Escritas

Nem tento

dpesteves
Há dias em que sucumbo
desperto morto, isolado por dentro
numa ilha entre a terra e mais terra
de alma esmagada
e não reconheço o gigante
esse sonâmbulo que me habita
enfrento os dias como castigo
uma rendição
nas mãos apoucadas
de anti-ansia
nada me existe
além da muda necessidade do amanhã
pergunto
qual deles serei detrás da cortina?
quando mais ninguém existe
quantos perdedores sou?
quantos humanos?
e porque devem ser todos
tão cegos
à janela da existência?
Nem o vento tardio
do beira-rio me refaz
deste sempiterno desistir
sem sombras nas folhas
que eram outrora regozijo
servindo de remédio
ao esquecimento
a morte deve ser
apenas um pouco mais
taciturna e infinita
que este negrume que levo dentro
até as palavras saem tristes
como de outro
pois a minha boia furou
em pleno mar violento
torno-me rígido
pálido
mantendo-me à tona
só flutuam os restos mais verdes
que devem nascer amanhã
porque hoje
este hoje tão pesado
sou um cadáver
sem história ou vontade
sou anomalia
tentando trepar à árvore do adeus
talvez lá encontre
a parte que me falta.