Lista de Poemas

Teatro das Paixões

Não faz muito tempo, vi um vídeo muito interessante no qual um neurocientista renomado explicava o que acontece com nosso cérebro quando estamos apaixonados, afirmando que nessas ocasiões podemos dizer que a paixão faz com que nosso órgão da razão se comporte como se estivesse em um “estado de demência temporária”.

Acredito que quando a neurociência chegou a estas conclusões, pouquíssimas pessoas devem ter se surpreendido com elas. A Ciência, nesse caso, apenas explicou melhor como ocorre algo que todos nós experimentamos na prática algumas vezes na vida (ou muitas, dependendo da pessoa). No entanto, não quero dizer aqui que a obviedade da experiência tira a maravilha do conhecimento e da descoberta que a Ciência sempre nos traz. Apenas digo que se trata de uma constatação metodologicamente sistematizada de algo que já fora constatado de outras formas pela humanidade há muito tempo. 

Quem nunca ouviu, por exemplo, a canção “Por Você”, da banda Barão Vermelho, que diz “Por você / eu dançaria tango no teto / Eu limparia os trilhos do metrô / Eu iria a pé do Rio a Salvador [...]”. Haveria exemplo mais belo e didático de demência temporária do que esse?

O fato é que quando nos apaixonamos por alguém, nos dispomos a chamar a atenção dessa pessoa quase que a qualquer custo e, muito frequentemente, acabamos anulando quem realmente somos no esforço de agradar e se adequar às expectativas que a outra pessoa possui de nós. Tentamos desesperadamente identificar os critérios de valoração que a pessoa utiliza para qualificar alguém como “par perfeito” e, caso não nos enquadremos em tais critérios, nos prestamos ao inocente ridículo de tentarmos nos moldar às expectativas da pessoa desejada.

Forjamos em nos mesmos gostos que nunca tivemos, comportamentos que não fazem parte de nosso personagem social, valores e ideias que nunca defendemos e assim por diante. Traímos a nós mesmos em favor da atenção alheia. Desagradamos nosso eu para agradar o objeto de nosso desejo.

E apesar de haver em nossa sociedade muita romantização nesse tipo de situação, tratando esse comportamento como uma prova de amor ou algo do tipo, acontece que dificilmente ela pode ser sustentada por muito tempo. E é aí que começam os problemas.

Depois que o estado de demência temporária se “cura” e nosso cérebro volta ao seu estado habitual de consciência de si mesmo, nossa disposição para continuar nessa auto anulação vai se extinguindo gradativamente. Aquilo que contrariava nossa personalidade, mas que antes fazíamos de bom grado para ver um sorriso nos lábios do “mozão”, torna-se um fardo cada vez maior até chegar ao ponto de motivar brigas e até mesmo repulsa. E o outro, por sua vez, passa a não mais reconhecer em nós aquele que conquistou seu coração no início do relacionamento. Disso tudo se sucede, normalmente, o inevitável pé nas nádegas.

Quando não aguentamos mais sustentar o papel que inventamos para caber na história do outro e nos mostramos de fato é que descobrimos realmente se a pessoa nos ama. “Tira a máscara que cobre o seu rosto / se mostre e eu descubro se eu gosto / do seu verdadeiro jeito de ser” (como eu amo a Pitty, gente!). E não podemos esquecer de que, ao mesmo tempo, também estaremos lidando com a descoberta alheia, pois esse tempo todo, a mesma coisa estava acontecendo do lado de lá da relação. 

Bom mesmo seria encontrar alguém que se apaixonasse por nós exatamente como somos! Que gostasse até de nossos defeitos e que aceitasse exatamente o que temos a oferecer.

Mas sejamos sinceros: para que isso pudesse acontecer, deveríamos, minimamente, ter a coragem de ser quem realmente somos em nosso convívio diário com nosso próprio eu. Deveríamos saber ao menos quem somos. Conhecer e aceitar de fato o que tem pra hoje. Aceitar nossos defeitos, nossas fraquezas e estar em paz com tudo isso para, só depois, oferecer todo esse pacote de “mão beijada” para alguém. 

