Lista de Poemas

Sonho de uma noite de verão

 

Noite nua

lua em prata

fui à rua

das acácia

de bermuda

e de regata

pra afogar

minha ressaca

 

(meu jesus me dai cachaça!)

 

Joguei carta

ri à toa

abracei

todas comparsa

e gritei

a vida é boa

cara cheia

as bunda farta

 

(essa rodada é pras parça!)

 

Comi

linguiça e batata

tirei

um choro de lata

e fiz samba

pra mulata

com remolejo

de gata

 

(já tinha dona, a sapata!)

 

Me engracei

c‘uma coroa

tinha pinta

de patroa 

eu pensei

a velha é boa

a noitada

hoje

é de graça

 

(cheirei um pó co‘a ricaça!)

 

Só não sei

me deu nas teia

um rebuliço

escangalho

chamei a velha

de feia

e mandei

ir pro 

caralho

 

(virou poeira a velhaca!)

 

Me ferveu

sangue nas veia

tomei

golão

de gargalo

virei

chave de cadeia

e xinguei

tudo

de otário

 

(que vão à merda as bruaca!)

 

E passei já

pro sopapo

chutei mesa

quebrei prato

quando

bebo

viro macho

faço

as muié

de capacho

 

(me tiraram ali nos tapa!)

 

Fui pra praça

paulo arruda

e catei uma polaca

era gostosa

a bunduda

uns peito grande

qual jaca

 

(mas tinha um pinto, a desgraça!)

 

Sai fazendo 

arruaça

atirei pedra

em vidraça

e mijei

até na estátua 

da

santa

rita de cássia 

 

(todas muié são devassa!)

 

Um milico 

me bateu

me jogou

atrás de grade

infernizei

fiz alarde:

tu é 

corno

seu covarde

 

(ainda acabo co‘a tua raça!)

 

Quando foi

amanheceu

vi meu corpo

na valeta

boca cheia

terra preta

com

dois tiro

na cabeça 


(e os urubu na carcaça!)

 

Acordei

toda moída

co‘a cachola

dolorida

boca aberta

ressequida

de cigarro

e de bebida

 

(senti um bafão de cloaca!)

 

Credo em cruz

ave maria

pomba gira

e bom jesus

deus me livre

dessa sina

sete vez

sinal da cruz

 

(eita vidinha sem graça!)

 

Virgem mãe

aparecida

pela luz

de tua graça

eu te juro

mudo a vida

nunca mais

tomo cachaça

 

(me aperdoe a carne fraca!)

 

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Aviões

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre nuvens

Os aprecio minúsculos 

pairando quase no azul

Aprecio-os de ficar tonto

e sentir que voo ao chão

 

Um avião traçou no céu

longas linhas retas

por onde Deus rabiscou

uns textos breves e turvos

 

Aviões são aves humanas

que sempre insistem em pousar

Embora eu saiba de pássaros que 

jamais cessam seu voo

justamente

por não terem 

mais pernas em que confiar

 

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre estrelas

Os aprecio minúsculos 

a se piscar no negrume

Aprecio-os de ficar zonzo

e cair em sono fundo

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Saudades da minha Terra

 

Hoje sonhei

que tinha ido morar na Lua

Não a Lua dos poetas,

não a Lua das toadas,

sempre cheia e iluminada,

despertando amor febril

Não.

Era uma terra habitada

por casinhas e ruelas

por nuvens e nevoeiros

em sombras de eterno frio

E sonhei que tu moravas

numa casa ali comigo

Mas o amor era pouco,

de tão pouco, não bastou

pra esfriar essa saudade

de uma Terra ensolarada

bola branca e azulada

que pairava na distância

entre um céu negro e hostil

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O quê da coisa

 

Nem todo o poema

é Sistina

Nem todo o verso

um Titã

Nem toda a rima

é Alpina

Nem todo o poeta

um Rodin

Só a poesia 

essa sina

é sempre Febre Terçã

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Ladainha do Coração Desmesurado

