Lista de Poemas
Nem tento
Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.
👁️ 108
Testamento do naufrago
Observo o mar através de um copo
vazio
constantemente vazio
na ausência do oceano
postulado ao longe
num oásis impossível
através do copo
vazio
assim me sinto
desfeito e vazio
atiro com o copo
borda fora
sem matar a sede
sem matar quem me mata
pois nada resta para o encher
nem copo
nem a sede
apenas ânsia
revolta
a vontade de tudo o que não volta
e jogo-me ao mar
vazio
constantemente vazio
na ausência do oceano
postulado ao longe
num oásis impossível
através do copo
vazio
assim me sinto
desfeito e vazio
atiro com o copo
borda fora
sem matar a sede
sem matar quem me mata
pois nada resta para o encher
nem copo
nem a sede
apenas ânsia
revolta
a vontade de tudo o que não volta
e jogo-me ao mar
👁️ 88
Seringas de água benta
As costas arqueadas
ao balcão de um bar
esperando a benção
em meditação transtornada
ponderando a maçada
de não ser ninguém
e até a música
torna-se demasiado alta
ou impercetível
na memória fula
pecaminosa
se Deus não fosse estrábico
teria abortado a humanidade
ao quinto dia
evitando a desgraça
de cravar uma e outra vez os braços
na jornada prolixa do desassossego
de quem sonhou
e agora transpira e contorce
só a solidão me dá tempo
pois nem os garrotes me calam as veias
essas que tão mal escolhem as palavras
dói-me as costas
a barriga
a parte debaixo da alma
dói-me o passado
dói-me outra dose vazia
dói-me o esquecimento e a pele esticada
às vezes esqueço a que sabe a dor
outras vezes é de noite
e tudo me dói!
ao balcão de um bar
esperando a benção
em meditação transtornada
ponderando a maçada
de não ser ninguém
e até a música
torna-se demasiado alta
ou impercetível
na memória fula
pecaminosa
se Deus não fosse estrábico
teria abortado a humanidade
ao quinto dia
evitando a desgraça
de cravar uma e outra vez os braços
na jornada prolixa do desassossego
de quem sonhou
e agora transpira e contorce
só a solidão me dá tempo
pois nem os garrotes me calam as veias
essas que tão mal escolhem as palavras
dói-me as costas
a barriga
a parte debaixo da alma
dói-me o passado
dói-me outra dose vazia
dói-me o esquecimento e a pele esticada
às vezes esqueço a que sabe a dor
outras vezes é de noite
e tudo me dói!
👁️ 107
Tu e sidio
Perdi tanto tempo morrendo
que já não sei viver
empurro-me para fora da sombra
mas o sol não chega para todos
e os outros
parecem conhecer a fórmula
a alquimia esquecida
de viver
e até gostar de viver
mantendo-o em segredo
entre eles
para eles
assim sendo
serei só eu que odeio isto?
que já não sei viver
empurro-me para fora da sombra
mas o sol não chega para todos
e os outros
parecem conhecer a fórmula
a alquimia esquecida
de viver
e até gostar de viver
mantendo-o em segredo
entre eles
para eles
assim sendo
serei só eu que odeio isto?
👁️ 73
pequeno almoço
São curiosas as vidas dos demais
parecem-me rampas
obstáculos
com que facilidade enxotam os pombos
e acendem um cigarro
e cospem para o chão
se colocam de frente para o sol
vestem calças vermelhas
sapatos sem meias
ou saias horrendas
uma categoria de estilo
fabricado em braile
existem até os menires
falando alto
como se a sua opinião contasse
ou interessasse
o certo
é que de manhã
o odor a torrada propaga-e
unido ao perfume barato e vazio
criando uma nebulosidade morna
que ocupa todos os espaços
e permite às comadres discutirem de
ex-maridos
unhas mal pintadas
faturas por pagar
sem pagar
ou o fulano de bigode com sopa
pensar na adolescente
que lhe come o dinheiro
e lhe rouba a razão
tem uma unha encravada
deve ir ao mecânico
e a mim, cheira-me a torrada
a calçada é trilho
para loiras de cabelo lambido
são de puta ou de juíza
a lei funciona com essa liberdade
livres para a tal mania da roupa justa
em corpo de dinossauro
e como pode tão cedo esse tipo palitar os dentes?
