Lista de Poemas

JARDIM BOTÂNICO – PRELÚDIO

- Ⅰ -
Há um orvalho que desce e corre em direção a carne
No inverno: senti à meia-noite na praça Itália
No andar apressado, na solidão da noite
O vapor gélido persegue a alma e diz: 
— Passo manso que te alcanço, apressa-te para eu te ferir os ossos na esquina da Sabbag
Ruas dizem o destino das lareiras: prédios redondos 
Há lembranças impregnadas do inverno curitibano
Dos estrangeiros acolhidos no jardim do Éden


- ⅠⅠ -
Há uma brisa suave e doce nos dias de verão
Que se renovam a cada manhã: senti ao meio-dia no Botânico 
Deitado na relva, afagado pelo céu
Ventos levitam a mente pesada, dissipa o cinzento 
Os olhos se abrem ante o fulgor do dia
Um espelho d’água reflete o infinito 
E os mistérios da vida se abrem no pergaminho da esperança
Há uma pequena mata com trilhas que levam para além da morte
Penso ser aos andantes, o renovar da carne e o conservar dos ossos

 
- ⅠⅠⅠ -
Retas de pedras, abertas sem ermo
O sol se levanta e a relva floresce
O viver da lembrança levada a bom termo
Em paz, na esperança, a vida efervesce

Há uma saudade que fica na esquina da memória
Olho e apenas varais se acham além da realidade

Os dias se vão e o passado implica
No que foi, e o que pode ser
A mente explica, mas a saudade fica
Da cerejeira: a sua sombra ter

 

 

 

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BAILARINA

Como tu danças!
É arte, e fazes dela (ofício)
O tempo é teus pés flutuando 
Na música que te convida
A celebrar a vida

Como te soltas nos passos!
Faz-me como ante o mar
Sentindo as ondas
Me levar nos movimentos

Transladas como a Terra 
Trazendo as estações
E a paixão que libertas
Encontra outra dimensão
A Alma repleta
No pórtico da arte

Como tu vives!...
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CARNE FRESCA

às pressas veio e sorriu
sem dó, foi-se, partiu
sangrou a carne fresca
e não olhou para trás
malvadeza, por que sorriu?
por que deixou tua presa 
às moscas?
na agonia, no delírio
anêmico, amarelado
necessitado do sangue teu?
a sede do teu suor
por que me deste
de beber a tua seiva?
prometido foi seu corpo e alma
guilhotinada a promessa
encapuzada, com pressa
sem piedade

carne fresca sem idade
sem chão, prisioneiro
no tempo aprisionado
pisoteado pela saudade

por que me escolheu?
por que a mim?
por que não chocolates?
por que cortou minhas asas?

ralei-me a andar
não te achei
o deserto ressecou
meus olhos
não mais te vi
secou minha garganta
não mais gritei
secou meu coração
não mais te amei

amei-te muito
com o sorriso teu
teu, era teu
viu minha liberdade
e quis voar                                                                                                                        
me amarrando
ao pé da tua vontade

porque minha carne
era fresca
era doce
era inocente
era necessitada
de tudo
você era tudo  
eu, o efêmero
descartado no tempo
levado no vento

no torto caminho
eu no tempo
tempo seco
rachava o chão
estéril nos ventos
levado ao ermo

se tu não viesses
não me farias um homem
não me farias um verme
não me farias um reles
não me farias um troço
estaria chovendo
as cores voltariam…

mas se te culpo
por que te culpo?
eu sou o culpado
fiz-me tudo isso
por ter amado
consentir
o teu sorriso
e ir às pressas
ao teu encontro

      

 

      

 

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MUJER

En la forma de nada comparable en este mundo;
tan noble y hermosa, que me pierdo en un latido profundo

de mi corazón entregado a los encantos de ese vivir.
De tu vientre brota la vida y el amor: servir…
Y en tus brazos, en tu mirada tierna, el sobrevivir
de tu semilla, que amas y quieres bienvivir.

Eres fuerte, mujer; eres suave, delicada: pétalo de vida
Todos los días, temprano florece, comprometida

al hacer de este mundo un lugar más feliz cada segundo.
Y ese es el sentido de la vida: contigo convivir
con respeto y gratitud por tu amor sin medida.

 
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BRUMAS DE OUTONO

raia a aurora em brumas de outono
um véu cobre meus olhos nesse dia,
mas um vento permeia
como raio de luz a dizer-me:
não tens mais um coração seco
como folhas amareladas caindo no chão,
sem sentido no caminhar

as folhas caem e pousam
mexem-se e remexem-se no chão
levadas pelo vento

quando caio, pouso e me levanto 
não me remexo, apenas sigo,
apenas sinto o sumir das brumas
e o ar fresco de um dia de outono.

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NÃO ME ABANDONE

Céus, esperança!
Não aprontes comigo
Se fores embora
Deixares minha vida
Quem de mim cuidará?
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TODOS OS DIAS SÃO DIAS

Tão logo aponta o dia, o cantar do pardal
Escolho o destino deste mundo, que me vem em retalhos 
E me diz a rotina dos dias, do levantar-se e cursar

Começo a remendar uma estrada
Para caminhar do bocejo ao sono
Um tapete vermelho
Quero um tapete vermelho sobre os remendos
Um sossego, sossego de rei
Ao saborear a alegria do povo
Um banquete diário quero
Um caminho notável
Aconchego da igualdade

Remendo meus dias, uso linha forte…
São dias de renovo, dias de arrepender-se 
Dias de perdoar, sim, de esquecer 

   BOM DIA!

Dias de acolher e descansar
   De dizer palavras mágicas
Dias de acalentos
   Incansáveis dias
Diariamente  
   Dias de criança
Inesgotáveis
   Afáveis
Inefáveis, escolho

 
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ALMA

O sono, um sonho. Desperto
Corpo e espírito entrelaçados
Pois, os tenho desejados
Na jornada, sem ser um deserto

Um oásis esverdeia ao redor
Intacto, e assim seja a vida
Essencialmente enaltecida
E que dela, se extraia o melhor
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ÉGIDE

Das torres do mundo
Do alto vejo longe
Longe de todos os olhos
O mundo dos outros

No meu mundo — ais
Não vejo das torres
Preciso dos olhos teus
Para decifrar meu mundo

Das torres do mundo 
Longe de todos os olhos
O que me importa
Os ais que vê em mim     

Em súplica recorro
Porque não vejo e sinto
Preciso dos olhos teus
Saber porque sinto

Que seja num corcel
Que venhas galopante
Decifrar o que vês
Das torres do mundo

         
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O DESNUDO

Falar do ser desnudo é insidioso
Não é como um ser normal em seu viver
Conquanto os dois sejam sujeitos a sofrer
Por vezes, o desnudo não é maldoso

Não é como julgar o ser perverso
O desnudo erra, faz careta e não esconde
É enganado nas perguntas que responde
Mas, sabendo o fato, sofre em seu reverso

Seus ossos são iguais aos de qualquer criatura
Entretanto, totalmente decifráveis
Acusam o corpo em mentiras (são instáveis)
Ao serem incitados por sua mente in natura 

Os ossos que mantém a mentira: os do rosto
Os que sustentam o olhar em cólera serena
E o ranger de dentes em sintonia plena
Aos desnudos são os ossos do desgosto:

Ossos do ofício.
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