhos perdidos
que me levam a ti.

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das descobertas do abismo

encontrar-te num qualquer traço
vestido a redondo de palavras, flexão de músculo ou brilho de olhos,
em apontamentos perenes
de memória
mesmo quando o tempo é de marés vivas
e as vagas teimam em apagar os desenhos
em movimentos inglórios
das dobras dos dias que se
enlaçam
sorvem
escoam.

Bill Brandt


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Casa

Olhar o céu através das folhas das árvores, das águas furtadas, dos edifícios muito altos esventrados de tecto, de monumentos como aquele feito de tubos que encontrei em Suomi - Onde é? E se te calasses?... - é sempre um deslumbramento. Mesmo que seja um deslumbramento triste. Sim, a sedução, o encantamento e a admiração, também podem vir com a tristeza.

Nessa posição, deitada, de baixo para cima, nos intervalos da oliveira, o céu surge-me como uma enorme cúpula. Para mim, e sem que faça qualquer associação mística, há algo de protector nas cúpulas. Um afago, um abraço, um quente de pele. Os abrigos são assim.

Oliveira | Barragem de Belver | Setembro 2016
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A rapariga que gosta de livros

Com alguma frequência leio e oiço relatos de estratégias usadas para motivar para a leitura de livros, sobretudo princípios direccionados para os grupos etários mais jovens.
Mais do que pensar nas formas que melhor servirão para atingir o objectivo, mergulho deliciosamente no meu universo infantil.

Desde que aprendi a ler, subiu-me a vontade de comer palavras amarradas em livros. Uma vontade para a qual ainda hoje não tenho uma explicação, já que no ambiente familiar e no grupo de amigos não havia o hábito de ler com regularidade.
Apesar de não ter uma explicação, sei que houve uma circunstância que serviu para alimentar esse gosto e provavelmente teve uma expressão significativa ao nível da consolidação do meu hábito de leitura. Refiro-me às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que, à época, em muitas pequenas localidades do interior, como era a vila onde vivia, funcionavam como o único meio de acesso a livros.

Este serviço foi criado pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1958, de acordo com sugestão de Branquinho da Fonseca, e almejava abranger todo o território nacional. Começou com quinze carrinhas cinzentas, da marca Citroën, e teve uma grande expansão logo no início. Por exemplo, em 1961 já havia quarenta e sete veículos a circular, com o serviço gratuito de empréstimo domiciliário de livros. Estas bibliotecas itinerantes funcionaram até 19 de Dezembro de 2002.

A carrinha ia duas vezes por mês à minha terra e ficava estacionada no largo principal cerca de duas horas. Nós, os miúdos inscritos, esperávamos com ansiedade pela nossa vez. Um cartão pequenino numa bolsinha de plástico era o nosso passaporte para o mundo dos livros.
A certa altura comecei a notar que o limite de livros estipulado para o empréstimo domiciliário era escasso para as minhas necessidades. Então, o conservador-bibliotecário - era assim que se designava o "dono" da nossa carrinha - disse-me que como era assídua e não estragava o material, deixava requisitar mais dois livros por quinzena e eu fiquei muito contente. Assim, tinha sempre livros para ler!

Também nessa época, o que pedia pelo Natal e aniversário era livros. Os da "Anita" deslumbravam-me e ficava furiosa quando teimavam em substitui-los por pijamas e meias.

E há um episódio engraçado com livros. Ou melhor: com um livro proibido.
Um dia, em casa, numa gaveta da cristaleira, descobri um livro branco com letras azuis e vermelhas, cuja conjugação resultava em "Método de Ogino-Knaus".
Bom, na minha cabeça de criança funcionou assim: se este livro está separado dos outros, num sítio invulgar e de raro acesso é porque tem alguma coisa de especial. "Será melhor lê-lo", pensei. Sim, nas tardes que passava sozinha dei conta dele. Claro que os meus oito anos, e numa época em que havia menos informação, não permitiram entender nada. Mas aquelas figuras com as trompas de Falópio ainda hoje são desenhos deslumbrantes que habitam a minha memória visual. É que nem sequer imaginava que tinha trompas na barriga! E isto soa-me - sim, soa-me - a muito giro porque a trompa é o instrumento de sopro cujo timbre mais se assemelha à voz humana.
Da primeira vez que o ginecologista me deu uma explicação muito pormenorizada, com o auxílio de uns rabiscos no bloco das receitas, ri-me. "Percebeu o que lhe disse?", perguntou. Disse-lhe que agora sim, que estava perfeito e que sentia as minhas trompas devidamente encaixadas!


Henri Cartier-Bresson

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Tristeza

Há uma perturbação acrescida na tristeza que se apanha nos dias compridos e limpos. Uma distensão e claridade que se afiguram violentas pelo contraste com o negro baço que não se contenta com a alma e alastra aos olhos.

As noites a quererem fazer pendant com os dias, não deixam o corpo descansar e desafiam memórias.

Filamentos invasivos, a desinquietar sinapses.
O nocturno desnuda a pele e cospe na mentira. Até amanhã.
A solidão é um animal danado sempre pronto a abocanhar. Sempre te disse.
A caixinha dos sonhos... Não tenho força para a abrir.

A tristeza é mais estranha no Verão.
A tristeza detesta o Verão. Sobretudo se for Agosto.


Sadness | William Wetmore Story | Angel of Grief

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passo a passo

no escorrer descansado dos dias,
aquela linha que segue sem freios ou normas que pressionam para decidir e para agir,
bebe-se a camada que sabe a leveza,
que até pode saber a moleza,
para mais tarde entender-se ser alimento.

parecido com o nevoeiro mas sem toldar.
é mais como um soro que se vai entranhando no morno dos organismos
até os chamar à vida.

é nesse tempo que segue sem tempo de dentro
e que até dizes não perceber muito bem o que está à volta,
que te espreguiças e me ensinas sem saberes (ou sabes?)
que só se ganha e conquista alguém quando também é esse o seu desejo.

Hiroki Inoue | Local: Hokkaido, Japão | 1º. lugar na categoria "Natureza" - The 2016 National Geographic Traveler Photo Contest
Romance is in the air. It was the time of day immediately following sunset. I heard a voice. "Wherever you go, I will follow you" the voice says.
H. I.


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Comentários (1)

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davinci
davinci
2021-01-30

muito bom o seu poetar...