Escritas

(Es)Tanque

Fabiano F. Martins
Em virtude de uma viajem de férias realizada pelos meus avós, me vi incumbido da tarefa de zelar pelo conforto e segurança da tartaruga de estimação que eles tanto gostavam, o Jubileu. Apesar de se tratar de uma grande responsabilidade, a missão era bastante simples. A tarefa era, basicamente, a seguinte: pela manhã eu deveria retirar o animal do tanque de lavar roupa onde ele passava suas noites tranquilas de sono, além de esvaziar e limpar seu habitat nada natural. Enquanto isso, eu deveria deixar o pequeno réptil andar livremente pela casa durante o dia todo. No final da tarde, era chegada a hora de encher o tanque novamente, despejando na água um pouco de ração para que a tartaruga pudesse retornar a seu leito aquático. Nada demais, certo?

O que eu não imaginava era que uma tarefa tão simples como essa pudesse me suscitar algum tipo de reflexão existencial. Pois foi exatamente isso que me ocorreu num certo dia em que eu me dedicava a cumprir minha missão nada impossível.

Após encher o tanque com a quantidade de água que me fora indicada anteriormente pelos meus avós, apanhei aquele simpático bichinho para depositá-lo no local designado. Foi nesse momento que, olhando despretensiosamente para ele, me ocorreu um sentimento de pena para com aquele pobre animal.

Segurando-o nas mãos, pensei: “pobre Jubileu, pertence a uma espécie de grande longevidade e por isso viverá mais de 100 anos facilmente, no entanto passará todos esses anos enfiado neste tanque minúsculo. Do que adianta viver tanto, então?”.

Obviamente, o bichinho em nada tinha a ver com meu sentimento complacente, tanto porque essas caraminholas são coisas que só se passam nas cabeças perturbadas do “bicho homem”. Mas o fato é que tal sentimento conduziu-me a uma reflexão muito maior naquele momento. Ao permanecer ali por alguns minutos, observando seu nado delicado, comecei a me indagar com uma série de questionamentos que inundaram a minha mente.

“Será que são somente as tartaruguinhas de estimação de casais de idosos que vivem presas em tanques minúsculos? Será que nós, seres humanos, não inventamos e nos aprisionamos voluntariamente em nossos próprios tanques existenciais? Será que eu não sou como o Jubileu e minha vida não é como esse tanque? Será que fui colocado aqui nessa cidade de 30 mil habitantes pelo neto de alguma divindade que saiu de férias e viajou para um universo paralelo? ”.

Ora caro leitor, receio que lhe pareça ridículo imaginar-me a beira de um tanque de lavar roupas, pensando tantas besteiras a partir da simples observação de uma reles tartaruga. Mas insisto que pense um pouco comigo e considere minhas inquietações.

Veja bem... acordamos todos os dias pela manhã para nos dirigirmos à lugares que não queríamos estar, para ficar com pessoas que mal conhecemos, com o intuito de desempenhar tarefas que não nos despertam o menor interesse. A isso, damos nomes como trabalho, emprego, trampo, labuta etc. Fazemos tudo isso em troca de algo conhecido como salário que, muitas vezes, é bastante inferior ao que mereceríamos de fato, e nos sacrificamos assim para que possamos usar esse salário para comprar o que desejarmos.  

Veja, caro leitor... eis aí um ciclo vicioso completamente irracional. Trabalhamos e compramos, compramos e trabalhamos infinitamente até não possuirmos mais forças para continuar a fazê-lo. Desperdiçamos a maior parte de nossas vidas desejando o que não temos e desprezando o que já é nosso. Por isso, procuramos no acúmulo de bens materiais, na sua maioria inúteis, a “felicidade eterna” (como se isso existisse). Somos sempre os mesmos, repudiamos as mudanças, pois preferimos fazer sempre as mesmas coisas. Nos aprisionamos voluntariamente em um cotidiano que nos afoga em afazeres amontoados. Nunca temos tempo para nada. Sempre estamos em dívida com tudo.

Não sei quanto a você, leitor amigo, mas para mim isso é tão horrível quanto passar mais de um século nadando em círculos em um tanque de lavar roupas. Acho que nossas vidas, portanto, não são tão diferentes assim da vida do Jubileu.

No final das contas, parece-me que todos criamos nossos “tanques existenciais”. São realidades claustrofóbicas que, de alguma forma, prendem-nos em rotinas absurdas, em ideologias falidas, em crenças utópicas e em preconceitos ignorantes. Alguns de nós nadam em tanques tão profundos que, por serem incapazes de olhar por cima de sua borda, acabam achando que aquele medíocre espaço constitui tudo que há. Imaginam que aquela parca porção d’água é o próprio oceano. Nem se quer passa pelas suas cabeças que existe um mundo imensamente maior a ser descoberto.

A vida humana, portanto, pode ser tão estanque quanto a de um quelônio caseiro qualquer, porém a diferença é que infelizmente, somente nós, animais da espécie Homo sapiens aflitus, sabemos e sofremos com isso. 
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Comentários (2)

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fabianofm
fabianofm
2021-02-04

Muito obrigado pelo elogio! Fico feliz de proporcionar um breve momento de deleite a alguém por meio de um texto meu! Quanto ao Jubileu, ele é de uma espécie conhecido como Tigre d'água. Eles dormem submersos com o nariz de acima da superfície para respirar... é muito interessante kkkk

jrunder
jrunder
2021-02-04

Você tem o dom da escrita, que se mostra quando consegue prender a atenção do leitor. Parabéns. Só ficou uma duvida: As pessoas geralmente tem jabotis em casa e essa espécie não é aquática. Se for um jaboti, livre ele do tanque de água.