Escritas

Lista de Poemas

O braço do fazendeiro - parte 1

Eu anelava o findar do dia. De repente uma sombra veio e cobriu-me. Então ouvi a voz de um dos empregados do fazendeiro:

"O patrão quer falar com você."

Sebastião era um sujeito ruivo, barbudo. Deveria ter quase os seus quarenta anos. Ereto, ele montava um grande cavalo marrom do outro lado da cerca, provavelmente o seu cavalo favorito. Usava uma camisa de algodão aberta na altura do peito, de onde saiam espessos tufos de cabelo.

"Comigo?", balbuciei.

Ele assentiu, baixando a aba do chapéu e ocultando um rosto severo. Moveu as rédeas e as pernas e deu meia volta, afastando-se. Eu, por minha vez, terminava de ordenhar a última vaca. Sequei a testa. Coloquei o balde de canto, assim como os demais. Deixei os meus ombros magros caírem e respirei fundo.

"Só irei tirar a lama das botas primeiro", eu respondi com um sorriso ao mesmo tempo forçado e tímido.

Fiz conforme o prometido. Mais tarde bati na porta com os nós dos dedos. O som de passos, e então a maçaneta girou. Dois olhos apareceram na fresta. O fazendeiro abriu-me a porta, e usava um belo cachecol listrado. Uma mesa do lado esquerdo da sala.

Disse-me: "sente-se" e eu me sentei, como um cachorrinho. Tentava me controlar. Encurvado, as mãos trêmulas sobre a mesa, evitava olhar para o seu rosto.

"Que tal uma bebida?", perguntou ele num tom amistoso.

"Não, obrigado, senhor", foi a minha resposta.

"A bebida é minha", ele disse erguendo a taça cheia e pousando a outra mão sobre o peito. Enfim uma bebericada. "Já ouviu falar em meritocracia?", perguntou.

"Não", respondi. "O que é isso?", perguntei, tentado parecer verdadeiramente interessado.

"Quer dizer que cada um merece o que tem", ele disse. "Existem direitos invioláveis... Eu mereço tudo o que tenho, não mereço?"

"Claro, claro!", eu me apressei em dizer. "O senhor é muito trabalhador, desde... desde... desde sempre!"

Seus olhos estavam vermelhos devida à bebida. Sua boca exalava um forte cheiro de álcool, capaz de embebedar um exército.


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Plano para enriquecer N° 1

Eu moro em um barraco e só tenho uma bicicleta, mas conheço muitas pessoas que usam carro com frequência. Pensando um pouco, talvez quase todas as pessoas nessa cidade, nesse estado, nesse país usem carros. Carros poluem, bicicletas não poluem. Parece-me portanto que se eu quiser, posso processar as pessoas que poluem o ar com os seus carros. Parece-me também justo que eu possa cobrar pelo menos dez Reais de cada uma delas como indenização ou como uma pequena tarifa, já que o ar impuro que sou obrigado a respirar, entre outras coisas, afeta a minha saúde, algo que para mim possui um valor incalculável. Por fim, depois de cobrar dez Reais de cada uma terei uma quantia considerável. O que pretendo fazer com essa quantia? Comprar um carro e uma casa no lado rico do Rio. Se eu for tarifado ou receber um processo de outro ciclista, como terei feito antes disso, eis que perderei apenas Dez Reais. Ainda é um baita lucro!

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Plano para enriquecer N° 2

As pessoas possuem direitos sobre o próprio corpo. É difícil definir os limites do corpo. Portanto, também é difícil definir os limites dos direitos relacionados ao corpo. A perna robótica de um deficiente físico é parte do seu corpo? Achamos que sim, ainda que seja artificial. Reflitamos. O corpo da mãe de repente se transforma no corpo do filho e ela, progressivamente, vai perdendo o direito sobre ele. Então, num dado momento, não mais poderá abortá-lo, como se fosse seu corpo, e não mais poderá dizer: "meu corpo, minhas regras". Do mesmo modo, penso eu, depois de um tempo o trabalhador e os meios de produção se fundem com vigor, a ponto de confundirem-se e tornarem-se uma única coisa. Quebrando o silêncio, de súbito grita uma costureira no meio da fabrica: "eis que esta máquina de costura se tornou uma extensão do meu corpo!" E, de fato, passados muitos anos naquele lugar, sentada, inclinada, quieta, a máquina de costura se torna parte dela. Não só a velha máquina, como também a tesoura, o tecido, os botões, a linha, as paredes, etc. etc.