Tarefa complicada, não é mesmo? Será que alguém algum dia esteve totalmente preparado para se apaixonar e se mostrar integralmente para outro alguém?

Talvez o jeito seja seguirmos cantando como Fábio Júnior na canção “20 e poucos anos” e tentando eternamente equilibrar no teatro das paixões “o que a gente espera do mundo e o que o mundo espera de nós”. Certo, Lenine?
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A Irracionalidade do Futebol

Uma partida de futebol possui 90 minutos de tempo regular, sendo divididos em duas etapas de 45 minutos cada. Entre essas etapas é respeitado um intervalo de descanso que dura, normalmente, cerda de 15 minutos. Além disso, ao final de cada etapa, o árbitro da partida concede alguns minutos de acréscimo para recuperar algum tempo que tenha sido perdido no decurso da partida com substituições, atendimentos médicos e até mesmo brigas em campo. Esse tempo de acréscimo é variável, mas atualmente como a implantação do Árbitro de Vídeo ele costuma ser cada vez maior, podendo chegar a mais 10 ou 15 minutos de bola rolando. Resultado: cada vez que sentamos a frente de uma televisão para assistir a uma partida de futebol desperdiçamos, pelo menos, 120 minutos de nossas vidas. Isso mesmo! Duas horas de vida enfiadas no cu, vendo 22 indivíduos que são exageradamente bem pagos para correr atrás de uma bola.

Torcer para um time de futebol não gera nenhum benefício real. A vitória ou a derrota de um time só possuem impacto na vida daqueles que estão diretamente ligados a ele (jogadores, comissão técnica, diretoria, funcionários e patrocinadores, em suma). Já para o pobre torcedor iludido, o futebol não passa de uma fábrica de sentimentos falsos.

Se um time perde uma partida, isso produz sentimentos negativos como raiva e tristeza naqueles que torcem para ele. Mas esses sentimentos estão ancorados em fatos que não fazem parte da vida de um torcedor. A culpa da derrota não é dele. Ele não perde absolutamente nada com isso, mas mesmo assim se deixa afetar negativamente por uma derrota que não é sua.

Já no caso contrário, quando um time ganha uma partida, seus torcedores são “agraciados” com sentimentos bons de alegria e orgulho, por exemplo. Mas aqui, mais uma vez, esses sentimentos são falsos, pois também não possuem nenhuma ligação real com a vida de um mero torcedor. Absolutamente nada muda na vida daquele que torce para um time que acabou de vencer uma partida.

Então, chegamos à conclusão de que, racionalmente, não há nenhuma justificativa plausível para os sentimentos de tristeza ou alegria resultantes de um placar.
Mas por que é tão difícil perceber e, principalmente, admitir isso?

Isso acontece porque geralmente, assim como a religião, o futebol entra em nossas vidas de forma imposta por nossos familiares logo que nascemos. Não escolhemos “nosso” time de coração. Ele nos vem tal como herança, passada de pais para filhos, de modo que sua influência em nossas vidas se impregna com tanta força, que se desvencilhar disso acaba se tornando uma tarefa de reconstrução psicológica hercúlea.

O ser humano precisa assumir papeis sociais ao logo de sua vida, com a finalidade de se tornar parte de alguns grupos. Somos peças procurando nosso lugar de encaixe no todo. Por isso necessitamos de adjetivos que nos ajudem a definir para nós mesmo quem achamos que somos. E nesse caso, os adjetivos relacionados à religião e ao futebol, aqui no Brasil, são dois dos primeiros que entram em nosso vocabulário identitário. Não é necessário crescer muito para aprender a se identificar como Católico e Corintiano, por exemplo, ainda que o indivíduo não tenha capacidade cognitiva para compreender o que isso significa.

Deve ser por esse motivo que se torna tão difícil abolir esses adjetivos de nossas descrições pessoais ao longo da vida. Temos a propensão (natural ou cultural) de adicionar identidades e não de subtraí-las. Na grande maioria das vezes o que fazemos é, no máximo, trocarmos um rótulo por outro. Mas raramente deixamos alguma etiqueta fazia em nosso prontuário social. Inclusive, atualmente está na moda a rejeição aos rótulos sociais, como se ao fazerem isso, as pessoas não estivessem apenas colando mais um rótulo as suas identidades: o rótulo de “descontruído”.