 

Terça

Ah fosse eu dona Maria

lavava roupa em tua pia

Se eu fosse o Seu João

te tratava a arroz-feijão

Fosse eu irmão do Zé

te passava um bom café 

E se fosse a banda Eva

te compunha moda brega

 

Quarta

E se me dera ser duque

não aceitava retruque

E se me dera ser princesa

te prendia ao pé da mesa 

E se me dera ser eu rei

tu me casavas por lei

E se me dera imperatriz

te imputava um fim feliz

 

Quinta

Ai quem dera eu fosse ele

te pescava com esta rede

Ai quem dera eu fosse ela

só te amava à luz de vela

Ai quem dera eu fosse tu

me chamava meu chuchu

 

Sexta

Virasse eu um boteco

transbordava o teu caneco

Virasse eu bar de esquina

eu seria a tua ruína

Virasse eu um bordel

tu tinhas puta fiel

Virasse eu Casa Branca

te anunciava zona franca

 

Sábado

Ah se eu fosse um relés padre

eras mais que só compadre

Ah, se eu fosse um sábio bispo

te ergueria a altar de Cristo

Ah, se eu fosse um cardeal

te elevava a santo Graal

Mas se eu fosse santo papa

eras o herói da Vulgata

 

Domingo

E fosse eu um beato

veneravas meu retrato

E fosse eu algum santo

tu beijavas o meu manto

E fosse eu um arcanjo

te tocava harpa e banjo

E se no céu fosse eu Zeus

me idolatravas qual Deus

 

Segunda

Ah se eu fosse mesmo eu

não negavas quanto és meu!

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Quem foi que matou o poeta

 

Lá tá ele no meio da rua 

gordo, coitado, corpanzil estirado 

todo, sobre o asfalto 

sirenes inda ouço 

focos vermelhos 

e azuis 

ta ti ta ta 

ta ti 

tata 

 

Seu policial,

só uma pergunta 

falou o repórter

Nada a declarar disse o polícia 

circulando, circulando

 

Não, seu doutor, desculpa aí,

foi tão do nada, né

Não vi não

assim falou seu José

De pedreiro

cheio a mão

 

Um milagre que o carro sobreviveu! 

deu de comento a vendedora 

de pé de moleque 

apontando pra coisa

carnuda redonda

ceifada esfolada 

estirada na rua

bloqueando o fluxo

em plena contramão

 

Nem sangue saia do morto 

 

Poeta

 

Consternação?

 

Ah, isso sim, 

mas sem choro 

que era poeta de pouca extensão 

 

Sabe o nome? 

Não sei não, disse o ladrão 

apalpando no bolso da calça 

a magra carteira 

surrupiada 

do chão

 

Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo 

disse o moleque 

que fedia a jornal 

e vivia enrolado 

em velha notícia

abaixo do viaduto 

Teixeira Amaral

 

Ah, foi pouco o interesse 

notícia de segunda mão

 

Te citou aqui foi quem?

disse o polícia

e roçou o cacetete

no coro

do sabichão

 

Não parece um soldado 

o poeta

abatido e surpreso 

em meio à batalha 

por bala perdida

tombado ao chão?

Suspirou num repente

Maria da Silva e João

a dona da carrocinha

balançando na direita 

churro quente

e na esquerda 

pastelão

 

Mas só se for,

pensou o gari

no ele com ele

e os devidos botões,

bala calibre canhão

 

Ah era poeta o pançudo? 

E de alcunha? 

Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi. 

Mas todo dia morre gente aqui,

meu patrão,

é jornaleiro e jornalista

é engraxate e sapateiro

é biscateiro e professor...

E poeta? 

Até hoje? 

Que eu saiba 

ainda não 

 

Assim falou Mascarenhas

e entornou um martelinho

dando depois três batidas

na madeira do balcão

 

Mas si-sim, gritou o moleque 

com catinga de notícia

que faz dois ou mais de mês

que se atirou ali da ponte

da-da-da

da-da-da

da-da-da

 

- A da Cruz!

berrou o povo

 

Isso, Cruz

aquele tal compunista

ô-ô-ô

ô-ô-ô

 

O Gonzaga de Jesus! 

