Escritas

O braço do fazendeiro - parte 1

Francys Charlie
Eu anelava o findar do dia. De repente uma sombra veio e cobriu-me. Então ouvi a voz de um dos empregados do fazendeiro:

"O patrão quer falar com você."

Sebastião era um sujeito ruivo, barbudo. Deveria ter quase os seus quarenta anos. Ereto, ele montava um grande cavalo marrom do outro lado da cerca, provavelmente o seu cavalo favorito. Usava uma camisa de algodão aberta na altura do peito, de onde saiam espessos tufos de cabelo.

"Comigo?", balbuciei.

Ele assentiu, baixando a aba do chapéu e ocultando um rosto severo. Moveu as rédeas e as pernas e deu meia volta, afastando-se. Eu, por minha vez, terminava de ordenhar a última vaca. Sequei a testa. Coloquei o balde de canto, assim como os demais. Deixei os meus ombros magros caírem e respirei fundo.

"Só irei tirar a lama das botas primeiro", eu respondi com um sorriso ao mesmo tempo forçado e tímido.

Fiz conforme o prometido. Mais tarde bati na porta com os nós dos dedos. O som de passos, e então a maçaneta girou. Dois olhos apareceram na fresta. O fazendeiro abriu-me a porta, e usava um belo cachecol listrado. Uma mesa do lado esquerdo da sala.

Disse-me: "sente-se" e eu me sentei, como um cachorrinho. Tentava me controlar. Encurvado, as mãos trêmulas sobre a mesa, evitava olhar para o seu rosto.

"Que tal uma bebida?", perguntou ele num tom amistoso.

"Não, obrigado, senhor", foi a minha resposta.

"A bebida é minha", ele disse erguendo a taça cheia e pousando a outra mão sobre o peito. Enfim uma bebericada. "Já ouviu falar em meritocracia?", perguntou.

"Não", respondi. "O que é isso?", perguntei, tentado parecer verdadeiramente interessado.

"Quer dizer que cada um merece o que tem", ele disse. "Existem direitos invioláveis... Eu mereço tudo o que tenho, não mereço?"

"Claro, claro!", eu me apressei em dizer. "O senhor é muito trabalhador, desde... desde... desde sempre!"

Seus olhos estavam vermelhos devida à bebida. Sua boca exalava um forte cheiro de álcool, capaz de embebedar um exército.


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