Lista de Poemas

Sem título

Coleções de retratos e palavras
São poços de água incipiente
Na minha existência vaga

Tenho um par de inseguranças
Alguns amantes, que ficaram pelo caminho
Cachos negros (que escondo em tranças)

Vagando entre papéis coloridos
E marcas de carimbo azul
Sem lembrar de mágoas ou sorrisos

Perdida em páginas de rabiscos
Com muita fé e pouca luta
Esperando o momento em que arrisco.
👁️ 44

Pequenos retratos (imaginários) de nós

Lanço meu olhar através da pequena janela ovalada. Ao meu lado acaba de pousar o avião que vai te trazer para casa. Sou atravessada por um pensamento infame, que desmancha meu corpo por inteiro. Sua casa não é a minha. A nossa casa não existe. Eu queria te ter sem metades, num beijo molhado ou num fim de tarde. Lá fora, no céu, um lampejo de saudade. Há algum tempo, resolvi dizer adeus ao pudor e à ciência. Com lágrimas nos olhos, te escrevo um poema. Sem juízo na cabeça. No coração, culpa. Nas mãos, somente a verdade. E eu, que nunca fui de me abrir por completo, sinto a urgência avassaladora de me entregar (de coração aberto). Se eu pudesse te ter (assim como queria), viveria em festa. A semana inteira, inventaria novos rituais (que pudessem ser só nossos). Agradeceria à vida soltando pipa no jardim aos domingos. Jogando confetes na sala de estar às segundas. Dançando forró dentro do quarto às terças. Fazendo carnaval toda quarta-feira. Nas quintas, me derramaria sobre poemas de amor e taças de vinho tinto. E quanto a sexta-feira chegasse, aqueceria meu corpo junto ao teu, celebrando na carne os mistérios da alma. O final de semana seria nosso refúgio. E poderíamos fazer o que bem entendêssemos. De tempos em tempos, abriríamos a nossa casa àqueles que também nos amam. Espalharíamos fotos de viagens pelas paredes. E quando as paredes estivessem cheias, inventaríamos algo inédito para barrar o tédio de nos possuirmos. Talvez pudéssemos escolher entre uma casa maior ou uma vida nova. Poderíamos nos render aos desejos nobres e caretas que envolvem fazer um filho. Aí seríamos nós, meus seios fartos e uma criança curiosa (e gorducha). Iríamos ao teatro e morreríamos de rir das nossas palhaçadas e piadas sem graça. Olharíamos o mundo através de lentes coloridas e tudo seria melhor, maior, mais bonito. As noites de sono seriam bem dormidas e as refeições sempre fartas (mesmo que houvesse poucas coisas postas à mesa). A vida seria enfim, boa. Feliz, simplesmente por ser vivida lado a lado. Plena, porque seria contigo.
👁️ 156

Aparências

Teu timbre de voz é parecido com muitos outros
Teus cabelos grisalhos não te deixam mentir a idade
Tuas pernas miúdas não inspiram austeridade
Ainda assim, deixo-me levar pelos teus olhos mornos

Quem não te olha de perto, talvez não perceba
Que tu carregas um coração pesado, com leveza
E nas tuas mãos, conserta o mundo inteiro, tamanha destreza

Quem não te escuta falando baixinho
Não sabe como é bom entregar-se completamente (devagarzinho)
Ainda mais com um perfume bom (ou um pouco de vinho)

 
Mas não me leve a mal, não quero nada além
Notando esta minha descoberta, paixão por certo alguém
Permaneço em silêncio, sinto-me completa
Só eu e tu nas esquinas, brincando de poeta.
👁️ 175

Domingo (de versos soltos)

Escorre lá fora uma chuva fina
E molhada
No lado de dentro, me vejo sem saídas
Encurralada

Entre a cruz e a espada
A boca cala, a mente grita
No sofá da sala
Sem pretensões, com as pernas para cima

Andando de um lado para o outro
Fingindo que a casa é infinita
Sinto dor de cabeça, mas não tomo remédios
Prefiro lançar meus olhos sobre os prédios

Vejo uma menina fazendo manha
Chora para não comer brócolis
Acho engraçada a reclamação barulhenta
De algo feito especialmente para ela: a birrenta

Uma vez tive um amor
Que não foi feito para ser meu
Esperneava porque queria engoli-lo mesmo assim
Daí a minha diferença para a criança do choro-sem-fim

Já fui também uma mosca
Que pousava nas sopas alheias
Bebia um pouquinho de cada prato
Voava incomodando por aí, nunca satisfeita

Me convenço de que a chuva diminuiu
E que posso comprar meus cigarros (de filtro vermelho)
Fumar faz mal para a saúde
E eu só faço mal para a imagem refletida no espelho.
👁️ 196

Para R

Fui ao banheiro 
Assustei-me com o reflexo
Ainda era eu 
Mas com rosto de homem
As mesmas entranhas
Os mesmos vincos
As rugas que refletiam
As mesmas preocupações
Se bobear, o mesmo cheiro
E as mesmas calças molhadas
👁️ 33

Reticência

Encontraram-se mudos
Os olhos arregalados 
A coragem acontece num milissegundo
Faz esquecer-se do presente ou passado

Aproximaram-se quase sem querer
O ar denso pairava
Respirar sem sucumbir ou temer
Era tarefa arriscada

