Lista de Poemas
Lucidez brutal
(não sou monstro e menos ainda um projeto de salvação)
Nasci sem pele,
descascada,
nua de proteção
Meu sorriso infeccionava
todo dia...
ardia aqui,
queimava ali
até ter pus
Sons profundos
cheiros adoeciam
sabores indizíveis
e até desprezíveis
tudo era demais
Criava mundos de sonhos
de Bicho-papão
num modo sobrevivência
à correnteza de confusão
Cresci no furacão,
redemoinho de gente
tudo era forte,
gritando,
acontecendo,
sem um porquê
informações, todas juntas,
conflitando
com o fato de eu ser...
...ser o quê?....
A verdade-curto-circuito
de intensidade,
num grande mar de sensações inundando as vidas que toquei
e, de verdade,
(eu sei) modifiquei
naquele louco frenesi
Sucumbi ao vendaval
tantas vezes!
Mergulhava na vida,
lambuzava as feridas,
criei, voei, cruzei marcas
e - me - marquei
foram inúmeras
as vezes que enlouqueci
e chorei...como chorei
Estou cansada,
cansei de ser eu:
intensa e desperta
uma ilha deserta
uma peça quebrada
estragada
no meio de todo um mundo
que não sabe acolher
Minhas lágrimas pedem trégua
já andei por tantas léguas
que estou sem condição
de lutar por todo o sempre
não quero que me temam
muito menos me salvem,
quero respirar sem dor,
sem essa coisa de ser extrema
quero o vômito das mágoas
e o perdão de um poema
Cacal
2025
Quando você é tão invisível...
"Quando você é tão invisível que comer deixa de ser um ato corriqueiro
Tudo começa assim: a gente quer parar de doer. Parece uma depressão. Paralisamos, gradativamente, as atividades e começamos a engolir absurdos: o lugar para doces, salgados, sucos, chás e água, deixa de existir. A tensão é tanta que o corpo endurece e passamos ter a falsa segurança na mudez da vida, tentando controlar o que ainda resta: nós. A fome é abismal, mas um nó interior bloqueia todas as passagens. Começamos a falhar: a menstruação cessa, o intestino seca, os rins falham, as gengivas sangram e as olheiras roxas denunciam. Estamos tão perturbadas à essa altura, que olhamos no espelho e não nos reconhecemos: eu, uma menina de quase 1,70, carregando meus míseros 40 kg... engana-se quem pensa se tratar de estética - "foda-se o outro. Foda-se o espelho". Esse fantasma tem nome : anorexia. Viver assim é cair num labirinto à procura da paz que nunca vem... (foto já em processo de "engorda") Hoje, quando alguém, aponta o dedo sobre questões de peso, dou gargalhadas e saio andando
Instagram... (por que publicar o que é nosso?)
Uma cena, um cenário
Um lugar só de nós dois,
Uma memória construída
No silêncio de uma noite fria...
Era íntima, era secreta,
Era escondidinha
porque criava laços,
Conexõe entre nossas vidinhas...
E foi assim, sumindo,
Deixando a magia se perder
Na exposição desnecessária
Pra você pode ser pouco,
Mas senti uma invasão...
Não fizemos um roteiro,
Mas um ninho,
Não atuamos no cinema,
Era só um pedaço de carinho
Em que eu brilhava na lembrança,
Entre estrelas e planetas
Mas agora sou invisível,
De novo...
Eu me vi ausente
Na memória que também era minha
Cacal
Rua do Alumbramento
Rua do Alumbramento
Levei minha alma
a caminhar
na rua do alumbramento.
Procurava algo doce,
um tipo de estranhamento.
Como um belo improviso,
a vida trouxe um aviso:
“Não há nada que contente
além, apenas, o encantamento
desse dia tão sagrado,
cores desse sol dourado”
Fui buscar contemplação
no céu azul-roxo-esverdeado
e colhi, com ternura,
pra quem lê esta leitura,
um minuto intensificado,
nessa singela oração:
Que seu dia seja leve,
que você se cure,
se aventure
longe de todas suas dores
e dos seus dissabores...
Seja lá o que for,
vai passar
⚘️ Cacal
MÃOS (Um grito de cura)
Temo tudo!
...assim me foi dito,
foi feito,
foi lido...
às vezes,
e muitas vezes,
fui ferida:
um colo,
um afeto
por um preço indizível,
desprezível
amargo,
solúvel nas minhas lágrimas
Um toque
me confunde,
me alerta,
me desperta
medos indomáveis,
incansáveis
de me assombrar...
Vais me ferir?
Me acariciar?
Me odiar?
Me amar?
Sou só indefesa,
tentando a beleza
onde pode ter dor...
uma crua prudência,
insistência,
pura sobrevivência
As mãos me fizeram assim,
faltando pedaços de vida,
pedaços de rima,
pedaços de mim
Sempre alerta,
inquieta,
na ânsia de respirar
o ar que (me) faltava
nas horas de estranheza
e incerteza...
Não sei se sonho,
se pesadelo
às vezes carinho,
outras desespero
Sou criança assustada
e, tenho consciência,
meio despedaçada...
Se não tens mãos sadias,
macias,
não me toques
NUNCA MAIS!
