Lista de Poemas

A Riqueza de Domingo

É domingo, 
Acordar sem o despertador,
Capuchino degustado devagar, 
A rolar na cama,
Sem planos fixos para o dia. 
Escutar os Bealtes com o lembrete 
De que a felicidade é arma
Que aquece a vida. 
A ideia de tomar uma cerveja, 
Jogar um antigo game
E apreciar a conversa familiar
Sem a rigidez de horários, 
Sem cumprimento de funções...
A riqueza de domingo é o ócio 
Pleno no aconchego do lar.
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A Traição

A confiança despedaçada em doloridos 
Fragmentos nas vivencias de muitos anos. 
As relações vistas enquanto lócus instrumentais
De tratar os outros como meio para um fim... 
Mentira entre amigos, intimidades 
De familiares reveladas a quem não devia, 
A traição defeca imoralidades 
E absurdos sem fim.
É o ato grotesco que manipula 
Em palavras disformes, (des)regras morais, 
Os relacionamentos em nome
De apequenados objetivos pessoais. 
Situação que apedreja o crânio de arrependimentos, 
Os quais certamente pairavam na mente de Capitu. 
Deformações morais feito crime 
A castigar as reflexões de Raskólnikov. 
A traição é atestado de baixeza, 
Guilhotina que decepa o pescoço 
Da igualdade humana,
Membro vil que aflora pestes, mutila
Os corpos saudáveis e que
Viviam na confiança mútua.
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O Cético

Eu não aceito a primeira palavra floreada e proferida.
Eu não dobro a língua perante qualquer ideia publicamente aclamada.
Eu não cruzo os braços ao encontrar um monumento ou belo palácio.
É preciso muito mais para me conquistar e vencer as ácidas intenções.
É sempre difícil remodelar quem eu sou,
O que penso ou o que estou querendo afirmar.
Eu não me entrego aos primeiros ventos de novos ares ou sensações,
Pois meu lar está firmado na areia do contínuo questionar.
Para quem nasceu das entranhas desta terra,
Das condições empíricas da matéria biológica,
Limitado pelo húmus da morte
E pelas regras impostas na natureza,
Às lidas com a mística dos seres humanos
Deve ser sustentada no olhar honesto,
Sem o veneno tentador das afirmativas
Com ausência de provas, sem fundamento.
Eu busco a descoberta do mundo em sua crueza,
Como ele de fato é - sem subjetivismos imaginários.
Tatear a realidade em todas as suas propriedades,
Ir à procura de uma verdade perdida na imensidão do cosmos.
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Bem Vindo à Máquina Senhor Floyd

Bem vindo à máquina senhor Floyd, 
Ao modo de produção capitalista, 
Ao sistema de triturar vidas humanas. 
Dos primeiros choros até a lápide 
Obedeça nossos comandos.  
Sonhou com campos esverdeados 
E distinto paraíso? Animou os neurônios? 
Contente-se com a limitada realidade
E ocupe seu lugar no frigorífico de
Imolar as vértebras da esperança - o trabalho.
Vista a máscara social e corra na busca 
Sem fim do deus dinheiro.

Com a ilusão de seus esforços 
Use o elmo do magnata endinheirado,
A fina pele de ovelha em obediência aos líderes,
A coleira de cães que são nossos capatazes, 
Siga a marcha dos porcos que nos celebram.
Com a cabeça atolada no chiqueiro high tech
Veja os algoritmos sequestrarem seus desejos. 
Sinta passivamente as cargas do trabalho
Moendo os anelados sonhos no caminho, 
Os papéis sociais apequenando os objetivos, 
A vida tornada confortavelmente entorpecida. 

Senhor Floyd, acha que pode se levantar?
Cansado de ser descartável tijolo em nosso muro?
Tem que lutar, não se abater ou temer o inimigo?
Não deseja abaixar a cabeça e seguir a maré 
De ordeiro cordeiro aos nossos ditames?
Deseja ser um louco diamante e irradiar
Revolta contra as paredes que oprimem?
Aposte nesse jogo para não adiar a vida!
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Homem Aprisionado em Caixa de Concreto

Ainda bem que eu insisto na vida, 
Algumas vezes, sim, 
Em episódios isolados, 
Desejei abolir-me em meio 
A um punhado de dor. 
E quem nunca isso imaginou? 
Mas mesmo caminhando no caos, 
Aprisionado em caixa de concreto, 
Em dias emoldurados no sofrimento, 
Liberto-me da miséria, 
Desvencilhando de impurezas, 
Transcendendo o mar de enganos 
Feito homem sagaz. 
Sou Alice acorrentada nas perdições
E tateando sombrio mundo, 
Layne Staley em luta contra toxinas. 
Ser mergulhado em melancolia, 
Que nas linhas tortas deixadas pelo mundo, 
Homem que apanha feito cachorro 
Em fétidas latrinas e viscosas feridas, 
Dá um grito de alento e persiste 
Na vida em seu próprio caminho.
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Ser Comunista

Ser comunista é lutar ao lado dos braços
Que constroem a sociedade,
É erguer a voz possante contra
Patrões e banqueiros que degradam
A vida do povo pobre e trabalhador.
Ser comunista é valorizar as pessoas
Pelo seu caráter e não pelo espúrio cifrão.
Ser comunista é tomar o poder
Para taxar sem pena os imorais bilionários
E distribuir as fortunas com as vítimas da fome.
É querer superar o sistema capitalista
Que pulsa exploração e refundar uma 
Sociabilidade baseada na igualdade 
Econômica e política entre os seres.

