Lista de Poemas

Solidão

Solidão

Reencontramo-nos no amanhecer

Desespero agitado no breu noturno

Gravado veneno do consciente profundo

Culpas que carrego em desalinho

Desamantes adiados desordeiros

Amargo caminho sem futuro destino

Oceano de solidão

Campo infértil de perdão

Emílio Casanova, Coisas do Coração
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Insónia

Insónia

no silêncio das minhas noites claras

faço longas travessias sem destino

nas esquinas escuras do meu quarto

revejo caras e corpos

uns familiares outros opacos

deformados por nunca vistos

galopam sentimentos ritmados

ao compasso do brilho
dos néons iluminados

que penetram as frestas das janelas

dobras de lençol ondulam meu corpo

almofadas envolvem meu rosto

tac tic tic tac dança o tempo

noite branca sem rosto quente

que aspiras da minha insónia

angústias arrependimentos

remorsos por falta de coragem

não sabes que a humana liberdade

é prisioneira da minha mente

odeio teu poder que me impede

de adormecer
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vou

Vou...

Por onde voas beija-flor

Sabes

Vou ao encontro de meus amores

Vou saciar-me deles

Empanturrar-me

Extasiar-me

Grudar-me nos afetos

E depois

Voltar a voar

Cheio de amor

Beija-flor

(Emílio Casanova, "Coisas do Coração)

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Perdeu

Acordei com pressentimento de quem perdeu,

Amargo sabor de estado desejado,

Inalcansado.

Sentimentos cruzados num labirinto fechado

Qual fervor imaterial que pereceu.

Partiste musa minha,

Alicerce de meus devaneios poéticos,

Âncora de amor querido,

Partiste pelos caminhos da realidade,

Rompendo a magia de flashes de felicidade.

Te encontrar não preciso,

Existes no meu sangue

Circulas em mim em espirais eternas

Que florescem em renovadas primaveras.

Quem te perdeu...não sei, sei que não fui eu.

Emílio Casanova, in "Graça"
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Poema



Seres Poema e não Poeta

Belo desafio esse

Viveres como poesia

Desde o dia em que nasceste.

Seres luar e raio de sol

Batida de asas de beija-flor

Sorriso de mãe com amor.

Seres flecha de cupido

É bem melhor

Que escrever poemas de improviso.

Seres seiva de caule florido

Olhar de criança embevecida

Amor de casal apaixonado

Sangue de toiro enraivecido

É bem melhor

Que palavras sem sentido

E poema metricamente ordenado.

Para onde vais tu caminhante

Se és caminho passageira viajante

Se és Nuvem deslizando no horizonte

Da Natureza pertencente

Voa poesia voa docemente

Para os braços do poema amante.

Emilio Casanova, "Coisas do Coração"
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sobressaltos


no horizonte ilha refúgio vem à mente
deliciados instantes de recolhimento
inércia almejada de cansados neurónios
por longa e intensa jornada de meios séculos corridos
construtor de castelos de sonhos frustrados fui
muralhas de fantasia em areias desérticas movediças ergui
templos prazeres orgias rodearam-me em espirais triangulares
olhos ciliares de idolatria ciúme ódio mordomia vi
elevadas pírâmides efêmeras débeis doentes subi
dantescos labirintos em desumanas labaredas atravessei
na procura de puras almas que salvei
décadas sobre décadas caminhando
perfeito Ulisses navegando minha Ilha sem regresso busquei
peregrinando sonhos ideologias a quatro continentes aportei
tudo percorri na procura de mim
agora ilhado em Ilha do sem fim
liberto nas asas das palavras insubmissas da poesia
cálices de sentimentos submersos cristalizados no Tempo
em paz transbordam de mim
Emílio Casanova, in "palavras ninguém compra".
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Ofício do Verso





Estranho perturbante mesmo, desafiador...

Que me fez pegar num livrinho estreito

de cento e trinta e seis páginas,

relato de uma lição de J.L.Borges sobre esse ofício do verso,

para ocupar meu tempo da barca entre a Ilha da poesia e a Praça XV ?

Saber que temos a mesma idade eu, que agora o leio,

ele que nesse tempo o escreveu.

Como ele eu acredito...poesia é paixão...poesia é prazer...

como eu penso que a minha vida hoje é poesia...

ele escreve a vida é feita de poesia...

E como ele, sei que a poesia salta sobre nós no instante...a qualquer instante.

Que bom Jorge Luís Borges ter-te encontrado numa esquina do tempo

enquanto fazia a travessia lendo tua lição inglesa do verso à poesia...

Coincidência Jorge ? Não !

Já te conhecia.

Emílio Casanova
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De mim II



Na minha infância conheci

um padre ladrão,

roubava almas,

tinha alcunha de pata larga

e queria que lhe beijasse a mão.

Uma vez mãe manuela pediu-lhe conselho

...que fazer com joaquim estudar ou trabalhar...

...estudar qual quê...melhor é ir trabalhar...

...vai para oleiro....

afirmou padre sem arrepio

que da olaria era senhorio.

Bisavó maria afiançava que ele

no forno da olaria de satanás ardia.



Emílio Casanova, in "ninguém compra".
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metade

da minha liberdade...sou uma metade
metade é minha sombra
metade é minha luz
que me completam
por ela arrasto melancolias
que me confundem o fim de tarde
onde morrem os dias
metade verso
outra metade inverso
arrastando a noite
aguardo a metade dia

Emílio Casanova
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Palavras

Chegam às ondas quando começo a pensar
palavras soltas tropeçam, vão e voltam
num rodopiar.


Sobrepoem-se umas às outras
num fervilhar,
querendo mostrar qualidades.


São altas, redondas, magras
curtas, simples,
outras aparecem para complicar.


Parem lá minhas meninas
diz mente a organizar.


Entendam-se minhas queridas
ordena coração a namorar.


Coladas e caladas em sintonia
Constroem assim uma poesia.

Emílio Casanova, "Ninguém Compra"
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