Escritas

«Noutros Rostos» XVI

Filipe Marinheiro

sei de teres um saco que fala sobre o sono ainda misturado

num copo em brasas

curioso por bater

com a minha sombra diante à criatividade desse saco

nele intercepto mensagens alheias das noites cheias de fins

ou acasos

todos nos dizem para cantar sob o carreiro gélido

onde verdes árvores lá fora se revelam na voz de silicone

por trás das portas a despenhar-se sobre cadeiras retiradas

contra os buracos negros

enquanto mesas se entrançam no ar às voltas

como respiro e interrompo

trepando o fumo trôpego dos garfos e talheres confusos

a romperem os sóbrios guardanapos de tecido diamante

derretendo-se na luz que flutua leve

talheres no princípio

garfos no cume empoleirados no pano rústico preso à jarra

que toca a melodia desaparecida

que esmaga as mesas

que torce a voz contra as portas

que toca a própria mão alastrando o saco

e se bebe na loucura nocturna

o soalho de madeira rubi ressente-se entre os rolos de árvores

e baloiços de folhas afrodisíacas

a amolecerem espantadíssimas nas sobrancelhas queimadas


com imagens panorâmicas do saco

como a rodar nos rodapés que explodem dentro dos vernizes

a espalharem-se p’la poeira das vidraças terríveis

os relógios fumam os céus indignados aceitando-se corajosos

e reles vistos à lupa

o sol de aço corta a vista como os seus raios de fogo cortam

as mãos

o fogo cresce

aumenta o sangue largo

enquanto labareda a roçar no coração

e o coração insufla e inflama o corpo que se ergue

e estanca o lume

manuscritos voam em cima dos pratos

os pratos compostos por tintas em escada finalizam-se à vista

sombrios e tristes

desde a força profunda das mesas

até se coserem às secretas portas

que fervem o trilhado coração do saco aos pedaços

de fibras entranhadas

escorrendo à volta dos corpos

desenhos de luvas

peúgas originais retratos folhas plantas

gaiolas por baixo de alcatifas submersas

cigarros dentro uns nos outros onde a água trabalha

e escalda esse pressagioso ofício

um castanho cavalo gira perto do iminente sofá

e o cavalo cavalga dentro das paredes

a estoirar a ventania obscura

e engole

uma almofada de acre vinho

e no próprio relinchar como desabrocha!


tapeçarias de névoas esvoaçam entre fragilidade e angústias

via o saco a inundar-se no arame farpado

com que o ergo

até sufocar o amanhecer fusiforme

a saltitar nos nós de sangue

uma breve leveza de ofício

e rasgam-se fissuras na carne como outra carne funda

e ensanguentada

em estado de choque

assim irei aprender também trigonometria astrofísica

dos cometas às galáxias inundadas de gravidade

enquanto saco é elevado

nós somos elevados

e arrastamos as imagens de uma ponta à outra

devoramo-nos

na engrenagem atómica

em frente aos vertiginosos olhos anda o saco a pensar nas coisas

o saco desmancha a doçura do pescoço

sangra-o nas mãos vagarosamente

à raiva tão veloz

canta nas fracturas da terra na cabeça movida por circunferências

saco chato dorme a alumiar a escuridão

uma chatice mortal!...

mexe-se aquele saco com pensamentos inquietantes

sei-o inquietante

é mestre e eu o aprendiz

com a cabeça no fundo dos meus joelhos a estilhaçar

devassa os astros

explodindo-os de encontro às estrelas

e todas as altas estrelas bailam na ponta dos dedos pretos prata

a deslizar na coxa dissolvida


contra espirais cadentes os astros são a sonoridade

cantam flores e jarras

e as estrelas o ritmo maldito feito de cera luminosa

em que as trevas vagabundam

nos espelhos rápidos

dentro da penumbra pendidas nos aromas megalíticos

que vão de sabor para sabor

pela aragem abaixo

a levitar na sua matéria enlouquecida

e morde a luz

porque os perfumes celestes

se despedem e diluem o espaço e o tempo

como num avanço e recuo doce

estremecendo as distâncias em tempo irreal

deixo-me cair anterior a esse saco entrançado nas veias adentro

e racho as mãos à velocidade de um galho precioso

na dúvida

alastram-se as abas que dançam

enquanto o saco sufoca numa janela contorcida

deambulo

na opacidade dos espelhos e vidros

que nunca mas nunca falam dele ou de mim

– o saco, por exemplo...

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