Escritas

Lista de Poemas

Bala Perdida

Passa a morte montada em indefinido calibre.

Alucinada segue ela friamente ao sabor do destino.

Poderia se perder no espaço, encravar-se em uma

árvore ou, quem sabe, ricochetear no asfalto e

seguir inofensivo rumo...

A vida, no entanto, reveste-se de tragédia!

Triste gemido parte de uma infantil boca ao tempo

em que inerte cai por terra desfalecido corpo.

Nele, em final suspiro, morrem sonhos e ilusões

precocemente desfeitas.

No negro asfalto vai o sangue desenhando macabra

figura enquanto passos apressados tentam socorrer

a pequenina vítima. Lágrimas se juntam ao sangue

e redesenham um grito de revolta diante da triste

realidade da vida.

Indiferente o dia também morre, sem justiça e sem culpados,

apenas a dor segue a confirmar os desgastados caminhos

da desesperança...

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Beijo


Lábios que se aproximam no

sedutor impulso da paixão...

Na escuridão do cerrado olhar,

iluminam-se vidas, reacendem-se

desejos, libertam-se sonhos...

E, no abraço apertado, dois corpos

colados, desnudos, recitam os versos

mais sublimes do prazer.

Por momentos, no dueto do amor,

a razão se afasta, dois poemas se

completam, rimam, se possuem...

No fim de tudo, a vida retorna, o

olhar renasce, a razão desperta...

Dois breves sorrisos se despedem.

E o beijo resta perdido, dividido entre

lábios que se vão...

Domingos Alicata.

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Noite Junina

A fria e silenciosa noite desenha

em minha janela cores de juninas

lembranças...

Recordo-me das canções, dos balões

enfeitando a noite e do estourar

brilhante dos fogos...

Com um olho na festa e outro na

inocente namoradinha, apreensivo,

disfarçava minha timidez em trajes

fantasiosamente caipiras.

Hoje, despido de qualquer fantasia,

observo a nudez da noite perdido em

profundas saudades...

Apenas uma antiga e intensa fogueira

ainda consome o que restou das minhas

ressecadas ilusões.

No arrefecer da vida meus olhos vão

colhendo, com amor, o pouco que

restou do meu misterioso céu...

Domingos Alicata.

Rio, 13.06.2009

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Coisas da Velhice

No repentino surgir de negras nuvens,

aves em bando passam a procurar abrigo...

E o vento que as precede, traz a força

inconfundível do sul ...

No súbito escurecer da tarde, meu pensamento

se refugia em passados tempos, onde a vida

sorria o seu sorriso mais belo...

Sorrisos da juventude...

Continuo a caminhar estimulado pela torrencial

chuva que agora cai. Livre, desprotegido e sem o

natural receio dos trovões que rasgam o céu...

Destemores da juventude...

Eu e a chuva somos duas solidões que vagam

pelas desertas areias da praia. Indiferente sigo

a cortejar as ondas que, saudosas, ajoelham-se

aos meus pés...

Paixões da juventude...

Ao seu irresistível chamar, mergulho meu velho

corpo em suas salgadas ondas e nos amamos...

Desejo, por instantes, em meu mais profundo

sonho, que este mundo fosse somente meu....

Ambições da juventude...

Sob a noite que se antecipa, faço o caminho da

volta por onde minhas pegadas, em suave pisar ,

vão ferindo a virginal areia...

No mágico encontro do mar com a chuva,

lágrimas restam indefinidas em triste e vazio sabor.

Copacabana se acende sob chuvoso esplendor, mas,

no meu distante olhar, inutilmente tento encontrar

o antigo brilho da juventude...

Coisas da velhice...

Domingos Alicata.

Rio, 07.12.2007

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Brinquedos de Amor

Gosto do silêncio da noite...

Da possibilidade de se

invadir a própria alma,

sua solidão, suas profundas

recordações...