Pensando bem,
sem dramaticidade
(e o que tenho de melhor:
autenticidade e muita,
muita sinceridade),
mais valem as minhas mãos
suaves e afáveis,
capazes de tocar o mundo,
de um modo todo profundo,
curar- me de restos
e curar outros feridos,
do que ter tido me perdido
num passado que não quero mais
Às mãos eu grito:
quebro minhas algemas,
sigo em frente,
com um motivo
e talvez medo
da humanidade,
mas, (re)descobrindo a dignidade,
resgato minha sanidade;
às mãos eu digo:
tu não és mais um perigo!
És apenas sombra
de uma vida enterrada
que me desperta em pesadelos
cada vez mais escassos
talvez vencidos pelo cansaço,
mas estou disposta a recomeçar,
estou pronta pra te enterrar,
seguir adiante
e me libertar...
Cacal
Quietude- um trecho de celibato e cura
Descanso meu corpo:
não há mais medo,
ameaça,
dor.
Não há toque,
não há sexo,
não há guerra,
nem pavor,
me pertenço sem anseios,
estou segura nesta ilha,
não por força ou fuga,
mas por amor
à toda calmaria.
Minha alma cansada
andou vales,
árduos terrenos,
gritarias e invasões.
Agora quer o silêncio,
aconchego preenchido,
longe do perigo -
não há pecado no toque,
não há engano na fala,
não há desencontros
ou horas exaustas,
vazias, perdidas
num hiato -
Celibato
E minha paz,
minha canção,
tocando a melodia do aconchego...
Meu corpo pediu descanso
e ouvi,
acolhi
com sutil cuidado
e real significado:
meu ventre é templo
de um tempo de cura.
Enquanto o mundo aponta
“sou ausência”,
minha alma sussurra:
“sou presença
dentro de mim.”
Neste estilo de vida
acolhida,
até quando eu quiser,
um dia direi sim
(no momento certo
junto ao corpo certo,
paciente, inocente,
pronto para entrega
à uma nova era
madura, segura
e serena)
Sou minha,
não busco confusão,
apenas a quietude da alma,
o equilíbrio,
e a beleza de saber,
finalmente,
quem sou eu
Cacal
E se nunca passamos de um sonho?
E se fomos só um sonho?
Um erro belo demais pra durar,
um sopro no avesso do tempo,
uma sombra de tudo o que somos?
E se o "nós" foi uma crua coincidência? Um toque breve,
duas dimensões que se repetem?
Você me olha
de um passado estranho
Eu te sinto
em um futuro nunca visto
Somos o que não conseguiu ser,
inatingíveis, indecifráveis,
e, por isto, eternos
O mundo inteiro rui,
as lembranças se embaralharam,
as realidades colapsam
E continuo
te reconhecendo
na dobra do impossível,
no eco do que não tem nome,
no instante antes do despertar.
mesmo sabendo que nunca existimos
2025
Transbordo
Há algo no ar.
Ventos mudam (sinto.tudo
Há cheiro, gestos, atitude.
Há algo mais.
O silêncio compassado
é melodia que mostra alma.
Mas eu,
Mulher,
não sou mais contratempos.
Acordes dissonantes
ficaram no passado.
Sou tudo ou nada.
Num frágil paladar
Infantil
Mergulho no intenso,
sem freios, sem sobras —
num único gesto coerente
Transbordo verdades
sem esconder o rosto,
o corpo,
a alma.
Desnudo segredos.
Quero o real.
Honesto,
Cru
Sem jogos confusos, artificiais.
Quero conexão íntima
e inteira.
Ou mergulha comigo,
ou me deixa voar.
Porque o raso,
o morno,
o indeciso,
o pedaço partido
partiu
no tempo
E tempo... é tempo.
É fato pra ser vivido.
Não é porque sou demais
que você pode ser de menos.
Transborde
2025
Dissociação (Para a alma estilhaçada que flutua)
Flutuo, entre um estímulo e outro, flutuo
Fragmentada em ruínas,
esquecida pelo nada,
com olhos vazios,
atordoados,
cansados,
procurando pelo real...
Duvido.
Duvido tanto
que nem me vejo
Será que existo?
Alguém me lembre:
'você está aqui, sã e salva"
Esqueço de respirar
esqueço de esquecer
e meu cérebro hiperativo
pensa, pensa, pensa
girando, espirais de reticências
...
Entrego os pontos、
desço do palco,
sou palhaço dissociativo
nesse frágil jogo de azar
A luta é constante:
Não sumir ou
Estar não estando
Vendo o longe,
Flutuando
Nas ondas sonoras da vida...
*Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos.
Dissociação (Valsa para alma estilhaçada)
Dissociação
(Valsa para alma estilhaçada)
Flutuo, entre estímulos, flutuo
Fragmentada em ruínas,
esquecida pelo nada,
com olhos vazios, atordoados,cansados,
procurando o real...
Duvido.
Duvido tanto
que nem me vejo
Será que existo?
Alguém me diga:
"Você está segura!"
Esqueço de respirar,
esqueço de esquecer,
e meu cérebro hiperativo
pensa, pensa, pensa
girando em espirais de reticências
...
Entrego os pontos、
desço do palco,
sou palhaço dissociativo
nesse frágil jogo de azar
A luta é constante:
Não sumir ou
Estar não estando?
Apenas o silêncio
dos meus desejos congelados,
flutuando
nas ondas sonoras da vida...
*Dissociação: ferramenta de defesa emocional Experiência aterrorizante desgastante. Muitos afirmam que é a única forma de sobreviver a traumatismos emocionais moderados e severos.
2025
Comentários (5)
Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.
Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.
Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.
Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.
Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber
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