Lista de Poemas
Total de poemas: 48
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Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
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Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
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Quarta-Feira de Sangue
Duas coisas me restaram
do ensaio de uma vida:
que o sabão Piraquitiba
tudo lava, tudo enxagua,
e, conforme a voz no rádio,
Até mancha de sangue ele apaga!
E também que só o sábio,
o sabido, o verdadeiro,
é quem sabe o que é perdão
...essa eu colhi, se me lembro,
de um novo samba-canção...
Só de sábia eu tive é nada,
muito pouco de sabida,
e desfilei de madrugada
meu rancor pela avenida
camisa e saia manchadas
com os respingos da tua vida
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Melhor amigo
Um grito gritou prum eco:
Eco é alma penada?
E o eco todo irrequieto:
Nada, nada, nada, nada!
E o grito lançou arteiro:
Quer roubar fruta do conde?
E o eco muito parceiro:
Conde, conde, conde, conde!
O grito pediu pro eco:
Vam‘ brincar de pegar bonde?
O eco não parou quieto:
Bonde, bonde, bonde, bonde!
O grito lembrou correto:
E ele vai pra muito longe!
E o eco com todo afeto:
Longe, longe, longe, longe!
O grito pensou inquieto:
Mas vai saber até onde...
E o eco também incerto:
Onde, onde, onde, onde...
O gritou falou faceiro:
Quer brincar de esconde-esconde?
E o eco sempre ligeiro:
Esconde, esconde, esconde, esconde!
O grito soou contente:
Que brincadeira mais boa!
E o eco que nunca mente:
Boa, boa, boa, boa!
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Aviões
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre nuvens
Os aprecio minúsculos
pairando quase no azul
Aprecio-os de ficar tonto
e sentir que voo ao chão
Um avião traçou no céu
longas linhas retas
por onde Deus rabiscou
uns textos breves e turvos
Aviões são aves humanas
que sempre insistem em pousar
Embora eu saiba de pássaros que
jamais cessam seu voo
justamente
por não terem
mais pernas em que confiar
Aprecio os aviões subindo
a se perder entre estrelas
Os aprecio minúsculos
a se piscar no negrume
Aprecio-os de ficar zonzo
e cair em sono fundo
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O quê da coisa
Nem todo o poema
é Sistina
Nem todo o verso
um Titã
Nem toda a rima
é Alpina
Nem todo o poeta
um Rodin
Só a poesia
essa sina
é sempre Febre Terçã
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À Jeniffer Lopez
Jennifer Lopez
foi uma grande artista portuguesa
A internet inteira se tarjou de preto
quando a Jennifer Lopez morreu
Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres
Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas
O porta-voz do governo disse
que o Presidente da República
tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez
Até as gentes da África e das Américas
enviaram pomposas coroas de flores
- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -
Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão
Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais
(mas só se feitas à mão)
E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa
pois ninguém soube o caminho
do túmulo da Jennifer Lopez
Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo
O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez
É que na lápide doada pelo Estado francês
(O francês em si adora doar lápides)
o escultor desleixado
ou gravemente dislexado
escrevera o nome errado
Nunca se descobriu até hoje
se o túmulo da Jennifer Lopez
é o túmulo da Maria da Silva ou
o túmulo do José da Silva ou
o túmulo da Viana Fidalgo ou
o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou
o túmulo da Adília Lopes ou…
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Há versos no corpo todo
Verso morde, verso expele,
verso fede e verso sua,
versos pés e versos mãos:
um corpo se faz de versos
um verso te enruga a pele
um outro invade o pulmão
há verso que mói as costas
já outros turvam a visão
vivos versos movem pernas
versos mortos cavam chão
há versos pro corpo todo
é o verso que move a mão
o verso que ferve a veia
e o verso da indigestão
um verso sobe à cabeça
e ali planteia a ilusão
há verso que treme o corpo
e o verso só da razão
há versos por todos pelos
tais versos dão comichão
tem verso que é ronco à noite
tem versos na solidão
há versos pra todo o corpo
vêm versos do coração
Mas quando as rimas
se espalham
da cabeça até o dedão
do corpo ao meio
se apossam
mil versos de diversão
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