Ser comunista é combater o latifúndio com
Reforma agrária que atenda o pequeno agricultor.
Ser comunista é lutar pela soberania nacional
E expulsar as hienas multinacionais que depredam nosso patrimônio...
É estatizar serviços privatizados
E oferecer bons serviços públicos ao povo. 
Ser comunista é acabar com o rentismo
Dos bancos, domar o escandaloso lucro de instituições financeiras...
É concretizar o direito de todo cidadão ter um teto para morar e pão para comer,
Alcançar pleno emprego para os operários.

Ser comunista é ser como Marighella,
Calmo como uma bomba a incendiar
Revolta contra os opressores...
É como Gramsci lutando contra cárceres fascistas
Allende libertando o povo,
Prestes levando esperança para os sem voz,
Lenin organizando as massas para tomar o poder,
Brizola combatendo filhotes da ditadura,
Florestan teorizando sobre o imperialismo, 
Marx elucidando as entranhas do capitalismo.

Ser comunista é desde a infância
Questionar a miseria nos rincões do mundo,
É aprender com as ações de seu pai
A possibilidade de mudar o mundo...
É em seu trabalho ser humilhado
pelo patrão 
E aprender que a desobediência e a revolta 
São sólidos pilares da liberdade. 
Ter ciência que o operário obediente é escravo.
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A Felicidade Regada Pela Poesia Engarrafada

A alegria no mundo é regada pelo sabor do vinho...
Na intensidade do tannat do Uruguai,
Na versatilidade dos malbecs da Argentina,
No rei das uvas, o cabernet sauvignon do Chile, 
Na maciez de tempranillos da Espanha, 
Nos sabores alentejanos de Portugal, 
Nos elevados taninos dos nebbiolos da Itália, 
É a poesia engarrafada que na mesa 
Festeja a vida e aproxima as pessoas leais.
O vinho e a literatura são excelentes 
Saca rolhas para revelarem maravilhas. 

Não foi Dionísio que criou a iguaria. 
A bebida é algo concreto que se materializa 
Quando a degusto sozinho ou bebo
Com meu pai durante partidas de futebol. 
Vinho que colore o dia acinzentado,
Néctar que revela nobres recordações, 
Jamais habita a taça para o mero embriagar, 
Deve ser degustado aos poucos, moderadamente, 
Para no pulular das uvas obter imenso prazer.
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Simplicidade Dominical

Ao acordar ouvi
A calmaria no cantar dos pássaros,
Sons que cortejam doces ares 
Entre dissabores do caos urbano.  
Livre das preocupações do trabalho, 
Com freios nas lembranças dos desmandos 
Do governo e a imagem 
Da taça de vinho na anterior noite. 
Como duas pessoas em um simples banquete, 
O sincero bom dia dado a mãe 
Enquanto espero contentamento na mesa. 
Embalados em fluido diálogo, 
Lado a lado em uma fria manhã,
No delicioso café da manhã 
Encontrei felicidade, 
Vivenciei harmonia, 
Era cappuccino caseiro, 
Queijo de roça goiano
E nós sentindo alegria. 
Desligado de redes sociais e smartphones, 
Estômago forrado, a prosa expansiva, 
A manhã dominical esplende simplicidade!
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O Mundo Reage a Morte da Rainha Elizabeth II

Um punk londrino ao som eletrizante do The Clash
Comemora a morte da nobre senhora real,
A inútil monarca que multiplicava os impostos ingleses e recheava as revistas de trivialidades.
Um sul africano grita de alegria em seu dialeto
Ao saber do falecimento real e lembra
Que a distinta anciã representa o apartheid
Que sentenciou negros em humilhante segregação.
Embalados pelas canções de liberdade de Bob Marley,
Os jamaicanos xingam muitos fucks
E lembram dos irmãos tratados como cachorros-escravos em canaviais
Em nome do níquel a rolar nos bolsos ingleses.
Enquanto no Brasil mãos plebeias
Homenageiam seu carrasco na tosca
Bajulação do putrefado coração de Dom Pedro,
O mundo reage a morte de Elizabeth II, dizendo :
Go to hell! Vai tarde! Abraços de Robespierre para a rainha!
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Variações Sobre o Tema Felicidade

Quando procurei a felicidade
Em stories e likes, eu me senti vazio.
Também não a encontrei nas entediantes
Academias quando buscava a construção 
Narcísica do corpo escultural.
Da mistura do dinheiro com a notoriedade social,
O desejo incontrolável de querer sempre mais,
A intranquilidade, o vazio que insistia
Em não ser preenchido com a compra irracional
Do produto da moda - a tenaz escravidão mercadológica.
O que é ser feliz?
Uma gorda conta bancária, 
A boca recheada das mercadorias impostas 
Goela abaixo pela indústria?
O dinheiro é fundamental para o mundo concreto,
Mas não é um fim em si mesmo. É preciso mais!
Filha das virtudes e introspecção,
O que aprendi nesses quase quarenta anos de vida
É que a felicidade é a simplicidade dos prazeres vividos. 
É o cachorro quente da esquina ao invés do prato gourmetizado.
A cerveja degustada no bar "pé sujo" ao invés do requintado champanhe. 
Para além do paladar íngreme das necessidades imediatas, 
O prazer se obtém em ações simples e imateriais.
O que é saudável e feliz?
Um quente abraço da mulher amada,
As memórias familiares que nos matem vivos.
Estamos, realmente, sendo felizes?
É possível a felicidade na sociedade
De competição selvagem, de aparência dissimulada,
Que te molda na lógica de torpe individualismo?
Tristeza não tem fim, felicidade sim - já dizia o poeta.
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