Uma tarde
Francys Charlie
Um mar de gente. Entrei no trem dando cotoveladas. Assim que conquistei o meu lugar, entre um aleijado e uma moça grávida, entrou uma velha senhora com uma bengala na mão. "Essa vaga é preferencial", ela disse. "Desculpe, minha senhora", eu respondi respeitosamente. "Sinto dizer-lhe, eu sou contrário a qualquer forma de coerção ou assistencialismo estatal." Ela olhou para mim entendendo bulhufas. "O quê?", perguntou. "Nós, liberais, valorizamos a competição, a liberdade, a meritocracia. Eu, como pode ver, cheguei aqui primeiro. A senhora, sinto dizer, ao exigir um lugar já ocupado, está demonstrando inveja. Constrange-me! Recalcada, sim, a senhora é uma recalcada!", expliquei. Depois de me ouvir com atenção, um homem portando um chapéu coco ficou vermelho e disse indignado: "Por Deus, rapaz, que diabos!, essa companhia de trem é privatizada!" E, diabos mesmo!, era! e tive que levantar o meu traseiro de lá.
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