Lista de Poemas
JOÃO
ainda pequeno, de bom coração
família não teve, infância também não
viveu nas ruas batalhando a fome
sendo esmagado pela população
foi trabalhar e tentou se virar
mas o preconceito era maior
que esnobavam o menor
Cresceu João, filho da Nação
apesar das dificuldades, tinha bom coração
aprendeu a viver com o medo e a dor
com a fome, com a vida
com o preconceito da cor
varria ruas, entregava papelada
ganhava um dinheiro que para nada dava
Viveu João, filho da Nação
com tantos horrores, não tinha coração
aprendeu a lutar, roubar, matar
foi preso mas conseguiu fugir de lá
namorava a bonita e bela Maria
nessa época foi feliz
tinha tudo o que queroa
até que uma noite João foi roubar
estava feliz, nunca precisou matar
então foi dormir e com os anjos sonhar
mas no dia seguinte não precisou acordar
viu, então, toda a população
mais um corpo jogado
todo ensanguentado
estendido no chão,
embaixo do Minhocão
Morreu João, filho da Nação
com apenas vinte anos de idade
foi vítima da sociedade
ANO: 1992
SOMENTE UM PASSO
ANO: 1999
TEMPO QUE ME SUFOCA
entre rostos sombrios
enquanto anjos caem do céu
A dor aumenta,
escadas indicam caminhos opostos
e a cor some
na sombra da névoa do medo
Estou com frio
e quero colo
quero só mais um agrado
Meu corpo treme
e as vozes falam
mas não dizem nada
Me abrace,
me segure,
estou perdida
no abismo que construí
Sinto sua falta
desde criança
Quero colo,
quero uma canção para dormir
quero que leia uma história
quero carinho
Por favor!
Não vá embora,
a cada partida
é um buraco negro
Só quero abraço
e a certeza de que vai ficar...
ANO: 2000
UM CONTO DA VIDA
"Espere, não saia sem pegar seu dinheiro"- disse-lhe isso a fim de humilhá-la ainda mais. Já não bastava terminar uma história de anos de forma tão rude! - "Pegue seu dinheiro e sinta-se paga por todos esses encontros."
Ela bateu a porta e saiu, chorando. Não entendia como um ser humano era tão baixo e tão malvado. Estava magoada. Sentia-se um lixo, uma infeliz.
Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
"Realmente é positivo. Acho que devo os parabéns! A senhora vai ser mãe."
"Como disse?" foi a única frase que conseguiu pronunciar. A angústia e desespero brotavam por seus poros. Como suportar tudo isso? Era sozinha no mundo e a pessoa mais próxima era o pai do filho em sua barriga.
Então foi para casa e sentou-se num canto qualquer. Ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
O telefone tocou de madrugada e uma voz rouca de mulher atendeu. Quem poderia ser? Outra amante? Agora o desprezava mais e mais e sentia sua última gota de auto-estima evaporar-se no ar nebuloso em que se encontrava.
Foram quase dez anos de desespero, ameaça, ilusão e sofrimento. Dez anos construídos sobre uma base de sonhos que escorregaram para o nada!
Sentou-se num canto qualquer e ficou ali, parada, quieta, calada, pensando...
"Grávida?! Como? Não, não pode ser! Sinto, mas tenho minha vida para cuidar"
Outra vez humilhada, massacrada. Sua pobreza a sufocava e a riqueza dele a esmagava profundamente, perfurando o resto de sobriedade guardada. Tentou conter o choro e sufocar o que restava de sentimentos.
Foi para casa e encostou-se num canto qualquer, ficando ali, parada, quieta, calada, pensando...
O dinheiro estava acabando. Trabalhava como louca e cuidava da cria que se perdia no meio da garotada do bairro.
O menino ia fazer 9 anos. Por mais que tentasse negar, seu filho carregava a forte semelhança física do pai. Naquele ano queria dar-lhe um presente. Um luxo no meio de tanta dificuldade! Contou as economias e conseguiu comprar um jogo de canetas e lápis coloridos.
Estava entrando na toca em que viviam, quando viu, na TV, o novo personagem da semana: Sr. Maldade e Família! Ele, impecavelmente apresentado, estava com a esposa jovem e impecavelmente arrumada, que segurava nas mãos os dois filhinhos impecavelmente fofinhos e gorduchinhos. A Família Impecável estava em um programa dando entrevistas sobre banalidades de um mundo impecavelmente perfeito.
Em choque, ela olhou-se no espelho. Seus cabelos eram opacos e despontados, a pele descuidada e enrugada. A magreza salientava-se e a aparência era de muito mais idade do que realmente tinha.
Olhou para o filho e viu um menino magro, lombriguento, com trapos velhos e rasgados. Um cachorrinho sarnento com medo do mundo.
