Escritas

Quem foi que matou o poeta

Claudio de Jesus

 

Lá tá ele no meio da rua 

gordo, coitado, corpanzil estirado 

todo, sobre o asfalto 

sirenes inda ouço 

focos vermelhos 

e azuis 

ta ti ta ta 

ta ti 

tata 

 

Seu policial,

só uma pergunta 

falou o repórter

Nada a declarar disse o polícia 

circulando, circulando

 

Não, seu doutor, desculpa aí,

foi tão do nada, né

Não vi não

assim falou seu José

De pedreiro

cheio a mão

 

Um milagre que o carro sobreviveu! 

deu de comento a vendedora 

de pé de moleque 

apontando pra coisa

carnuda redonda

ceifada esfolada 

estirada na rua

bloqueando o fluxo

em plena contramão

 

Nem sangue saia do morto 

 

Poeta

 

Consternação?

 

Ah, isso sim, 

mas sem choro 

que era poeta de pouca extensão 

 

Sabe o nome? 

Não sei não, disse o ladrão 

apalpando no bolso da calça 

a magra carteira 

surrupiada 

do chão

 

Eu vi tu-tudo, eu vi tu-tudo 

disse o moleque 

que fedia a jornal 

e vivia enrolado 

em velha notícia

abaixo do viaduto 

Teixeira Amaral

 

Ah, foi pouco o interesse 

notícia de segunda mão

 

Te citou aqui foi quem?

disse o polícia

e roçou o cacetete

no coro

do sabichão

 

Não parece um soldado 

o poeta

abatido e surpreso 

em meio à batalha 

por bala perdida

tombado ao chão?

Suspirou num repente

Maria da Silva e João

a dona da carrocinha

balançando na direita 

churro quente

e na esquerda 

pastelão

 

Mas só se for,

pensou o gari

no ele com ele

e os devidos botões,

bala calibre canhão

 

Ah era poeta o pançudo? 

E de alcunha? 

Hmm. Aí não sei. Nunca ouvi. 

Mas todo dia morre gente aqui,

meu patrão,

é jornaleiro e jornalista

é engraxate e sapateiro

é biscateiro e professor...

E poeta? 

Até hoje? 

Que eu saiba 

ainda não 

 

Assim falou Mascarenhas

e entornou um martelinho

dando depois três batidas

na madeira do balcão

 

Mas si-sim, gritou o moleque 

com catinga de notícia

que faz dois ou mais de mês

que se atirou ali da ponte

da-da-da

da-da-da

da-da-da

 

- A da Cruz!

berrou o povo

 

Isso, Cruz

aquele tal compunista

ô-ô-ô

ô-ô-ô

 

O Gonzaga de Jesus! 

 

Ah, mas pra que tanta indiscrição!

 

Sai daí moleque gago

que ninguem te perguntô

quem que morreu

quem se matô

 

Circulando, circulando!

 

Saiu noutro dia 

larga manchete

no jornal 

A Sensação:

Faleceu o senhor 

Felisberto dos Santos

Souza Silva

Neto e Cunha 

poeta de puro nome

professor de profissão

Nome da rua

Almeida Quevedo 

esquina com

a Siqueira Alemão

atropelado 

ou morto 

por 

anônimo

caminhão

 

Ninguém deu muita atenção