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Luz

Alastra-se a luz,
adentra as cavernas fundas e intransitáveis.
Desvanece-se a obscuridade da alma,
desvanece-se a alma, em parte, obscura.
Quanto mais me aproximo da claridade,
quanto mais se alarga a luminosidade,
quanto mais se robustece a lucidez,
menos alma me resta,
mais facilmente desfaço-me,
tal qual papel embebido,
tal qual um besouro contumaz na lâmpada.
Porque o homem fatigado procura repouso na sombra,
porque luz em demasia nada revela, cega-nos,
porque logo cedo me dissolvo no "haja luz".

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A Tempestade

Sob o vento impetuoso
Tomadas por seu espirito indolente
Dançam as árvores imoderadamente.
São tão suntuosos os seus meneios
Que se outrora envergadas, agora partem ao meio.

Despindo-se de suas folhas e de toda altivez
Desguarnecendo-se apressadamente de suas flores
Revelam ao mundo a sua nudez
Fomentando no céu um emaranhado de cores.

Assobiantes sob o firmamento enegrecido
Tais quais viajantes desavisados
Consternando-se por seus galhos estropiados.

A despeito do temor de um fenecimento iminente
Permanecem esperançosas e afoitas
Espalhando diminutas sementes.

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Perguntou-lhe o sol

Perguntou-lhe o sol:
"Por que é que insistentemente me trai, bela flor,
com a água refrescante da chuva?
Pois sob a superfície seca da terra,
longe do alcance dos meus olhos,
ela abraça as suas raízes sem nenhum pudor!"

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A víbora

Sei que definhas enquanto te vingas,
víbora pérfida e atroz.
Em espumante obstinação praguejo-te e ultrajo-te a madre.
Ainda sinto o palpitar da ferida;
gemidos febris, assombrosas alucinações
perturbam-me a cabeça úmida e entorpecida.
Corpo convulso;
imagem pálida, informe e confusa a rodopiar.
Como te comprazes, oh besta perversa,
no ranger dos dentes sempre que não encontram na boca seca a língua inquieta a fim de mordê-la!
Por que me desampara o cobertor caído fora da cama?
Porventura, vendo-me cair em desgraça associou-se à ela?
Rá, rá, rá! Lá está ela, a maldita serpente, fitando-me, fitando-me,
com suas presas peçonhentas agarradas ao meu calcanhar!

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Uma tarde

Um mar de gente. Entrei no trem dando cotoveladas. Assim que conquistei o meu lugar, entre um aleijado e uma moça grávida, entrou uma velha senhora com uma bengala na mão. "Essa vaga é preferencial", ela disse. "Desculpe, minha senhora", eu respondi respeitosamente. "Sinto dizer-lhe, eu sou contrário a qualquer forma de coerção ou assistencialismo estatal." Ela olhou para mim entendendo bulhufas. "O quê?", perguntou. "Nós, liberais, valorizamos a competição, a liberdade, a meritocracia. Eu, como pode ver, cheguei aqui primeiro. A senhora, sinto dizer, ao exigir um lugar já ocupado, está demonstrando inveja. Constrange-me! Recalcada, sim, a senhora é uma recalcada!", expliquei. Depois de me ouvir com atenção, um homem portando um chapéu coco ficou vermelho e disse indignado: "Por Deus, rapaz, que diabos!, essa companhia de trem é privatizada!" E, diabos mesmo!, era! e tive que levantar o meu traseiro de lá.

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O homicida

O corpo que boia na água é leve
- não tem mais do que setenta quilos -
mas me pesa tanto que...
me tomba a alma.
Curva-me, põe-me de joelhos.
Meu corpo,
se vivo, é trêmulo.
É como se já ardesse no inferno!
Oh, tu me praguejaste?
Estás morto, morto!
Como ainda me vences por nocaute?

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O braço do fazendeiro - parte 2

"Digo mais: tenho o direito de proteger tudo o que é meu!", ele prosseguiu. "Pois bem, meses atrás fiquei sabendo que um crioulo entrou sorrateiramente em minha casa, na cozinha, a noite, e comeu um bolo de frutas que eu tinha sobre a mesa. Tratei de me informar imediatamente sobre o assunto.
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