Lista de Poemas

NÓS

Nós, que olhamos a vida torta
Olhamos o mundo envergado
Julgamos a todo momento
Jogamos a merda no vento
Somos cegos em nós mesmos

Nós, que culpamos os outros
Culpamos a Deus
Mas não damos esmolas
Somos homens vazios
Homens tortos
Secos na criação dos laços
Laços feitos ocos e doídos
De doídas picadas tóxicas

Nós, que não enxergamos
O caminho do sol
A morada do bem
A luz do farol
Somos homens empedrados
Crias de um solo árido
Bebemos fel e cuspimos 
O sangue inocente desprezado

Nós somos homens reais
Esperando a bomba atômica
Cheios de pelancas
Ressecadas pelo sal da amargura
Curtidas no sol do deserto
Coladas na carne pela inveja

Ai de nós, impiedosos!
Corações descarnados
Humanos sem humanidade
Um leito sombrio nos abraça 

                      'Porque és pó e em pó hás de tornar-se' 

Um sono imerecido nos espera, nos espera

                      'Porque és pó e em pó hás de tornar-se'

Por a palavra ser verdadeira
Por a vida ser uma ladeira
E a quarta-feira ser de cinzas

 
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BARRACO

Aqui tem poesia
Porão de tábuas
Sol inabitável
Com musgos verticais
Detestável aos mortais

Tem poesia
Sete num cômodo
Mais bichos de estimação
Passeando nos pratos
Empilhados no canto

Aqui a boneca fala
Brinca consigo mesmo
Faltando um braço
Recita poemas e vaga
Na inocência amarga

Em preto e branco
A poesia faz chama
Sacia com um verso no prato
De sete sentados sem cadeira
Na mesa posta sem mesa
Sobram espíritos e vozes
Declamarem em cada olhar

Aqui a poesia é nua
Brinca no beco, flutua
Aqui a poesia sonha:
Atriz, professora
Modelo, cantora...
Aqui a poesia acorda para sobreviver
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NOITE EM CLARO

A noite é longa

Quando a torneira

Fica pingando
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MINAS GERAIS

Capelas
Fuscas
La
     dei
           ras
Queijos
Beijos
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AMIGO, TE IMAGINO PARA TER UM

Amigo, te imagino para ter um
Não sou muito de conversar
A não ser com o silêncio
Com ele, passo noites em claro
Ele me ouve com mais atenção,
Com um olhar compreensível 
Como esse seu agora,
Sabedor da minha tristeza

Ah, amigo
Eu te imagino para ter um
Com quem dividir a indivisível solidão
As pernas de hoje vão e vem
Sem tempo de se esbarrarem
Não quero mensagens de ‘smartphone’ 
Quero a verdade dos olhos
Dar ao fingimento um breve descanso

Senta-se ao meu lado
Como sui generis 
Simples e humano como se deseja um amigo
Não precisa ser perfeito, nem me bajular
Mas precisa ser verdadeiro
Ainda que haja discordância entre nós
Eu te imagino para me calar
E ouvir a voz do seu coração
Me dizendo como é ruim a vida
E como vale a pena, apesar de tudo
Uivarei sem medo de ser instintivo
Até não haver mais lágrimas

Se tenho amigos?
Tenho-os guardados por toda vida
O que acontece é que me sinto só…
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MEDO DE TE AMAR

Quanto medo tive de te amar
Quantos perigos despertaste em mim
Tive medo de ser teu
Medo da recusa
Medo de ter medo de te amar
Ainda assim
Amei-te muito
Amei-te mais que eu

De tanto medo de te amar
Amei-te com medo de tudo
Por isso, em tudo falhei

Por ter te amado tanto
Esqueci da vida
Esqueci de mim...

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PRÓXIMO DE CASA

As vezes que saio ao mercado
Passo por um lugar estranho, próximo de casa
Uma esquina que leva desprevenidos à cova rasa
E no fim da rua fica um de feitio fechado
Creio ser o coveiro bebendo água na esquina
No caminho do mercado, estranho também aos gatos
Lugar (em sua maioria) dominado pelos ratos
Está dona Margota encostada no muro: a sua sina

Nesse lugar estranho, tem o que não diz ‘boa noite!’
Porém, seu olhar acompanha uma alma até o cemitério
Tal como a coruja compenetrada num mistério
De alguém correndo do estalar de um açoite

Estranho não ver mais o gambá na madrugada
Anormal que se tornou habitual nesse lugar estranho
À meia-noite, passeava, talvez para um banho
Ou quem sabe, para encontrar a amada

O sol queima no verão sem sombra
A alma insola nesse lugar que assombra
De tanto andar, meu corpo dá câimbra

O que a mim não é estranho são as donas de casa
Andam com um sorriso largo nas maçãs do rosto
Vão e vem, bailando, vivendo com bom gosto
Nesse lugar, não se preocupam com a cova rasa

Tem também nesse lugar aquele que diz:
— Você vai ganhar na loteria hoje
Outro:
— Hum! Você está magrinho
E outra:
— Você não tem onde cair morto
E tem o manco, uma fingidora, o bêbado, as más línguas,
O carro do ovo, da fruta, do pão, do gás, do...
E.
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FLERTE

Espreito de canto de olho
Insinuações contidas
Em tua forma de sentar-se
No que hesitas, não escolho
Tampouco nego (e quero)
Não na forma, contudo, no olhar
A tua chama a me chamar
No que levantas, flertas
Com todos tua beleza
Todavia, quando percebes...
Ao meu notar, te desconcertas
Tu inclinas a cabeça...
O que te sentes, doce dama?
Que seja toda sua chama
Porque te espero em cada olhar...

 

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BEGÔNIAS

Ganhei presentes de pardais no meu jardim
Ouvi os cantos, mas não pude perceber
Que os presentes brotariam sem eu ver
Na primavera: eram begônias para mim

De cor singela rebentaram entre os verdes
Rosa floral em dégradé, quão flores belas!
De muito encantos, como fossem aquarelas
Se espalharam fartamente entre as paredes
 
Pardais bondosos alegraram meu viver
Deram calma ao meu revolto coração
No meu jardim, uma amável inspiração
Para agradar o meu amor, meu bem-querer

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PERGE

A maior de todas as desilusões
Causada pela maior de todas as ilusões
A maior de todas as verdades
Causada pela maior de todas as mentiras
Percorrendo o mundo à procura do tudo por nada
Enganado pelo encantamento
Dissolvido foi o sentimento
De um sentido sem sentido
Um coração foi partido

A realidade nua e crua
Quando o encanto se quebrou
Abatido ficou a alma
Mas calma, calma!
Trazido foi para o mundo real
O tempo deixa a marca, mas fecha a ferida
Se cair, levante-se e caminhe
Por coisa difícil ser é o amor
E se a escuridão vier
Corra para a luz

Ninguém pode tirar tudo o que conquistou
Tudo o que é bom, justo e agradável
Das pérolas e diamantes
Pedras cintilantes

Mas, se ainda assim a tristeza vier, não pare
Vença as areias da vida
Com resilientes pegadas
Olhe para o céu sem véu
Peça forças ao Criador
E sem o menor temor
Não pare, siga!
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