 

Ah, mas pra que tanta indiscrição!

 

Sai daí moleque gago

que ninguem te perguntô

quem que morreu

quem se matô

 

Circulando, circulando!

 

Saiu noutro dia 

larga manchete

no jornal 

A Sensação:

Faleceu o senhor 

Felisberto dos Santos

Souza Silva

Neto e Cunha 

poeta de puro nome

professor de profissão

Nome da rua

Almeida Quevedo 

esquina com

a Siqueira Alemão

atropelado 

ou morto 

por 

anônimo

caminhão

 

Ninguém deu muita atenção

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Auto de amor e traição na granja do pai João

 

Cena I

 

A galinha bateu asa

e pediu cocoricó?!

O galo crispou a crista

e berrou cocorocó!!

Coitadinha da galinha

tá tristinha de dar dó

pois o galo, o safadinho,

tá cantando a carijó!

 

Coro:

Uma vaca que pastava ruminando tão tristonha 

revolveu os olhos brava e mugiu: Ô sem-vergonha!

 

Cena II

 

Um pintinho pequeninho

deu um peido amarelinho

e cantou sou um baita galo!

Piu piu piu piava o pinto

olha o cheiro que eu exalo!

 

Coro:

Uma vaca que sonhava mastigando seu lamento 

regalou o olho em brasa e mugiu: Bicho nojento!

 

Cena III

 

Noite o galo e uma galinha

foram ao baile da raposa

o seu galo bebeu todas

e flertou com a mariposa

Sá galinha por vingança

dançou já com a tropa toda

e o galinho descornado

foi dormir só co’a esposa

 

Coro:

Uma vaca que acordava murmurando uma tristeza

viu que o galo cambaleava e mugiu: Ô safadeza!

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No barco vago do pai

 

...o meu pai pescava peixe

em rede que entra e sai

no entra e sai dessa rede

pescava peixe o meu pai...

 

Negra noite um barco vaga

Vaga o barco num balanço

As ondas gemem risadas

E os ventos caçoam prantos!

 

...e num vai que vem e volta

e num volta que vem e vai

me ensinou meu pai a voga

e a voga aprendi do pai...

 

Na maré que sobe e desce

Relanço redes ao mar

Num rumorejo de preces

Pedindo pro pai voltar!

 

...meu pai me ensinou a orar

contando as ondas do mar

contando as ondas do mar

me ensinou meu pai a orar...

 

Só uma gaivota responde

Bradando um grito de ai:

E teu pai se foi pra onde?!

Onde foi pescar teu pai?!

 

...ó filho, aprendi pescar

ouvindo o vento chorar

aprenda a temer, ó filho

os risos loucos do mar...

 

Foi no mar que vem e volta

E em onda que sobe e cai

Que a vaga remou de volta

O barco que foi do pai!

 

...o pai pescava seu peixe

cantando pra retornar

o filho pesca chorando 

me deixem morrer no mar...

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Narciso

 

Agora é assim:

mal eu ponho o pé no parque

que o coral de mil narcisos

rosto radiante em sorrisos 

já me entoa um oi sonoro

Muito obrigado, digo, amigos,

me inclino em vênias e coro

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Quarta-Feira de Sangue

 

Duas coisas me restaram 

do ensaio de uma vida:

que o sabão Piraquitiba

tudo lava, tudo enxagua,

e, conforme a voz no rádio,

Até mancha de sangue ele apaga!

E também que só o sábio, 

o sabido, o verdadeiro,

é quem sabe o que é perdão

...essa eu colhi, se me lembro,

de um novo samba-canção...

Só de sábia eu tive é nada, 

muito pouco de sabida,

e desfilei de madrugada

meu rancor pela avenida

camisa e saia manchadas

com os respingos da tua vida

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