Lista de Poemas
Total de poemas: 48
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Abelha Rainha
O barraco do pedreiro
é feito todo de mel
todo dia tinha enxame
azoando o seu Miguel
Vinham tu, vinha a Maria,
vinham Joelma ou Joel
tudo que é abelha pedia
pra provar daquele mel
Na palhoça do pedreiro
amor era um carrossel
um sai-entra todo o dia
do cafofo do Miguel!
Fui pedir ao seu pedreiro
por um basta no bordel
fez zum-zum na minha orelha
e me fez provar do céu
Na maloca do pedreiro
não sou abelha infiel
eu só bebo da doçura
dos favos do rei do mel
Nem mais tu, mais nem Amélia
Nem mais Joelma ou o Joel
vão reinar nessa colmeia
pois me caso com o Miguel!
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Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa
Queria tanto saber cantar
disse a pomba que arrulhava
catando os restos de pão
na beira de uma calçada
Já eu o que mais queria
é poder planar no ar
disse o homem que passava
varrendo o lixo da estrada
Pois não quero incomodar
disse a poeta que ouvia
debruçada na janela
do terceiro ou quarto andar
Já que a mim o que me resta
é só cantar e voar
E baixou as persianas
retornou a sua mesa
e se pôs a rabiscar
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Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
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Saudades da minha Terra
Hoje sonhei
que tinha ido morar na Lua
Não a Lua dos poetas,
não a Lua das toadas,
sempre cheia e iluminada,
despertando amor febril
Não.
Era uma terra habitada
por casinhas e ruelas
por nuvens e nevoeiros
em sombras de eterno frio
E sonhei que tu moravas
numa casa ali comigo
Mas o amor era pouco,
de tão pouco, não bastou
pra esfriar essa saudade
de uma Terra ensolarada
bola branca e azulada
que pairava na distância
entre um céu negro e hostil
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Cada macaco no seu galho
Eu, no meu quarto
o Daniel, na cova dos leões
a Alice, no país das maravilhas
o relógio, no crocodilo
Eu, no meu quarto
o gênio, na lâmpada
o Minotauro, no labirinto
o Jonas e o Pinóquio
cada um em sua baleia
Eu, no meu quarto
o Senna, em sua Williams
o Santo Antão, no deserto
a Rapunzel e o Hölderlin
cada um em sua torre
Eu, no meu quarto
a Emily, em Amherst
a Eurídice, no Hades
o grão de feijão,
na panela de pressão
A gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo:
Eu no meu quarto
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Breve sonho de fama
Sonhei que da noite para o dia
meu nome tinha ficado famoso
em todas redes sociais
E me nomearam para um prêmio
concorrido e de caráter nacional
Me convidaram a dar entrevistas em
podcasts de abrangência mundial
E eu falava verdades filosóficas:
que tudo me vinha qual sonho
e que eu temia acordar de repente
etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal
Me desconvidaram de todos podcasts
Me desnomearam do prêmio nacional
E do dia para noite meu nome foi cancelado
em todas as redes sociais
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A Pathétique de Tchaikovski
As putas do Bukowski
apreciam um bom
Vivaldi
Seus bêbados,
seus ladrões e
os suicidas
papeiam sobre cavalos,
proseiam sobre Rimbaud
e versam sobre Van Gogh
E até seus assassinos
aumentam o volume
do rádio
quando entoa a
Pathétique!
Agora,
o meu vizinho,
— engenheiro
diplomado pelo MIT,
motorista de um Scénic,
pai de Arthur e
Laura Alice —
reclama que
ler Machado
não passa de uma chatice,
põe no zap
que o Buarque
é veado e
bolchevique,
e arregaça
o som do áudio
quando escuta um
Zé Henrique...
(Queira Deus
que no meu
rádio
jamais toque
a Pathétique!)
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Solitude
Aqui há
pessoas sepultadas
em tumbas amplas
abastadas
que ninguém
jamais visita
Não trazem flores
nem prantos
não há
notas de pesar:
De lembrança
só a lápide
à campainha da porta
traz o nome
de um corpo
que a gente toda esqueceu
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Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
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Narciso
Agora é assim:
mal eu ponho o pé no parque
que o coral de mil narcisos
rosto radiante em sorrisos
já me entoa um oi sonoro
Muito obrigado, digo, amigos,
me inclino em vênias e coro
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