Particularmente, ainda não consigo abandonar minha identidade de são-paulino. Mesmo após a derrota vergonhosa por 4 a 2 para o Bragantino na noite de ontem. Não consigo imaginar como seria não torcer para time nenhum e muito menos imaginar-me torcendo para outro time. Sei que não escolhi ser são-paulino, mas o condicionamento foi tão bem feito que ainda não sou capaz de desfazê-lo.

Felizmente, com relação à religião o trabalho foi mais fácil para mim. Talvez a formação cristã não tenha sido feita corretamente por parte de minha família e, dessa forma, essa mancha em minha identidade tenha sido mais fácil de remover. Também pudera, pois minha família é católica e todos sabemos que os católicos não são muito determinados no cumprimento de seus próprios valores religiosos. Talvez se eu tivesse nascido em uma família evangélica o trabalho de exorcismo intelectual tivesse sido um pouco mais complicado. Não que os evangélicos sejam um bom exemplo de fidelidade ao cristianismo. Muito pelo contrário. Mas é que seu radicalismo e sua hipocrisia, normalmente, resultam em lavagens cerebrais mais contundentes. Mas “graças a deus”, não foi esse o caso.
  
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Rostos Conhecidos

Com o passar incessante e inexorável do tempo, há uma série de pequenos hábitos e ocasiões que nos fazem perceber que transicionamos da adolescência para a vida adulta. Se formar no ensino básico, tirar carteira de habilitação, votar pela primeira vez de forma obrigatória. Esses são alguns dos exemplos de obrigações sociais que nos indicam que estamos entrando oficialmente na parte mais chata da vida (se é que alguma parte possa ser considerada legal).

Aos poucos, nossas gavetas vão se enchendo de boletos pagos (que sempre guardamos, mas nunca sabemos o porquê) e de remédios. Analgésicos para dor de cabeça, para dor de barriga, vitaminas e antialérgicos para resfriado e tantas outras drogas destinadas a tratar uma série de outras perturbações corporais que antes nem sabíamos que existia. Saber uma grande quantidade de nomes de remédios, inclusive, é um claro sintoma de “adultisse aguda”, por assim dizer.

Mas de uns tempos para cá tenho percebido que há um outro sinal bastante claro e incômodo que me fez perceber que não são só os outros que ficam mais velhos. Me dei conta de que, aos poucos, o cemitério municipal de minha cidade natal está sendo povoado por nomes conhecidos. Com o galope do tempo, as lápides passaram a apresentar fotos de rostos que um dia eu os vi falando, rindo e também chorando.

Desde que me recordo, meu pai tem o hábito de visitar o cemitério municipal da cidade onde nasci (e onde minha família ainda mora). Sempre achei esse hábito um pouco estranho, pois meu pai segue a doutrina religiosa do Espiritismo e, pelo pouco que conheço dela, eu acreditava que os espíritas não teriam uma ligação muito forte com cemitérios, já que a forma com a qual eles encaram a morte é um tanto quanto diferente da forma com a qual a maior parte da sociedade o faz. Na minha interpretação, alguém que encara a vida terrena apenas como um estágio evolutivo do espírito não teria motivos para visitar um local destinado a depositar os restos mortais de corpos que não servem mais para nada.

Mas o fato é que meu pai, independentemente de seus valores religiosos (e da minha interpretação equivocada deles) sempre visitou aquele lugar, quase todos os finais de semana. Normalmente ele o faz aos domingos de manhã e em muitas dessas visitas eu pude acompanha-lo em seu hobby inusitado.

E essas visitas eram para mim como um passeio a um museu de história, acompanhado de um guia muito bem preparado, pois a cada lápide, meu pai parecia ter alguma informação sobre a(s) pessoa(s) que estava(m) enterrada(s) ali. Isso porque meu pai já assistira muitos amigos, parentes e conhecidos sendo definitivamente tragados pelo solo daquele terreno imenso.