Seus olhos se encheram de lágrimas. Então, foi sentar-se, ficando ali, parada, quieta, calada, cansada, pensando...
Ele estava no escritório aquele dia. Ficou lá até tarde da noite. As luzes estavam apagadas e a sala era iluminada apenas por uma lâmpada fraca.
Uma mulher bem mais jovem do que sua jovem esposa, vestia-se sensualmente, enquanto ele, ainda nú, bebia um copo de uisque.
Ela ficou ali, do lado de fora, esperando. Viu quando beijos de despedida rolaram e quando a loura saíu pelos fundos. Ele, só, recostou-se na poltrona de couro olhando para o nada.
Alguém tocou a campanhia. Ele foi atender. Era ela.
"Como está feia e abatida! Sorte que a deixei." - foram os pensamentos dele.
Ela o empurrou e entrou no escritório. Mostrou-lhe a foto do menino e aguardou a reação.
Ele olhou espantado: "Que bichinho feio!"- pensou. Mas tinha seu sorriso, não podia negar. Então, o inesperado aconteceu: ele assumiu para si mesmo que tinha mais um filho.
Ambos em silêncio enquanto ela remexia em sua bolsa. Com um olhar vingativo e com satisfação, atirou todas as balas daquele velho revólver em cima do co-autor do seu sofrimento.
Ele caiu ali, segurando firmemente a foto do filho que, a partir desse dia, foi morar com sua esposa que agora é viúva.
Ela, por sua vez, apenas sentou-se num canto qualquer, ficando lá, parada, quieta, calada, pensando... (enquanto danças de luzes vermelhas e sirenes angelicais tocavam a música da insanidade).
ANO: 2000
PRA QUEM QUER AMAR...
a ser a aposta
posta na mesa?
Então não ame
porque são damas
de encontro a paus
num mundo de espadas
pontiagudas e cortantes,
são ases de copas
angustiantes.
ANO: 2006
E se... (sentir é um risco de fim do mundo)
Eu amo amar
O céu, os animais,
A terra, os humanos,
O mar, eu mesma,
A vida e você
Eu nasci assim:
Cérebro programado
Sentimento alterado
Volume alto
Da escuta dos detalhes...
Mas e se
O céu sumir?
Os bichos morrerem?
A terra secar?
Os humanos perderem pedaços da humanidade?
O mar borbulhar?
Eu desaparecer?
E você me abandonar?
Eu sei, é confuso!
Entender minha dor
É desproporcional
Rejeição é apocalíptica
Apocalipse é uma rejeição...
Menina sozinha,
Roendo as unhas,
Escondida atrás da porta,
Pedindo ao Papai do céu
Para nunca ser encontrada,
Pedindo aos irmãos astronautas
Para abduzi-la
Pedindo proteção
E, sem rodeios,
Caindo no redemoinho,
Engolida pelo caos...
"Segure minhas mãos,
senhor capitão da nave"
E nada aconteceu...
Rejeição apocalíptica, minha cara!
Não dói tanto quanto parece
Mergulhe na absurda intensidade do eco
Consegue sentir?
Dessensibilização...
E se a nave partir?
(Eu aceito)
E se você tiver outra?
(Eu aceito)
E se essa outra não me quiser perto de você?
...
...
...
Menininha, volte pro seu silêncio absurdamente calmante...
A Rejeição é um evento de fim do mundo
Uma gota de crime
Foi assim: deitei no chão pra pensar no nada, quando a chuva começou a gotejar, furando o verão e trazendo um ar fresco, carregado de sonolência, frescor e suavidade…
É crime sentir-se tão pleno assim?
…culpada
Um crime no início da noite
Foi assim: deitei no chão pra estudar e a chuva começou a gotejar, furando o verão e trazendo um ar fresco, carregado de sonolência, frescor e suavidade…
Além do véu...
Estou calada,
não sinto nada
só uma dor que rasga a alma
por que
ninguém nunca acreditou?
por que
ninguém nunca me olhou?
não tive culpa de ser demais
não tive olhos pra ser a mais
não tive voz pra pedir
me segurem
me amparem
me ajudem a seguir
Matei sonhos
matei futuros
sou assassina de possibilidades
nunca quis isso
uma criança sem existir
Estou calada,
não sinto nada
só uma dor que rasga a alma
por que
ninguém nunca acreditou?
por que
ninguém nunca me olhou?
respirar
me cuidar
olhar meus pequenos
e não machucar,
me ferir
sobreviver entre
escombros
assombrando meu eco
oco, seco,
nada real
despersonalizado
dessensibilizado
irreal
imoral
crescendo na dor
do abandono
agir
era a opção
para existir
sem pensar
pensar era muito
e o tempo
era de sobreviver
Estou calada,
não sinto nada
só uma dor que rasga a alma
por que
ninguém nunca acreditou?
