Lista de Poemas
Há versos no corpo todo
Verso morde, verso expele,
verso fede e verso sua,
versos pés e versos mãos:
um corpo se faz de versos
um verso te enruga a pele
um outro invade o pulmão
há verso que mói as costas
já outros turvam a visão
vivos versos movem pernas
versos mortos cavam chão
há versos pro corpo todo
é o verso que move a mão
o verso que ferve a veia
e o verso da indigestão
um verso sobe à cabeça
e ali planteia a ilusão
há verso que treme o corpo
e o verso só da razão
há versos por todos pelos
tais versos dão comichão
tem verso que é ronco à noite
tem versos na solidão
há versos pra todo o corpo
vêm versos do coração
Mas quando as rimas
se espalham
da cabeça até o dedão
do corpo ao meio
se apossam
mil versos de diversão
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Mais um conto de fada
Lá nas lonjuras dos tempos
houve uma mãe
das mais severas
que de filhos
tinha três:
João, Joaquim, José, e o Adão
que era o seu marido então
Uns guris fortes que eram
bem formados, dedos grossos,
mas viviam maltratados
pela mãe, uma megera,
que adorava uma maçã,
mas odiava gente sã
Certo dia
a mãe se foi
deixando sós o marido,
o muito honrado Adão
mais José, mais Joaquim
e um outro seu irmão
Como o pai sempre fora
gente da boa, decente,
tudo aceita, nunca mente,
viveram quase felizes
o pai manso e os descendentes
até o findar dessa história
Com exceção do João
que migrou
para o tablado
pra purgar um crime à toa
de algum fruto
envenenado
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Abelha Rainha
O barraco do pedreiro
é feito todo de mel
todo dia tinha enxame
azoando o seu Miguel
Vinham tu, vinha a Maria,
vinham Joelma ou Joel
tudo que é abelha pedia
pra provar daquele mel
Na palhoça do pedreiro
amor era um carrossel
um sai-entra todo o dia
do cafofo do Miguel!
Fui pedir ao seu pedreiro
por um basta no bordel
fez zum-zum na minha orelha
e me fez provar do céu
Na maloca do pedreiro
não sou abelha infiel
eu só bebo da doçura
dos favos do rei do mel
Nem mais tu, mais nem Amélia
Nem mais Joelma ou o Joel
vão reinar nessa colmeia
pois me caso com o Miguel!
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Solitude
Aqui há
pessoas sepultadas
em tumbas amplas
abastadas
que ninguém
jamais visita
Não trazem flores
nem prantos
não há
notas de pesar:
De lembrança
só a lápide
à campainha da porta
traz o nome
de um corpo
que a gente toda esqueceu
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Isso seria um poema (se bem pudesse ter sido)
De dona Adélia afirmaram
essa não faz poesia
À dona Clarice, atestaram,
falta a crua maestria
E dona Hilda, acusaram
da mais vil pornografia!
Senhora Prado
senhora Lispector
e até a senhora Hilst
se reencaixaram nos vincos
dos mobiliários domésticos
e criaram seus maridos
sem delírios manifestos
(só em caso de um apuro
financeiro ou de família
recorreram em desespero
à uma antiga bruxaria)
Agora, a dona Adília,
de quem bastou um poema
pra negarem a fantasia
enfartou logo de pronto
e foi ontem sepultada
sem discurso ou honraria
numa cova abandonada
da mais rala burguesia
(só seus versinhos
restaram
e definham em afasia
num magazine esgotado
sobre bolo & astrologia)
(Para: Adélia Prado, Clarice Lispector, Hilda Hilst e Adília Lopes)
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Terezinha
Mamãezinha quando bebe
adormece pelo chão
Papaizinho quando fuma
sente dor no coração
Meu amor quando entorpece
só desboca palavrão
E eu que sou tão miudinha
do tamanho de um fogão
carrego a mamãe pra cama
e o papai para o plantão
O bolso furou
o dinheiro escapou
você se azedou
E o amor que tu me tinhas
era pouco, muito pouco, de tão pouco
se acabou
Ai, na rua, nessa rua, tem um beco...
Lá quem manda e que desmanda é o Salvador
Que ladrilha e maravilha a rua inteira
Con piedritas cristalinas, muy preciosas
Pra acalmar e acabar com toda a dor...
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Breve sonho de fama
Sonhei que da noite para o dia
meu nome tinha ficado famoso
em todas redes sociais
E me nomearam para um prêmio
concorrido e de caráter nacional
Me convidaram a dar entrevistas em
podcasts de abrangência mundial
E eu falava verdades filosóficas:
que tudo me vinha qual sonho
e que eu temia acordar de repente
etcetera e tal, etcetera e tal, etcetera e tal
Me desconvidaram de todos podcasts
Me desnomearam do prêmio nacional
E do dia para noite meu nome foi cancelado
em todas as redes sociais
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Panapanã
Não têm mãe, nem têm um pai
na brevidade dessa vida
que brotou já colorida
sob o morno sol do ar
Pura seda, finas pétalas
se acenam de par em par
floreiam voltas incertas
pra em nova cor repousar
Beijam flores encantadas
com o sumo deste beijo
e na fome do desejo
querem mil flores beijar
Se de pólen fecundadas
sementes vão semear
sobre folhas como fadas
perolinhas de um colar
Sete noites, sete dias
cumprem a sina de voar
belezas recém-nascidas
para um breve farfalhar
E findada a primavera
se despedem do luar
e com o todo que se altera
vão ao pó do pó voltar
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