Admiro as divagações que

nascem da confirmação do

vazio...

Buscar coisas perdidas.

Como brinquedos de amor

abandonados pelos cantos

da vida...

Por pequenos defeitos,

fáceis de consertar...

Um desgaste passageiro.

Uma palavra indevida.

Um ligeiro desamor...

Seria tão bom se na escola,

ainda meninos,

nos ensinassem

a consertar corações...

Talvez, Amor, eu não tivesse

perdido você...

Domingos Alicata

Rio, 31.03.2006

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Cruzeiro do Sul

Cruzeiro, que poderia ser

do amor... Da vida... Da ilusão...

És, simplesmente, do Sul.

Teu olhar cintilante sempre

me acompanhou, nas solitárias

noites do mar...

Nas lembranças perdidas dos

amores que ficavam para trás,

mergulhados na branca espuma

morta pelo profundo passar do

meu navio.

Frio, apontavas sempre o Sul...

Mas outro era o meu destino.

Buscava o rumo da aventura,

do martírio das gélidas noites,

do bordejar de temidos furacões

e dos desafios ainda ocultos na

jovem sensualidade da vida...

Do prazer sempre encontrado

nos perdidos portos da vida fiz

o meu adorável viver...

Hoje, da minha janela te acompanho

despido do medo e das angústias dos

amores que morriam ao amanhecer

na sublime lassidão do saciado corpo.

Do ébrio sorriso que se escondia na

penumbra das noites em busca de lábios

aventureiros.

Às vezes até verdadeiros...

Corpos alugados, valorizados no desejo e,

quase sempre, recompensados na busca

do inesquecível prazer.

Ilusões? Não...

Apenas momentos diferentes.

Inconseqüentes.

Hoje nos vemos com outro olhar...

Tu continuas apontando o Sul.

Eu, pelo pedaço de céu que me restou,

te observo com resignação...

Meu rumo agora é triste e vazio...

No silêncio da madrugada penso

em como seria bom recuperar o

sentido primário da vida...

Antigos amores, mesmo vestidos de ilusão!

O frio agora é diferente.

Chega com a solidão dos crepúsculos

e envolve este meu já enfraquecido corpo.

O tempo, devagarzinho, também se vai...

Busca corpos mais jovens, inexperientes,

que não se preocupem com ele, apenas o

deixem passar...

Velha constelação.

Por que este olhar tão triste?

É a figura da cruz que carregas,

ou são meus olhos?

Ambos seguimos o caminho do

ocaso, mas, amanhã tu retornas,

escrava que és do celestial caminhar.

Quem restará mais feliz?

Eu que um dia me vou ou tu que

terás de voltar sempre, mesmo

contra a tua vontade!

E sempre apontando o Sul...

Somente o Sul...

Domingos Alicata

Rio, 22.01.2006

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Amor Minguante

Amor Minguante

Noite profunda. Quase sem vida.

Dedos tentam encontrar a perdida

inspiração acariciando teclas inertes

que, sem forças, se apóiam no vazio.

Pela janela, edifícios apagados

tentam definir os limites da solidão.

Inconformado, busco uma luz ou

um som que confirme, ao menos,

um simples sopro de vida.

Um choro de criança.

Um gemido de amor.

Uma música romântica.

Resignado olho para a Lua, já

minguante e vejo, de repente, você.

Fria e distante, mas você...

O brilho já não é o mesmo.

O nosso amor, como ela, mostra

apenas um leve contorno de luz.

Ecos do passado se ocultam

atrás de indiferente silêncio.

Vazia, a tela do computador

conformada se apaga.

Com um amargo clique desligo

nossos corações, secos e distantes.

Em silêncio, na madrugada, nosso

amor falece...

Domingos Alicata

Rio, 30.07.2005

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Comentários (1)

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Cauana Araujo
Cauana Araujo
2018-09-19

Cruzeiro do sul terra dos cruzeirenses