a senhora tem os pés inchados
tantos mosquitos na vitrine
e mesmo assim,
a galega dá uma nata ao filho
também
parece desnatado
e cheira a lota
vou comer a torrada.
parecem-me rampas
obstáculos
com que facilidade enxotam os pombos
e acendem um cigarro
e cospem para o chão
se colocam de frente para o sol
vestem calças vermelhas
sapatos sem meias
ou saias horrendas
uma categoria de estilo
fabricado em braile
existem até os menires
falando alto
como se a sua opinião contasse
ou interessasse
o certo
é que de manhã
o odor a torrada propaga-e
unido ao perfume barato e vazio
criando uma nebulosidade morna
que ocupa todos os espaços
e permite às comadres discutirem de
ex-maridos
unhas mal pintadas
faturas por pagar
sem pagar
ou o fulano de bigode com sopa
pensar na adolescente
que lhe come o dinheiro
e lhe rouba a razão
tem uma unha encravada
deve ir ao mecânico
e a mim, cheira-me a torrada
a calçada é trilho
para loiras de cabelo lambido
são de puta ou de juíza
a lei funciona com essa liberdade
livres para a tal mania da roupa justa
em corpo de dinossauro
e como pode tão cedo esse tipo palitar os dentes?
a senhora tem os pés inchados
tantos mosquitos na vitrine
e mesmo assim,
a galega dá uma nata ao filho
também
parece desnatado
e cheira a lota
vou comer a torrada.
👁️ 76
Calunia
Ser poeta é uma forma opulenta
de ser pobre
é ser louco por diagnosticar
alguns dizem ser arte
mas a arte não doí tanto.
Ser poeta é fome e sede
em banquete
é arrancar cabelos
próprios e alheios
é a receita perfeita
de solidão insípida
é sangrar tinta
e escrever com sangue
é não ter tempo
nem para morrer
ser poeta é a pior forma de poesia.
de ser pobre
é ser louco por diagnosticar
alguns dizem ser arte
mas a arte não doí tanto.
Ser poeta é fome e sede
em banquete
é arrancar cabelos
próprios e alheios
é a receita perfeita
de solidão insípida
é sangrar tinta
e escrever com sangue
é não ter tempo
nem para morrer
ser poeta é a pior forma de poesia.
👁️ 137
Anti-Poesia
Não sou poesia
nem prosa
não tenho rima
nem métrica
ou sequer
um poeta que me escreva
nem virgulas
nem a letra Z
não sou nada disso
não sou poesia
que sou?
um sussurro de tinta
de letras ordenadas
sem mensagem
num lugar manchado
com a capacidade de chegar a ti
mas não tenho estilo
nem nome
nem categoria
nem companhia
tenho erro de ortogrefia
só sei
que não sou poesia
nem prosa
não tenho rima
nem métrica
ou sequer
um poeta que me escreva
nem virgulas
nem a letra Z
não sou nada disso
não sou poesia
que sou?
um sussurro de tinta
de letras ordenadas
sem mensagem
num lugar manchado
com a capacidade de chegar a ti
mas não tenho estilo
nem nome
nem categoria
nem companhia
tenho erro de ortogrefia
só sei
que não sou poesia
👁️ 63
o suicídio de Deus
depois pagas do outro lado!
em muitos casos
pagas primeiro
e voltas a gastar
o acumulado em lágrimas
aqui não
mas quem diria que Deus também sofre ao entrar aqui?
