Uma carta para a Sophia

A Sophia faz hoje anos. Noventa e oito anos.
Até há três dias não tinha reparado que ela era de agora, do início de Novembro. Foi uma coincidência bonita e feliz, pelo menos para mim, no sábado ter pedido 'para ficar' com a Sophia aqui.

Não sei se isto que vou dizer acontece com toda a gente ou com muita gente... Comigo acontece muito.
Fixar mais alguém, conhecido ou não, ou uma coisa ou um lugar, ou até decidir uma viagem, por causa de um ou dois pormenores. Nem sei se deva chamar pormenores porque, afinal, acabam por ser as peças que me empurram para a frente e que fazem com que agarre o interesse e não desista de ir procurar mais. Muitas vezes sem dar por isso, mas está lá.

Também me aconteceu com a Sophia.
Até aí há uns quinze anos conhecia a obra dela muito superficialmente, um conhecimento quase restrito ao que tinha aprendido na escola primária. E o meu interesse pela Sophia voltou há década e meia por um apontamento que li em "Sul", um livro de viagens do filho Miguel. A certa altura o Miguel conta que viajaram uma única vez juntos, a Roma, e que a mãe ao notar-lhe alguma pressa e impaciência quando estavam sentados na Piazza Navona, a contemplar, disse-lhe: "Miguel, viajar é olhar."
Como também eu gosto de conhecer novos lugares e sei o que significa a vertigem das viagens toldar-nos essa aprendizagem maior que vem da contemplação, senti que aquela frase era um murro bom no meu estômago. Preciso de ler mais desta mulher, disse naquela altura. E assim foi, embora de forma avulsa, lia o que ia aparecendo e sem pensar muito em cumprir.

Há cerca de dois anos e meio reservei pela primeira vez um quarto numa unidade de turismo social do Estoril. Este espaço tem alguns quartos temáticos, também inspirados em poetas, o que eu desconhecia na altura e também só tive a preocupação de dizer a categoria que pretendia.
Aquando do check-in, e sem que ninguém me tivesse visto antes ou falado comigo de voz, a senhora disse-me que tinha guardado para mim o quarto com decoração inspirada na poesia da Sophia e no mar, que havia qualquer coisa que a tinha feito pressentir que me assentava bem. Sim, era verdade, ao mesmo tempo que achava aquela coincidência divertida e deliciosa. Recordo-me ainda da sensação de, ao abrir a porta, dar com a frase "Metade da minha alma é feita de maresia..." De vez em quando sinto que esta memória se embrulha com a vontade de ler e reler mais da Sophia.

Provavelmente, se não tivessem sido estes dois pequenos acidentes - o Sul, do Miguel; o meu quarto de férias cheio da Sophia - eu não estaria aqui, verdadeiramente deslumbrada, posso dizê-lo, com tanta 'coisa' boa que tenho encontrado sobre a vida e a obra desta mulher.

Nalguns autores é mais significativa e mais recorrente a associação entre memórias das suas vidas reais e palavras ou expressões que aparecem nos escritos.
Mar, praia e jardim, são 'elementos físicos' muito presentes na poesia de Sophia e é delicioso entender como tal se entrosava com os sítios em que viveu, com as memórias de infância, com as suas pessoas.
E agora estou aqui a pensar que não sei se os poemas são sempre histórias... Histórias reais ou baseadas no real, é o que quero dizer. Na Sophia aconteceu muito, como a própria confessou. Por exemplo, no poema As Rosas, que diz: "Quando à noite desfolho e trinco as rosas", sobre o qual Sophia esclarece: "Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semi-abandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as. No fundo era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce."

Se eu só pudesse eleger duas palavras para dizer o significado da poesia da Sophia, hoje seriam: doçura e determinação.


Isabel Pires
6 Nov. 2017


Quarto 22 da unidade de turismo de "O Século" (Estoril, Lisboa, Portugal), com decoração inspirada no poema "Mar" da Sophia | Decoradora: Sofia Novais | Estadia em Julho 2015
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