Meu pai, no auge de seus quase sessenta anos, já se despediu de muita gente na vida. E hoje percebo que aos poucos o meu número de despedidas também começa a aumentar. Aquele lugar que antes era repleto de túmulos com rostos e nomes sem nenhum significado para mim, hoje já possui várias “moradias” (des)habitadas por pessoas que fizeram parte de minha vida um dia. Minha querida e saudosa avó materna, que nos deixou em 2016. Amigos que se foram em trágicos acidentes de trânsito ou por conta de um infarto fulminante no meio da madrugada. Pessoas que não me foram muito próximas, mas que eu pude, em algum momento de minha vida, vê-las caminhando, trabalhando e vivendo pelas ruas de Rancharia. Pessoas que antes estavam e agora não estão.

Assim como um álbum de fotografias, o cemitério me mostra agora recordações de um tempo que eu presenciei. E isso se tornou meu sinal mais lúcido de meu envelhecimento.
Atualmente não moro mais em Rancharia e meu pai agora faz seus tours acompanhado de outra visitante. Desde 2016 minha mãe tem frequentado o cemitério semanalmente para cuidar do túmulo de minha avó. Mas mesmo sem frequentar esse lugar, a lembrança daqueles que estão enterrados ali me faz pensar um pouco nas coisas que já vivi e no quanto ainda espero viver antes de me findar na lembrança de um rosto conhecido para outra pessoa.    
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Feliz (?) Dia das Crianças!

Sexta-feira, 12 de outubro de 2018. São doze horas. Com a janela parcialmente aberta, vejo invadir o meu quarto o barulho estrondoso dos fogos de artifícios, tão comuns nessa data. Me assusto! O que será que é isso? Ah!... Verdade. É dia das crianças e dia de nossa (minha não, vossa!) senhora aparecida, para os católicos apostólicos romanos.

A família tradicional brasileira, de classe média consumista, presenteia seus herdeiros com bonecos e bonecas (para os meninos e para as meninas, respectivamente, pois a ideologia de gênero deve ser mantida a todo custo, claro).

Bonecos que replicam os “super-heróis” norte-americanos (quase sempre brancos, usando uniformes vermelho/azul/branco e sempre lutando contra o mal absoluto que, coincidentemente, veste vermelho).

Já as bonecas, essas surgem magérrimas, loiras e sorridentes (sem mamilos e sem vagina), acompanhadas de utensílios domésticos e inúmeras peças de roupas fashion, lembrando às meninas o belo papel que lhes foi reservado em nossa sociedade machista.

Depois da compensação material pela falta de afeto, é chegada a hora de ir à missa. Rezar para a “mãe de deus”. Pedir a ela a benção diária, a (intervenção) intersecção diante da difícil vida de classe média brasileira. É hora de pedir ajuda àquela que, segundo o mito cristão, teve seu filho torturado e morto por discordar das leis que expropriavam e estupravam o povo de seu tempo (será que ele era comunista ?). É hora de se ajoelhar e pedir para aquela que lavou os restos mortais do "fruto de seu ventre virgem": “rogai por nós, torturadores”!

Doze e meia. Fecho a janela. Fecho o notebook. Fecho os olhos. Deito na cama e me fecho. Mesmo sem sono, tento dormir... desejando acordar em outro lugar.
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(Es)Tanque

Em virtude de uma viajem de férias realizada pelos meus avós, me vi incumbido da tarefa de zelar pelo conforto e segurança da tartaruga de estimação que eles tanto gostavam, o Jubileu. Apesar de se tratar de uma grande responsabilidade, a missão era bastante simples. A tarefa era, basicamente, a seguinte: pela manhã eu deveria retirar o animal do tanque de lavar roupa onde ele passava suas noites tranquilas de sono, além de esvaziar e limpar seu habitat nada natural. Enquanto isso, eu deveria deixar o pequeno réptil andar livremente pela casa durante o dia todo. No final da tarde, era chegada a hora de encher o tanque novamente, despejando na água um pouco de ração para que a tartaruga pudesse retornar a seu leito aquático. Nada demais, certo?

