Escritas

Teatro das Paixões

Fabiano F. Martins
Não faz muito tempo, vi um vídeo muito interessante no qual um neurocientista renomado explicava o que acontece com nosso cérebro quando estamos apaixonados, afirmando que nessas ocasiões podemos dizer que a paixão faz com que nosso órgão da razão se comporte como se estivesse em um “estado de demência temporária”.

Acredito que quando a neurociência chegou a estas conclusões, pouquíssimas pessoas devem ter se surpreendido com elas. A Ciência, nesse caso, apenas explicou melhor como ocorre algo que todos nós experimentamos na prática algumas vezes na vida (ou muitas, dependendo da pessoa). No entanto, não quero dizer aqui que a obviedade da experiência tira a maravilha do conhecimento e da descoberta que a Ciência sempre nos traz. Apenas digo que se trata de uma constatação metodologicamente sistematizada de algo que já fora constatado de outras formas pela humanidade há muito tempo. 

Quem nunca ouviu, por exemplo, a canção “Por Você”, da banda Barão Vermelho, que diz “Por você / eu dançaria tango no teto / Eu limparia os trilhos do metrô / Eu iria a pé do Rio a Salvador [...]”. Haveria exemplo mais belo e didático de demência temporária do que esse?

O fato é que quando nos apaixonamos por alguém, nos dispomos a chamar a atenção dessa pessoa quase que a qualquer custo e, muito frequentemente, acabamos anulando quem realmente somos no esforço de agradar e se adequar às expectativas que a outra pessoa possui de nós. Tentamos desesperadamente identificar os critérios de valoração que a pessoa utiliza para qualificar alguém como “par perfeito” e, caso não nos enquadremos em tais critérios, nos prestamos ao inocente ridículo de tentarmos nos moldar às expectativas da pessoa desejada.

Forjamos em nos mesmos gostos que nunca tivemos, comportamentos que não fazem parte de nosso personagem social, valores e ideias que nunca defendemos e assim por diante. Traímos a nós mesmos em favor da atenção alheia. Desagradamos nosso eu para agradar o objeto de nosso desejo.

E apesar de haver em nossa sociedade muita romantização nesse tipo de situação, tratando esse comportamento como uma prova de amor ou algo do tipo, acontece que dificilmente ela pode ser sustentada por muito tempo. E é aí que começam os problemas.

Depois que o estado de demência temporária se “cura” e nosso cérebro volta ao seu estado habitual de consciência de si mesmo, nossa disposição para continuar nessa auto anulação vai se extinguindo gradativamente. Aquilo que contrariava nossa personalidade, mas que antes fazíamos de bom grado para ver um sorriso nos lábios do “mozão”, torna-se um fardo cada vez maior até chegar ao ponto de motivar brigas e até mesmo repulsa. E o outro, por sua vez, passa a não mais reconhecer em nós aquele que conquistou seu coração no início do relacionamento. Disso tudo se sucede, normalmente, o inevitável pé nas nádegas.

Quando não aguentamos mais sustentar o papel que inventamos para caber na história do outro e nos mostramos de fato é que descobrimos realmente se a pessoa nos ama. “Tira a máscara que cobre o seu rosto / se mostre e eu descubro se eu gosto / do seu verdadeiro jeito de ser” (como eu amo a Pitty, gente!). E não podemos esquecer de que, ao mesmo tempo, também estaremos lidando com a descoberta alheia, pois esse tempo todo, a mesma coisa estava acontecendo do lado de lá da relação. 

Bom mesmo seria encontrar alguém que se apaixonasse por nós exatamente como somos! Que gostasse até de nossos defeitos e que aceitasse exatamente o que temos a oferecer.

Mas sejamos sinceros: para que isso pudesse acontecer, deveríamos, minimamente, ter a coragem de ser quem realmente somos em nosso convívio diário com nosso próprio eu. Deveríamos saber ao menos quem somos. Conhecer e aceitar de fato o que tem pra hoje. Aceitar nossos defeitos, nossas fraquezas e estar em paz com tudo isso para, só depois, oferecer todo esse pacote de “mão beijada” para alguém. 

Tarefa complicada, não é mesmo? Será que alguém algum dia esteve totalmente preparado para se apaixonar e se mostrar integralmente para outro alguém?

Talvez o jeito seja seguirmos cantando como Fábio Júnior na canção “20 e poucos anos” e tentando eternamente equilibrar no teatro das paixões “o que a gente espera do mundo e o que o mundo espera de nós”. Certo, Lenine?