Sabiam das alegrias frívolas
E dos desastres possíveis
Por isso, tinham urgência tímida
Em devorarem-se, invisíveis

O resto do mundo corria lá fora
Girava reticente, sem demora
A penumbra engolia as casas, os lares
Era testemunha de desejos intermináveis

Cores e sons, meros personagens secundários
Não comunicavam coisa alguma aos sentidos, ordinários
O calor e o toque, autores da consciência inebriada
Olhavam perplexos a chama consumada

No minuto seguinte, o coração calou-se
Batia agora pesado, correndo ao açoite
Ritmo errático, deflagrado pela culpa
Sem drama nem conserto, verdade nua e crua

Acontece que os delizes são passageiros
Mas o desejo é pulsante e insaciável
Descompasso que acompanha os devaneios
De amantes comprometidos com o inalcançável.





👁️ 138

Seguinte

A próxima página está totalmente em branco. Intocada. Inacabada pela sua própria natureza. Reluz o anseio da transformação. Poderia, quem sabe, guardar um segredo. Ou muitos. Ser testemunho de um amor proibido. Ou filha de um adultério. Poderia tornar-se cúmplice de um pecado. Ou traição. Poderia converter-se em carta apaixonada. Ou balanço das contas do mês. Pode ser ainda, algum dia, o desenho colorido de uma criança (que sonha). Pode ser enxaguada por lágrimas (ainda desconhecidas). Pode levar um nome comum no seu canto inferior. A próxima página pode ser abençoada ou amaldiçoada, sem nunca experimentar a liberdade de escolher o que será. É alheia ao mundo inteiro. Unicamente fruto do desejo pulsante de terceiros. Desconhece o que poderia ser. Mas insiste para não permanecer em branco. Esperneia aos olhos do poeta. Suplica frente às mãos úmidas de uma dona de casa. Implora para tornar-se alguma coisa. Qualquer coisa.
👁️ 180

Súplica

Encontre-me em um desses bares
De beira de estrada
Sem aviso prévio ou desculpas salutares
Fuja da família, deixe a amada
Beba meu silêncio e minhas meias-palavras

Misture meu hálito quente ao ar úmido, que paira à sua volta
Sem cortejos ou fantasia
Sem casamento ou revolta
Regue-me com uma porção de versos soltos, sem demagogia
Convide teus fantasmas para o quarto
Faça figa, mas faça valer o pecado

E amanhã, quando nosso segredo onírico
Quiser bater à porta, na solidão ou no meio da tarde
Forje inocência, aperte os olhos e ria do eu-lírico
Somos velhos conhecidos, não precisamos de disfarces ou alarde
Não precisamos de mistério, tampouco da verdade.
👁️ 171

História natural de uma paixão

No início, um entrelaçar sutil de olhares
Dedos que às vezes queriam tocar
Sem saber exatamente como ou porquê
Um abraço singelo
Um sorriso tímido
Um sopro inocente
De amor juvenil
Que foi crescendo
E de criança magricela
Tornou-se mulher
Uma mulher que observava maneirismos
E sorrisos de canto de boca
Olhos que se demoravam sobre o corpo
E que queriam, com volúpia, devorar a alma
Olhos que pousavam sobre o anel de grosso ouro
(no quarto dedo)
E que escolhiam passar por cima
Inebriando a consciência que outrora falava
E fantasiava
Sem perceber, passou a decorar cada passo
Em cada pedaço
Sabia cada compasso do desejo
Desejo com forma de gente
Planejava a data e hora do pecado
E de saber de cor
Cada cabelo grisalho
Passou a ter o andar mais pesado
As mãos mais soltas
Os mesmos gostos
O pensamento acelerado
E veja que engraçado
Tornou-se homem
Objeto do desejo
Já que desejava e não podia realizar
Gozava em se fazer notar
Pela semelhança nos maneirismos
Nas sutilezas da inteligência
E, mesmo na fala, a cadência
Dizia que era inspiração
Pelo outro, admiração
Que nada
É paixão disfarçada
Que toca e traz ao coração
A vontade de fazer-se amada
👁️ 221

Arritmia

Dentro do meu peito
Existe um compasso de tamborim
Que insiste em me assustar
Acelerado
Quando te vê
Sorrindo para mim

Dentro dos teus olhos
Meu compasso
Quer se perder
Em amassos
E no batuque sem fim
Desse desmanchar
De cabelos
Desse enrolar
De lábios
Desse farfalhar
De pelos
Encontro e me perco
Será que um dia me acho?

Tenho
Por acaso
Um sorriso
Largo
Uma mente
Que sonha
Um coração
Pintado
Que bate
Des-com-pas-sado

Tenho por escolha
Teu úmido
Balançar
A nadar
À deriva
No meu mar
Uma volúpia
Que se disfarça
Sem graça
Maior que o mundo inteiro
Feliz
Por não guardar segredo

Deita e dorme
Que mais tarde
Os versos escorrem
Pelas minhas pernas
Bambas
Um balé
Com notas
De samba
Um corpo
Que devora
O sangue
A vida
O fim
O compasso
De quem se ama.
👁️ 192

Comentários (2)

Iniciar sessão para publicar um comentário.
Flaquiote
Flaquiote
2020-06-15

Que bom, gostei galera

bianopes
2020-06-11

Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!