Lista de Poemas

A Pathétique de Tchaikovski

 

As putas do Bukowski

apreciam um bom

Vivaldi

 

Seus bêbados,

seus ladrões e

os suicidas

papeiam sobre cavalos,

proseiam sobre Rimbaud 

e versam sobre Van Gogh

 

E até seus assassinos 

aumentam o volume

do rádio 

quando entoa a 

Pathétique!

 

Agora,

o meu vizinho,

— engenheiro

diplomado pelo MIT,

motorista de um Scénic,

pai de Arthur e

Laura Alice —

reclama que

ler Machado

não passa de uma chatice,

põe no zap

que o Buarque

é veado e

bolchevique,

e arregaça 

o som do áudio

quando escuta um

Zé Henrique...

 

(Queira Deus

que no meu

rádio

jamais toque

a Pathétique!)

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O Jasmim ressuscitado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar sagrado

um copo na cabeceira

zolpidem dormindo ao lado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar empoeirado

não se areja lá faz tempo

nunca passa um namorado

 

Na casa da minha amiga

reina um ar meio encantado

tudo tem seu pouso certo

e o tempo corre arrastado

 

Na casa da minha amiga

há cortinas com plissado

me arrepio quando o vento

vem ondear o cortinado

 

Na casa da minha amiga

toda a mesa tem rendado

e no vaso verde em vidro

um jasmim sonha o passado

 

Na casa da minha amiga

tudo tem lugar honrado

não se troca não se tira

nem se mexe no estofado

 

Certo dia a minha amiga 

me pregou susto danado

se piscando qual mocinha

com o olhinho rebocado

 

Na casa dessa minha amiga

já não vou nem correntado

se desfez das tralharias

tomou dinheiro emprestado

e comprou roupa e cortina

em tom vermelho encarnado!

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Cada macaco no seu galho

 

Eu, no meu quarto

o Daniel, na cova dos leões

a Alice, no país das maravilhas

o relógio, no crocodilo

 

Eu, no meu quarto

o gênio, na lâmpada

o Minotauro, no labirinto

o Jonas e o Pinóquio

cada um em sua baleia

 

Eu, no meu quarto

o Senna, em sua Williams

o Santo Antão, no deserto

a Rapunzel e o Hölderlin

cada um em sua torre

 

Eu, no meu quarto

a Emily, em Amherst

a Eurídice, no Hades 

o grão de feijão, 

na panela de pressão

 

A gente é fraco

cai no buraco

o buraco é fundo

acabou-se o mundo:

Eu no meu quarto

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papel pega mosca

 

minha boca

       tem ternuras

               que se ditas

                    geram cores,

               toldam vistas

       com cândura,

ressuscitam

        secas flores.

               pena minha

                    estarem presas

               em papel 

        de luz diodo,

como moscas

       iludidas

               por um doce

                    feromônio:

               viram

       múmias

ressequidas

        grudadas

               no estéril

                     hormônio. 

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O touro de Minos

 

Este mundo, um labirinto,

em que, desnudo, percorro

mil corredores, faminto

 

Essas grossas amplas veias

pulsam o sangue da nobreza 

inflamado por centelhas

de vaidade e de tristeza

 

Deixo pegadas de homem

sob o jugo de um instinto

e em cadência meus passos

ressoam sem som distinto

 

Bifurcam-se galerias

e espelham-se encruzilhadas

curvadas paredes frias

se giram entorno de um nada

 

Nos becos deste recinto

ouço o eco de sussurros

sei que há mais labirintos

por detrás dos altos muros

 

Persigo a linha da vida

que se enovela a um centro

onde a morte, uma saída,

retoma o fio do tormento

 

Todo o fogo que devoro

não renova o meu vigor

tanto mais devoro o fogo

mais flameja a minha dor

 

Passam sóis e passam luas, 

nuvens tornam o céu finito

sobre a pele nua e crua

pesa o pó de um gasto mito

 

Só o fim desta quimera

quiçá me salve da sina 

vencido por outra fera 

mais ardilosa e assassina

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Alma bêbada

 

Flores Flores Flores Flores

Eu a vejo em mim chorando mares e marés

Vejo-a colhendo cascalhos cinzas me apedreja

Eu simplesmente a vejo beijando grãos, doce ela

Ela está caçoando das nuvens e dançando tempestades

 

Ela é tão docemente... humilde como o ouro das flores

Ela come loucuras domésticas na praia sua

Saboreia água que a molha nua

Só isso nua santa

 

Sonho com ela sonhando comigo

 

Vejo-a tentando, tentando ter compaixão

Oh, ter compaixão de si mesma!

