Lista de Poemas

Nem tento

Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
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Testamento do naufrago

Observo o mar através de um copo
vazio
constantemente vazio
na ausência do oceano
postulado ao longe
num oásis impossível
através do copo
vazio
assim me sinto
desfeito e vazio
atiro com o copo
borda fora
sem matar a sede
sem matar quem me mata
pois nada resta para o encher
nem copo
nem a sede
apenas ânsia
revolta 
a vontade de tudo o que não volta
e jogo-me ao mar
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Seringas de água benta

As costas arqueadas
ao balcão de um bar
esperando a benção
em meditação transtornada
ponderando a maçada
de não ser ninguém
e até a música
torna-se demasiado alta
ou impercetível
na memória fula
pecaminosa
se Deus não fosse estrábico
teria abortado a humanidade
ao quinto dia
evitando a desgraça
de cravar uma e outra vez os braços
na jornada prolixa do desassossego
de quem sonhou
e agora transpira e contorce 
só a solidão me dá tempo
pois nem os garrotes me calam as veias
essas que tão mal escolhem as palavras
dói-me as costas
a barriga
a parte debaixo da alma
dói-me o passado
dói-me outra dose vazia
dói-me o esquecimento e a pele esticada
às vezes esqueço a que sabe a dor
outras vezes é de noite
e tudo me dói!





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Tu e sidio

Perdi tanto tempo morrendo
que já não sei viver
empurro-me para fora da sombra
mas o sol não chega para todos
e os outros
parecem conhecer a fórmula
a alquimia esquecida
de viver
e até gostar de viver
mantendo-o em segredo
entre eles
para eles
assim sendo
serei só eu que odeio isto?
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pequeno almoço

São curiosas as vidas dos demais
parecem-me rampas
obstáculos
com que facilidade enxotam os pombos
e acendem um cigarro
e cospem para o chão
se colocam de frente para o sol
vestem calças vermelhas
sapatos sem meias
ou saias horrendas
uma categoria de estilo
fabricado em braile
existem até os menires
falando alto
como se a sua opinião contasse
ou interessasse
o certo 
é que de manhã
o odor a torrada propaga-e
unido ao perfume barato e vazio
criando uma nebulosidade morna
que ocupa todos os espaços
e permite às comadres discutirem de 
ex-maridos
unhas mal pintadas
faturas por pagar
sem pagar
ou o fulano de bigode com sopa
pensar na adolescente
que lhe come o dinheiro
e lhe rouba a razão
tem uma unha encravada
deve ir ao mecânico
e a mim, cheira-me a torrada
a calçada é trilho
para loiras de cabelo lambido
são de puta ou de juíza
a lei funciona com essa liberdade 
livres para a tal mania da roupa justa
em corpo de dinossauro
e como pode tão cedo esse tipo palitar os dentes?
a senhora tem os pés inchados
tantos mosquitos na vitrine 
e mesmo assim, 
a galega dá uma nata ao filho
também 
parece desnatado
e cheira a lota
vou comer a torrada.
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Calunia

Ser poeta é uma forma opulenta
de ser pobre
é ser louco por diagnosticar
alguns dizem ser arte
mas a arte não doí tanto.
Ser poeta é fome e  sede
em banquete
é arrancar cabelos
próprios e alheios
é a receita perfeita 
de solidão insípida
é sangrar tinta 
e escrever com sangue
é não ter tempo
nem para morrer
ser poeta é a pior forma de poesia.
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Anti-Poesia

Não sou poesia
nem prosa
não tenho rima
nem métrica
ou sequer
um poeta que me escreva
nem virgulas
nem a letra Z
não sou nada disso
não sou poesia
que sou?
um sussurro de tinta
de letras ordenadas
sem mensagem
num lugar manchado
com a capacidade de chegar a ti
mas não tenho estilo
nem nome
nem categoria
nem companhia
tenho erro de ortogrefia
só sei
que não sou poesia
👁️ 63

o suicídio de Deus

depois pagas do outro lado!
em muitos casos
pagas primeiro
e voltas a gastar
o acumulado em lágrimas
aqui não
mas quem diria que Deus também sofre ao entrar aqui?
quem diria tal blasfémia
quem diria que a cura do sofrimento é a morte
essa que nunca chega a tempo
ou vem tarde demais
ou cedo
e dá medo pensar que vem 
primeiro mata o amor
carrega-nos de dor no peito
de dor nas costas
de dor 
eu pago do outro lado
tudo em moedas de carvão
ao Serafim sorridente
esse sacristão conduzindo-nos em rebanho
ajoelhados entre o fogo-fátuo
com uma vela velando os antigos vivos
num velório de núpcias
grito ao tempo 
quem diz que o amor não morreu?
quem?





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Meu Minho Místico

Águas cruas do Minho
com restos a aurora tardia
galgais os rochedos do vinho
de famintas dinastias do mar
com repuxo do refluxo espumante
ao reflexo do céu
espelho meu
são águas escuras de ontem
enroscando a agonia no passado
da eternidade
rasgas o canhão das meigas
dos irmãos entre hermanas
e desvaneces no estreito da ampulheta
enquanto o coração se me aperta
ao largo do chicote na desembocadura
a batela do contrabandista
escala as  ondas
com os remos de quem foi
aí te vais!
a água fez-se adulta
de nascente a oceano
nostálgica
uma serpente liquida
ovalando um universo.
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Coluvião

Quem são eles?
carregados de erres nas palavras
de efes nas matrículas
garridos nas vestes e no cabelo
e fome
muita fome
Quem são eles?
a conduzir protótipos de outros
brilhando como as Médulas no auge
em sorrisos apáticos de lábios púrpura
e crianças chatas
muito chatas
Quem são elas?
esculturais donzelas com ar de Nise
igual a muita gente boa
plastificadas de dentro para fora
mergulhadas em azeite
muito azeite
e quem são eles?
cosmopolitas rurais loucos por bijuteria
feiras de gado e concertina
compram tudo com dinheiro caro
à custa da solidão
muita solidão
Quem são eles?
uma tribo de cruzes da ordem do futebol
por cinco escudos velada
é então a cara de Amália e Eusébio
para esta gente
muita gente

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