O que eu não imaginava era que uma tarefa tão simples como essa pudesse me suscitar algum tipo de reflexão existencial. Pois foi exatamente isso que me ocorreu num certo dia em que eu me dedicava a cumprir minha missão nada impossível.

Após encher o tanque com a quantidade de água que me fora indicada anteriormente pelos meus avós, apanhei aquele simpático bichinho para depositá-lo no local designado. Foi nesse momento que, olhando despretensiosamente para ele, me ocorreu um sentimento de pena para com aquele pobre animal.

Segurando-o nas mãos, pensei: “pobre Jubileu, pertence a uma espécie de grande longevidade e por isso viverá mais de 100 anos facilmente, no entanto passará todos esses anos enfiado neste tanque minúsculo. Do que adianta viver tanto, então?”.

Obviamente, o bichinho em nada tinha a ver com meu sentimento complacente, tanto porque essas caraminholas são coisas que só se passam nas cabeças perturbadas do “bicho homem”. Mas o fato é que tal sentimento conduziu-me a uma reflexão muito maior naquele momento. Ao permanecer ali por alguns minutos, observando seu nado delicado, comecei a me indagar com uma série de questionamentos que inundaram a minha mente.

“Será que são somente as tartaruguinhas de estimação de casais de idosos que vivem presas em tanques minúsculos? Será que nós, seres humanos, não inventamos e nos aprisionamos voluntariamente em nossos próprios tanques existenciais? Será que eu não sou como o Jubileu e minha vida não é como esse tanque? Será que fui colocado aqui nessa cidade de 30 mil habitantes pelo neto de alguma divindade que saiu de férias e viajou para um universo paralelo? ”.

Ora caro leitor, receio que lhe pareça ridículo imaginar-me a beira de um tanque de lavar roupas, pensando tantas besteiras a partir da simples observação de uma reles tartaruga. Mas insisto que pense um pouco comigo e considere minhas inquietações.

Veja bem... acordamos todos os dias pela manhã para nos dirigirmos à lugares que não queríamos estar, para ficar com pessoas que mal conhecemos, com o intuito de desempenhar tarefas que não nos despertam o menor interesse. A isso, damos nomes como trabalho, emprego, trampo, labuta etc. Fazemos tudo isso em troca de algo conhecido como salário que, muitas vezes, é bastante inferior ao que mereceríamos de fato, e nos sacrificamos assim para que possamos usar esse salário para comprar o que desejarmos.  

Veja, caro leitor... eis aí um ciclo vicioso completamente irracional. Trabalhamos e compramos, compramos e trabalhamos infinitamente até não possuirmos mais forças para continuar a fazê-lo. Desperdiçamos a maior parte de nossas vidas desejando o que não temos e desprezando o que já é nosso. Por isso, procuramos no acúmulo de bens materiais, na sua maioria inúteis, a “felicidade eterna” (como se isso existisse). Somos sempre os mesmos, repudiamos as mudanças, pois preferimos fazer sempre as mesmas coisas. Nos aprisionamos voluntariamente em um cotidiano que nos afoga em afazeres amontoados. Nunca temos tempo para nada. Sempre estamos em dívida com tudo.

Não sei quanto a você, leitor amigo, mas para mim isso é tão horrível quanto passar mais de um século nadando em círculos em um tanque de lavar roupas. Acho que nossas vidas, portanto, não são tão diferentes assim da vida do Jubileu.

No final das contas, parece-me que todos criamos nossos “tanques existenciais”. São realidades claustrofóbicas que, de alguma forma, prendem-nos em rotinas absurdas, em ideologias falidas, em crenças utópicas e em preconceitos ignorantes. Alguns de nós nadam em tanques tão profundos que, por serem incapazes de olhar por cima de sua borda, acabam achando que aquele medíocre espaço constitui tudo que há. Imaginam que aquela parca porção d’água é o próprio oceano. Nem se quer passa pelas suas cabeças que existe um mundo imensamente maior a ser descoberto.

A vida humana, portanto, pode ser tão estanque quanto a de um quelônio caseiro qualquer, porém a diferença é que infelizmente, somente nós, animais da espécie Homo sapiens aflitus, sabemos e sofremos com isso. 
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