Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 48 Página 5 de 5

Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)

 

De dona Adélia afirmaram

essa não faz poesia

À dona Clarice, atestaram,

falta a crua maestria

E dona Hilda, acusaram

da mais vil pornografia!

Senhora Prado

senhora Lispector

e até a senhora Hilst

se reencaixaram nos vincos

dos mobiliários domésticos

e criaram seus maridos

sem delírios manifestos

(só em caso de um apuro 

financeiro ou de família

recorreram em desespero

à uma antiga bruxaria)

Agora, a dona Adília,

de quem bastou um poema

pra negarem a fantasia

enfartou logo de pronto

e foi ontem sepultada

sem discurso ou honraria

numa cova abandonada

da mais rala burguesia

(só seus versinhos

restaram

e definham em afasia

num magazine esgotado

sobre bolo & astrologia)

 

 

(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)

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Mais um conto de fada


Lá nas lonjuras dos tempos

houve uma mãe

das mais severas

que de filhos

tinha três:

João, Joaquim, José, e o Adão

que era o seu marido então

Uns guris fortes que eram

bem formados, dedos grossos,

mas viviam maltratados

pela mãe, uma megera,

que adorava uma maçã,

mas odiava gente sã

Certo dia

a mãe se foi

deixando sós o marido, 

o muito honrado Adão

mais José, mais Joaquim  

e um outro seu irmão

Como o pai sempre fora

gente da boa, decente,

tudo aceita, nunca mente,

viveram quase felizes

o pai manso e os descendentes

até o findar dessa história

Com exceção do João 

que migrou

para o tablado

pra purgar um crime à toa

de algum fruto

envenenado

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Quarta-Feira de Sangue

 

Duas coisas me restaram 

do ensaio de uma vida:

que o sabão Piraquitiba

tudo lava, tudo enxagua,

e, conforme a voz no rádio,

Até mancha de sangue ele apaga!

E também que só o sábio, 

o sabido, o verdadeiro,

é quem sabe o que é perdão

...essa eu colhi, se me lembro,

de um novo samba-canção...

Só de sábia eu tive é nada, 

muito pouco de sabida,

e desfilei de madrugada

meu rancor pela avenida

camisa e saia manchadas

com os respingos da tua vida

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Melhor amigo

 

Um grito gritou prum eco:

Eco é alma penada?

E o eco todo irrequieto:

Nada, nada, nada, nada!

 

E o grito lançou arteiro:

Quer roubar fruta do conde?

E o eco muito parceiro:

Conde, conde, conde, conde!

 

O grito pediu pro eco:

Vam‘ brincar de pegar bonde?

O eco não parou quieto:

Bonde, bonde, bonde, bonde!

O grito lembrou correto:

E ele vai pra muito longe!

E o eco com todo afeto:

Longe, longe, longe, longe!

O grito pensou inquieto:

Mas vai saber até onde...

E o eco também incerto:

Onde, onde, onde, onde...

 

O gritou falou faceiro:

Quer brincar de esconde-esconde?

E o eco sempre ligeiro:

Esconde, esconde, esconde, esconde!

 

O grito soou contente:

Que brincadeira mais boa!

E o eco que nunca mente: 

Boa, boa, boa, boa!

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Aviões

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre nuvens

Os aprecio minúsculos 

pairando quase no azul

Aprecio-os de ficar tonto

e sentir que voo ao chão

 

Um avião traçou no céu

longas linhas retas

por onde Deus rabiscou

uns textos breves e turvos

 

Aviões são aves humanas

que sempre insistem em pousar

Embora eu saiba de pássaros que 

jamais cessam seu voo

justamente

por não terem 

mais pernas em que confiar

 

Aprecio os aviões subindo

a se perder entre estrelas

Os aprecio minúsculos 

a se piscar no negrume

Aprecio-os de ficar zonzo

e cair em sono fundo

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O quê da coisa

 

Nem todo o poema

é Sistina

Nem todo o verso

um Titã

Nem toda a rima

é Alpina

Nem todo o poeta

um Rodin

Só a poesia 

essa sina

é sempre Febre Terçã

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À Jeniffer Lopez

 

Jennifer Lopez 

foi uma grande artista portuguesa 

A internet inteira se tarjou de preto

quando a Jennifer Lopez morreu 

Jennifer Lopez foi enterrada no cemitério dos Prazeres 

Veio um cardeal e rezou-lhe sete missas

O porta-voz do governo disse 

que o Presidente da República 

tinha lido todos os livros da Jennifer Lopez 

Até as gentes da África e das Américas

enviaram pomposas coroas de flores 

- flores brancas, de papel, feitas uma a uma à mão -

Jennifer Lopez amava flores de papel feitas à mão

Ainda bem, as flores de papel não morrem jamais

(mas só se feitas à mão)

E as coroas ainda aguardam no porto de Lisboa

pois ninguém soube o caminho

do túmulo da Jennifer Lopez

Nem o presidente, nem o cardeal, nem o porta-voz do governo

O coveiro diz que nunca leu Jennifer Lopez

É que na lápide doada pelo Estado francês

(O francês em si adora doar lápides)

o escultor desleixado

ou gravemente dislexado

escrevera o nome errado

Nunca se descobriu até hoje

se o túmulo da Jennifer Lopez 

é o túmulo da Maria da Silva ou

o túmulo do José da Silva ou

o túmulo da Viana Fidalgo ou

o túmulo do Fidalgo de Oliveira ou

o túmulo da Adília Lopes ou…

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Há versos no corpo todo

 

Verso morde, verso expele,

verso fede e verso sua, 

versos pés e versos mãos:

um corpo se faz de versos

 

um verso te enruga a pele

um outro invade o pulmão

 

há verso que mói as costas

já outros turvam a visão

 

vivos versos movem pernas

versos mortos cavam chão

 

há versos pro corpo todo

é o verso que move a mão

 

o verso que ferve a veia

e o verso da indigestão

 

um verso sobe à cabeça 

e ali planteia a ilusão

 

há verso que treme o corpo

e o verso só da razão

 

há versos por todos pelos

tais versos dão comichão

 

tem verso que é ronco à noite

tem versos na solidão

 

há versos pra todo o corpo

vêm versos do coração

 

Mas quando as rimas 

se espalham

da cabeça até o dedão

do corpo ao meio 

se apossam

mil versos de diversão

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