Lista de Poemas

E Monção?

Necessárias multidões emprestadas ao desperdício
Sentam no estrado do privilégio 
da autoridade gruim
sobre liocéfalos flutuando à margem
lambuzados do plasma lismoso
da desembocadura noturna
em dias de nénia
eles fumam e bebem
excretam fumo e bebem fumo
bando de patos fosforizado
junto à fosga de urina
bebericam
e fumam
indutados à margem
como corvos tanecos
rapinas mortas
mordiscando o próprio cadáver
no cadilho da alcateia mais uma ronda
vizires do pó sangrando do nariz
vazando suor pelas rugas
e como se chama aquilo que estão a mastigar?
amizade
isso
disso não tenho
penetra o toque do telefone
será  acidente?
necessito algo para reviçar
ou mato patos
passa a serpente popelina desdentada
rumo ao cume do ocelote
nu
procura redenção lemática
exuma-se e gira ao redor do mundo
repleta de desilusão e estupor
outro tanto peso na alma
nua
as viagens fazem-se eternas
só assim desquicia o real
sem vaidade
nem debilidade
nem coroa
esvaída no tesouro
em frente ao Olimpo horrífico
de portões fechados e espalha-se o naipe.
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duvida

Vida?
eu respondo
limitado conjunto de serões
genuflectindo cada manhã à escuridão deposta
pela regra imposta de ferida exposta
sangrando tempo
difícil de estancar
entre o garrote da saudade
chicoteando as gerações
numa cadência abrupta
ininterrupta
fervilhando significados
e definições como na ausência
rebentando nas mãos
a cumplicidade  do desejo efebofilico
entre o nada espiritual
e o fim.
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Amanhã é uma tumba demasiado apertada



o futuro do povo nada de concreto tem
único lugar-comum a morte
e por mais forte que voe o corvo
os filhos abandonarão o colostro pela aguardente
sublimando o amor em prol de deuses estetas
terminando assim por rebentar o crânio com uma bala barata
vendida na escola pública, pagina cinco
onde uma cruz continua a dar poder ao ditador
para eles tornarem a medicação mais castanha
e tu mulher, já não és digna de reclamar pela violação
tens um, dois, três amantes
com trombas de elefantes nas ilhargas
caninos sanguinários sugando-te a jugular
e procrias num mundo dentro da caixa de Pandora
onde só falta a esperança para cobrir
as tumbas a céu aberto, enormes jardins botânicos
perto das chapas finas crepitando ao sol
onde elas abortam como quem serve um jantar
mas eles voltam a meter crianças lá dentro
metem e metem até deixar de respirar
até a bola azul derreter para vermelho
e este futuro apodrece para aquele passado de fata morgana
num adeus límbico, um final cíclico
a morte!
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o cansaço dos pinguins

fleuma é o meu estado natural
já nada mexe o coração
nem a coreografia do sangue
abala a mole apoplética
igual a uma hipopatologia congénita  
estreita nas artérias
morta de saúde
essa fleuma é o lingoteiro dos poemas
cada estrofe um lingote
e peteco-lhe letras
onde não devia
quando não devia
dopando as palavras de sentido hiperbólico
doravante as fífias passarão no crivo
direto ao lixo ou à história
pois quando sujeito a caneta
rumo a esmo
por linhas e linhas sem fim
entre verbos adormecidos
beijando-me o rosto
daqueles que odeiam a existência
por não ser vegetariana.
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Sou o interior do frasco de veneno

Corre a tinta
descrevendo espelhos no mar
ou
as lanças acutilantes do sol
ou
o voou em picado das borboletas
e mais um saco cheio de nada
só nenhum poeta
embarca na estrofe
desenhando a cascata de pus
de uma borbulha esmagada
ou
o amarelo de um escarro
ou
o vapor envolvente da urina
tão lírico
ou
os pelos chuvosos do sovaco
ou das virilhas
ou
a cor azulada das tripas
do cão atropelado
ou
a coleção de dentes pelo asfalto
ou
o sigilo do final do coito
entre o padre e o acólito
ou
entre pai e filho
avó e neto
ou
a calma de um caixão branco
de meio metro
ou
o sabor das lágrimas
Quem gasta letras com isso?
os poetas?
não
esses são rebanhos
com medo do lobo
acreditando serem o lobo

quanto a mim
Represento o ofício
de envenenador saturado
encaixando o pescoço entre os barrotes
e vivendo cabisbaixo
anulado
escrevo discursos para mudos
e teço vendas para cegos
pressionando as veias até estoirarem
com o peso das letras
esse é o meu eu poeta
pobre do mundo
que me tem como cancro
então
restam-me as leituras
e espero ser verdade
isso de que
cedo ou tarde
os grandes poetas
acabam se parecendo!
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