por que
ninguém nunca me olhou?
o mundo
ninguém nunca disse
ninguém nunca fez
ninguém me mostrou
ninguém me cuidou
aprendi só
a vida como consegui
fiz meu melhor
e não morri
o que teria sido
virou em “sobrevivi”
fracassos dos sonhos
fracassos das coisas
fracassos de estar entre os bons
sigo sozinha
porque assim
me vejo inteira
protegida
querida
apenas por mim
ninguém nunca sente
ninguém me entende
ninguém me cuida
ninguém me enxerga
existir
Estou calada,
não sinto nada
só uma dor que rasga a alma
por que
ninguém nunca acreditou?
por que
ninguém nunca me olhou?
Carta a todos os borderlines
Ei, você, te conheço e muito bem. Sua vida é um furacão, cheia de enormes altos (verdadeiros Picos do Everest) e grandes baixos (típicas Fossas da Mariana). Seu humor é estranho, você não se enquadra em padrões, provavelmente é muito inteligente, sente-se entediado facilmente e também é muit empático e engraçado. Vive rodeado por aventuras e seus amigos "um poco mais normais" adoram.
Provavelmente você já se feriu em crises de impulsividade. Já usou- e até abusou - de substâncias psicoativas. Sente aversão à sons, cheiros, luzes e coisas que te levam a momentos de irritabilidade dignos de causar orgulho ao Incrível Hulk.
Dorme pouco, não é verdade? Quer parar de pensar em excesso mas não consegue. Vive se jogando em experiências e, inclusive, já pensou, sonhou e almejou ardentemente a morte... O suicídio límpido, cristalino, silencioso já foi percebido como a única forma de frear toda a loucura que é sua vida, não é mesmo?...
Mas deixa te contar uma coisa: você está aqui, lendo essa carta, no presente, porque - pouco importa como você nomeia este motivo- decidiu continuar. Você não morreu, você seguiu com marcas, cicatrizes no corpo e no espírito, com o bom e velho cansaço e com memória da dor.
Você respira e algo em você persiste, insiste, irritantemente, em continuar. Algo pulsa - nem que seja um fiozionho de força- e te mantém. Isso é o real. Isso é você.
Nada do que você fez ou viveu foi drama - eu sei, entendo muito bem, também já estive nesse mesmo lugar. Você apenas quis parar a dor e, contradizendo o que quase todos pensam, sua meta sempre foi a sobrevivência. Isso é força e não fraqueza, isso é vida e não a morte.
Mas, a confusão gerou a exaustão e a exaustão ligou-se ao desamparo que, por fim, encontrou o desespero. Ninguém nunca percebeu porque você sempre continuou seu sorriso, uma piada na ponta da língua e uma energia infindável - todas ferramentas de autoproteção.
Agora olhe ao redor, sente, descanse, respire: você ainda está aqui. A vida insiste em acontecer à sua volta. Você, guerreiro, continua. Toque seu corpo, você é real. Valide suas lágrimas- elas tem um fim.
Nós, TPBs, somos flores nascidas em terreno árido, pós guerra existencial. Por lutarmos em tantas batalhas pesadas, não existe algo que de fato consiga nos derrotar - a não ser nós mesmos... somos nossos próprios fantasmas graças a nossa autoimagem fragilizada.
Vamos continuar no "Só por hoje" - frase emprestada de outra irmandade, primordial para nossa caminhada, e que muitos de nós conhece tão bem. Dê uma trégua ao seu sofrimento: aprenda técnicas de ancoragem, meditação, respiração, faça terapia, se necessário tome medicamento, cuide da alimentação, pratique exercícios, agradeça pequenas coisas e, principalmente, seja gentil, amável e acolhedor consigo mesmo.
No fundo, naquele fundo que ninguém vê, borderlines são apaixonados pela vida - muito mais do que as pessoas "comuns". O problema é que não nos ensinaram como fazer isso sem se perder na nossa intensidade. O aprendizado de uma vida nova é imprescindível para cura. Aprender implica em prática contínua, até que novas habilidades sejam adquiridas para, enfim, mudarmos o jogo.
E, por último, não esqueça de construir e manter uma rede de afetos com pessoas que nos amem e aceitem como nós somos, afinal, a família de verdade quase nunca tem a ver com laços sanguíneo.
Você não está sozinho. Boa vida pra você.
Obs: sou profissional de saúde mental e tento levar um abraço à quem sofre, mas também preciso ser abraçada porque, como TPB, preciso de conexões honestas e diálogos profundos. Falar sobre isso e ser escutada me dá forças pra continuar. Gratidão ⚘️
Comentários (5)
Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.
Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.
Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.
Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.
Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber
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