quem diria tal blasfémia
quem diria que a cura do sofrimento é a morte
essa que nunca chega a tempo
ou vem tarde demais
ou cedo
e dá medo pensar que vem
primeiro mata o amor
carrega-nos de dor no peito
de dor nas costas
de dor
eu pago do outro lado
tudo em moedas de carvão
ao Serafim sorridente
esse sacristão conduzindo-nos em rebanho
ajoelhados entre o fogo-fátuo
com uma vela velando os antigos vivos
num velório de núpcias
grito ao tempo
quem diz que o amor não morreu?
quem?
em muitos casos
pagas primeiro
e voltas a gastar
o acumulado em lágrimas
aqui não
mas quem diria que Deus também sofre ao entrar aqui?
quem diria tal blasfémia
quem diria que a cura do sofrimento é a morte
essa que nunca chega a tempo
ou vem tarde demais
ou cedo
e dá medo pensar que vem
primeiro mata o amor
carrega-nos de dor no peito
de dor nas costas
de dor
eu pago do outro lado
tudo em moedas de carvão
ao Serafim sorridente
esse sacristão conduzindo-nos em rebanho
ajoelhados entre o fogo-fátuo
com uma vela velando os antigos vivos
num velório de núpcias
grito ao tempo
quem diz que o amor não morreu?
quem?
👁️ 73
Meu Minho Místico
Águas cruas do Minho
com restos a aurora tardia
galgais os rochedos do vinho
de famintas dinastias do mar
com repuxo do refluxo espumante
ao reflexo do céu
espelho meu
são águas escuras de ontem
enroscando a agonia no passado
da eternidade
rasgas o canhão das meigas
dos irmãos entre hermanas
e desvaneces no estreito da ampulheta
enquanto o coração se me aperta
ao largo do chicote na desembocadura
a batela do contrabandista
escala as ondas
com os remos de quem foi
aí te vais!
a água fez-se adulta
de nascente a oceano
nostálgica
uma serpente liquida
ovalando um universo.
com restos a aurora tardia
galgais os rochedos do vinho
de famintas dinastias do mar
com repuxo do refluxo espumante
ao reflexo do céu
espelho meu
são águas escuras de ontem
enroscando a agonia no passado
da eternidade
rasgas o canhão das meigas
dos irmãos entre hermanas
e desvaneces no estreito da ampulheta
enquanto o coração se me aperta
ao largo do chicote na desembocadura
a batela do contrabandista
escala as ondas
com os remos de quem foi
aí te vais!
a água fez-se adulta
de nascente a oceano
nostálgica
uma serpente liquida
ovalando um universo.
👁️ 86
Coluvião
Quem são eles?
carregados de erres nas palavras
de efes nas matrículas
garridos nas vestes e no cabelo
e fome
muita fome
Quem são eles?
a conduzir protótipos de outros
brilhando como as Médulas no auge
em sorrisos apáticos de lábios púrpura
e crianças chatas
muito chatas
Quem são elas?
esculturais donzelas com ar de Nise
igual a muita gente boa
plastificadas de dentro para fora
mergulhadas em azeite
muito azeite
e quem são eles?
cosmopolitas rurais loucos por bijuteria
feiras de gado e concertina
compram tudo com dinheiro caro
à custa da solidão
muita solidão
Quem são eles?
uma tribo de cruzes da ordem do futebol
por cinco escudos velada
é então a cara de Amália e Eusébio
para esta gente
muita gente
carregados de erres nas palavras
de efes nas matrículas
garridos nas vestes e no cabelo
e fome
muita fome
Quem são eles?
a conduzir protótipos de outros
brilhando como as Médulas no auge
em sorrisos apáticos de lábios púrpura
e crianças chatas
muito chatas
Quem são elas?
esculturais donzelas com ar de Nise
igual a muita gente boa
plastificadas de dentro para fora
mergulhadas em azeite
muito azeite
e quem são eles?
cosmopolitas rurais loucos por bijuteria
feiras de gado e concertina
compram tudo com dinheiro caro
à custa da solidão
muita solidão
Quem são eles?
uma tribo de cruzes da ordem do futebol
por cinco escudos velada
é então a cara de Amália e Eusébio
para esta gente
muita gente
👁️ 88
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