Honoré DuCasse

Honoré DuCasse

n. 1799 FR FR

Honoré DuCasse, além de um pseudónimo, é também um heterónimo, uma personagem literária imaginária com uma personalidade demarcada e muito própria. "O Libertar das Sombras", mais que uma antologia, é o deixar a "nu" a sua intimidade enquanto poeta.

n. 1799-06-29, Paris

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Aforismo

Somos todos iguais na diferença.
Mas é isso que nos separa no preconceito
e nos une na mortalidade
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Poemas

96

Tardes de ouro

Lá dentro,

Do vento

Tinhas a cor do desbulho

E das tardes de ouro

O cabelo adivinhava-te,

Corpo desnudo

A queimar o raiar

Sem saberes

Fazias arte

Numa primavera

Qualquer

 


209

Regresso

Foi ao meu corpo que regressei 
quando fragmentos do meu sentir prescreveram
sem que a primavera tivesse acontecido

 
174

Solitude

Não sei se eleve ou releve

A sórdida condição de alienação humana

Estar só é olhar-se

Ser-se na solitude

É caminhar o infinito

Desfazer montanhas imaginárias

Calcorrear bermas adormecidas

E num só gesto

Expiar o sentimento ímpio

Tornando mais alto

O nome dos homens
161

Farol solitário

Quanto melhor conheço a humanidade

Mais me apraz habitar um farol

Não um farol qualquer

Mas daqueles que emergem do mar

Habitam as vagas

e

No silêncio

Escrevem o marulhar das ondas

 
217

Rio

Sei de um rio alado

Para lá do tempo

Que se escreve de longe

Como se fosse vento

É nele que amanheço

A vida inteira

E

Nas suas margens cansadas

Me abrigo

Sonho

E envelheço
220

Envelhecer

Há cada vez menos lugares para envelhecer

Sem passado

Ou memória

Que nos fazem esquecer

Nem no poema queremos ficar

Com medo de o acabar

Estranho significado este

Que a vida tem

Onde não nos demoramos para não envelhecer

Como se a velhice fosse o começar

De um lugar

Onde não queremos chegar

 
242

Lua por inteiro

Deixa que te tome o corpo

E a lua por inteiro

A noite súbita

De um qualquer Janeiro

 
270

Idade do tempo

Se me demoro em mim

Para além da idade

É porque os anos já não esperam

E as noites ficaram maiores do que os dias
310

Humanidade nua

Saudades de te oscular o nome
e perder-me na lenta curva do teu rosto
Há muito que o sorriso nos perdeu
e os olhos se olham,
sem se verem
como se estes fossem a verdade
assustada e crua
de toda a humanidade nua
289

Marés

Diz-me, quantas luas te habitam,

Sem que a noite se dê conta?

Que margens te sobram depois das fragas?

Entre marés e rugas desenhadas pelo tempo

Deixaste partir a idade ao vento

Na maresia de ontem

Morta, ao degelo

Sem alento
276

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