Escritas

A Irracionalidade do Futebol

Fabiano F. Martins
Uma partida de futebol possui 90 minutos de tempo regular, sendo divididos em duas etapas de 45 minutos cada. Entre essas etapas é respeitado um intervalo de descanso que dura, normalmente, cerda de 15 minutos. Além disso, ao final de cada etapa, o árbitro da partida concede alguns minutos de acréscimo para recuperar algum tempo que tenha sido perdido no decurso da partida com substituições, atendimentos médicos e até mesmo brigas em campo. Esse tempo de acréscimo é variável, mas atualmente como a implantação do Árbitro de Vídeo ele costuma ser cada vez maior, podendo chegar a mais 10 ou 15 minutos de bola rolando. Resultado: cada vez que sentamos a frente de uma televisão para assistir a uma partida de futebol desperdiçamos, pelo menos, 120 minutos de nossas vidas. Isso mesmo! Duas horas de vida enfiadas no cu, vendo 22 indivíduos que são exageradamente bem pagos para correr atrás de uma bola.

Torcer para um time de futebol não gera nenhum benefício real. A vitória ou a derrota de um time só possuem impacto na vida daqueles que estão diretamente ligados a ele (jogadores, comissão técnica, diretoria, funcionários e patrocinadores, em suma). Já para o pobre torcedor iludido, o futebol não passa de uma fábrica de sentimentos falsos.

Se um time perde uma partida, isso produz sentimentos negativos como raiva e tristeza naqueles que torcem para ele. Mas esses sentimentos estão ancorados em fatos que não fazem parte da vida de um torcedor. A culpa da derrota não é dele. Ele não perde absolutamente nada com isso, mas mesmo assim se deixa afetar negativamente por uma derrota que não é sua.

Já no caso contrário, quando um time ganha uma partida, seus torcedores são “agraciados” com sentimentos bons de alegria e orgulho, por exemplo. Mas aqui, mais uma vez, esses sentimentos são falsos, pois também não possuem nenhuma ligação real com a vida de um mero torcedor. Absolutamente nada muda na vida daquele que torce para um time que acabou de vencer uma partida.

Então, chegamos à conclusão de que, racionalmente, não há nenhuma justificativa plausível para os sentimentos de tristeza ou alegria resultantes de um placar.
Mas por que é tão difícil perceber e, principalmente, admitir isso?

Isso acontece porque geralmente, assim como a religião, o futebol entra em nossas vidas de forma imposta por nossos familiares logo que nascemos. Não escolhemos “nosso” time de coração. Ele nos vem tal como herança, passada de pais para filhos, de modo que sua influência em nossas vidas se impregna com tanta força, que se desvencilhar disso acaba se tornando uma tarefa de reconstrução psicológica hercúlea.

O ser humano precisa assumir papeis sociais ao logo de sua vida, com a finalidade de se tornar parte de alguns grupos. Somos peças procurando nosso lugar de encaixe no todo. Por isso necessitamos de adjetivos que nos ajudem a definir para nós mesmo quem achamos que somos. E nesse caso, os adjetivos relacionados à religião e ao futebol, aqui no Brasil, são dois dos primeiros que entram em nosso vocabulário identitário. Não é necessário crescer muito para aprender a se identificar como Católico e Corintiano, por exemplo, ainda que o indivíduo não tenha capacidade cognitiva para compreender o que isso significa.

Deve ser por esse motivo que se torna tão difícil abolir esses adjetivos de nossas descrições pessoais ao longo da vida. Temos a propensão (natural ou cultural) de adicionar identidades e não de subtraí-las. Na grande maioria das vezes o que fazemos é, no máximo, trocarmos um rótulo por outro. Mas raramente deixamos alguma etiqueta fazia em nosso prontuário social. Inclusive, atualmente está na moda a rejeição aos rótulos sociais, como se ao fazerem isso, as pessoas não estivessem apenas colando mais um rótulo as suas identidades: o rótulo de “descontruído”.

Particularmente, ainda não consigo abandonar minha identidade de são-paulino. Mesmo após a derrota vergonhosa por 4 a 2 para o Bragantino na noite de ontem. Não consigo imaginar como seria não torcer para time nenhum e muito menos imaginar-me torcendo para outro time. Sei que não escolhi ser são-paulino, mas o condicionamento foi tão bem feito que ainda não sou capaz de desfazê-lo.

Felizmente, com relação à religião o trabalho foi mais fácil para mim. Talvez a formação cristã não tenha sido feita corretamente por parte de minha família e, dessa forma, essa mancha em minha identidade tenha sido mais fácil de remover. Também pudera, pois minha família é católica e todos sabemos que os católicos não são muito determinados no cumprimento de seus próprios valores religiosos. Talvez se eu tivesse nascido em uma família evangélica o trabalho de exorcismo intelectual tivesse sido um pouco mais complicado. Não que os evangélicos sejam um bom exemplo de fidelidade ao cristianismo. Muito pelo contrário. Mas é que seu radicalismo e sua hipocrisia, normalmente, resultam em lavagens cerebrais mais contundentes. Mas “graças a deus”, não foi esse o caso.
  
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Comentários (2)

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fabianofm
fabianofm
2021-02-04 15:06

Pois é jrunder! Muito bem lembrado! Essas datas comemorativas só nos fazem comprar coisas inúteis! Não entendo nem mesmo a comemoração de aniversários kkkk Por que nós somos parabenizados pelo nosso nascimento se não fizemos nada para que isso acontecesse? Nossos progenitores que deveriam ser parabenizados... Fico feliz de saber que mais alguém também tem pensamentos como esses! Abraço!

jrunder
jrunder
2021-02-04 13:33

Esse condicionamento citado existe e persiste em muitos outros pontos, nos quais eu destaco o carnaval, sendo incentivado politicamente, aquela velha história do pão e festa. Não entendo alegria com data marcada. O sentido da religião abandonei a muito tempo, e hoje busco conhecer os sentidos da vida. Nunca fui fanático por times, embora aprecie a prática de esportes. Palmeirense de muitos anos, hoje não torço para nenhum time, com absoluta tranquilidade. Nosso modo de pensar tem semelhanças.