Ela, só ela, seca lágrimas suas

E eu a vejo, a vejo cantarolando poemias

Bêbada, com carícia conforta suas amargas

 

Ela entra na água some

Ela salgamolha-se no próprio pranto próprio

Amaldiçoando pássaros que não colhem

E lírios que não fiam

E deuses que só dormem, só

 

Eu a vejo... vejo... eu a vejo

Encosta seus molhados em mim ri

Sacra-me da areia amarezada da noite

E me cobre de si mesma

... De flores e dores

 

Cuida de solar, brilha no mar

É em mim, é ela que é

Molhada de seu gástrico

Suada de límpidos confessos

...De flores e dores

Ela me há

Ela me em, esquecida

Flores... Flores...

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Melhor amigo

 

Um grito gritou prum eco:

Eco é alma penada?

E o eco todo irrequieto:

Nada, nada, nada, nada!

 

E o grito lançou arteiro:

Quer roubar fruta do conde?

E o eco muito parceiro:

Conde, conde, conde, conde!

 

O grito pediu pro eco:

Vam‘ brincar de pegar bonde?

O eco não parou quieto:

Bonde, bonde, bonde, bonde!

O grito lembrou correto:

E ele vai pra muito longe!

E o eco com todo afeto:

Longe, longe, longe, longe!

O grito pensou inquieto:

Mas vai saber até onde...

E o eco também incerto:

Onde, onde, onde, onde...

 

O gritou falou faceiro:

Quer brincar de esconde-esconde?

E o eco sempre ligeiro:

Esconde, esconde, esconde, esconde!

 

O grito soou contente:

Que brincadeira mais boa!

E o eco que nunca mente: 

Boa, boa, boa, boa!

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Tardezinha ensolarada numa praça de Lisboa


Queria tanto saber cantar

disse a pomba que arrulhava

catando os restos de pão

na beira de uma calçada

 

Já eu o que mais queria

é poder planar no ar

disse o homem que passava

varrendo o lixo da estrada

 

Pois não quero incomodar

disse a poeta que ouvia

debruçada na janela

do terceiro ou quarto andar

Já que a mim o que me resta

é só cantar e voar

 

E baixou as persianas

retornou a sua mesa

e se pôs a rabiscar

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O orgulho da família


Meu pai fez milhões 

filmando

a vida secreta

dos elfos

dos do ar e dos da terra 

dos do fogo e dos do mar

 

Minha irmã foi a primeira 

a escalar 

todas as sete

montanhas

da lua

 

Meu irmão 

gastou seus dias

estudando

provérbios gregos 

extintos

 

Minha mãe 

a mais premiada

curou males

findou guerras

pondo o rosto

na janela

e semeando

sorrisos

 

Agora eu 

e quanto mim… 

sou o único 

que ainda guarda 

a lembrança

disso tudo

 

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À Jeniffer Lopez

 

Jennifer Lopez 

foi uma grande artista portuguesa 

A internet inteira se tarjou de preto

quando a Jennifer Lopez morreu 

Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres 

Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas

O porta-voz do governo disse 

que o Presidente da República 

tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez 

Até as gentes da África e das Américas

enviaram pomposas coroas de flores 

- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -

Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão

Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais

(mas só se feitas à mão)

E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa

pois ninguém soube o caminho

do túmulo da Jennifer Lopez

Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo

O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez

É que na lápide doada pelo Estado francês

(O francês em si adora doar lápides)

o escultor desleixado

ou gravemente dislexado

escrevera o nome errado

Nunca se descobriu até hoje

se o túmulo da Jennifer Lopez 

é o túmulo da Maria da Silva ou

o túmulo do José da Silva ou

o túmulo da Viana Fidalgo ou

o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou

o túmulo da Adília Lopes ou…

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