Lista de Poemas
Conjunção do adeus
Eu viajei pelo mundo e
Colei meu rosto em outros rostos e
Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo
Abri as janelas e portas da minha casa, logo
Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para
Gozar com desconhecidos e afins para
Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas
Não encontrei alívio, mas
Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto
Afirmo com certeza que nem o passar dos anos
É capaz de me amenizar o quanto te amo.
Colei meu rosto em outros rostos e
Cantei mil canções em palcos e bares imundos
Eu fui à caça junto às estrelas, logo
Abri as janelas e portas da minha casa, logo
Percorri mil corpos e copos, sobremaneira
Eu me apaixonei uma vez para
Gozar com desconhecidos e afins para
Desejar mil encontros nossos por mês
Eu me atirei da ponte no centro da cidade, mas
Não encontrei alívio, mas
Esperei mil dias pela tua caridade
Eu visitei o Céu e o Inferno, portanto
Afirmo com certeza que nem o passar dos anos
É capaz de me amenizar o quanto te amo.
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Quase quarta-feira de cinzas
Tuas palavras derramam-se pelo chão
Tento calar-te, meus esforços são em vão
São doces e perversas, quase-promessas
Atravessam-me, viajam por dentro de mim
Deslizo nelas mesmo assim
Tuas palavras rasgam-me por inteiro
São filhas de um meio-amor de fevereiro
Desmontam-me, reconstroem-me a cada vacilo
Diante delas, finjo-me de surda (só para morrer de amor)
De nada adianta, poesia não queres compor
Queria o silêncio e beijar-te a boca
Chorar no teu colo, agarrar-te a nuca
Queria a insensatez, brincar de louca
Olhar-te nos olhos e ficar maluca
Queria que não morresse nunca a paixão
Mas tuas palavras são assassinas
Perseguem meu sonho de menina
E riem das minhas angústias, sem razão
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Tempestade n0 2
A chuva que cai lá fora
É exatamente igual à do dia anterior
Quando eu era criança e brincava na escola
A chuva que caía causava temor
A chuva é semelhante a que caiu um mês atrás
Suponho que parecida com a que cairá amanhã
Um dia fui criança e me escondi, sem pensar jamais
Que eram inocentes os raios de Tupã
A chuva sempre caiu molhada
A chuva sempre escorreu pela janela
A chuva sempre escorregou como navalha
Na carne dos poetas de alma amarela
A chuva nunca foi minha amiga
A chuva nunca me fez esquecer a saudade
A chuva nunca tornou colorida
A lembrança desta velha cidade
É exatamente igual à do dia anterior
Quando eu era criança e brincava na escola
A chuva que caía causava temor
A chuva é semelhante a que caiu um mês atrás
Suponho que parecida com a que cairá amanhã
Um dia fui criança e me escondi, sem pensar jamais
Que eram inocentes os raios de Tupã
A chuva sempre caiu molhada
A chuva sempre escorreu pela janela
A chuva sempre escorregou como navalha
Na carne dos poetas de alma amarela
A chuva nunca foi minha amiga
A chuva nunca me fez esquecer a saudade
A chuva nunca tornou colorida
A lembrança desta velha cidade
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O amor é um bicho de muitas pernas
amoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramoramor.
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Anseio
Quero me afogar num corpo de mulher
Beber suas curvas
Aspirar suas linhas
Perder meu fôlego nas suas esquinas
Quero me fundir a um corpo de mulher
Ler sua pele em braille
Desvendar os mistérios da sua respiração
Tentar me apossar de seus cabelos, em vão
Quero me enganar num corpo de mulher
Morrer de amor por uma noite
Ajoelhar-me no chão e pedir misericórdia
Forjar em seus olhos discórdia
Quero me encontrar num corpo de mulher
Entender por que me valho de meios amores
Desvendar a razão das minhas dores
Só para então morrer novamente
E me perder mais ainda em outra mulher
Num beijo ardente
Beber suas curvas
Aspirar suas linhas
Perder meu fôlego nas suas esquinas
Quero me fundir a um corpo de mulher
Ler sua pele em braille
Desvendar os mistérios da sua respiração
Tentar me apossar de seus cabelos, em vão
Quero me enganar num corpo de mulher
Morrer de amor por uma noite
Ajoelhar-me no chão e pedir misericórdia
Forjar em seus olhos discórdia
Quero me encontrar num corpo de mulher
Entender por que me valho de meios amores
Desvendar a razão das minhas dores
Só para então morrer novamente
E me perder mais ainda em outra mulher
Num beijo ardente
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Linhas de um diário qualquer
Hoje eu recebi uma mensagem tua. Toda vez que seu nome aparece como remetente, meu coração oscila. Toda vez que te quero como destinatário, minha mente hesita. Não vou mentir para as linhas do meu diário, penso sempre em ser alvo da tua atenção. Penso sobre o timbre da tua voz e nos teus maneirismos. Acho engraçado o seu linguajar cheio de vícios. Repito todos sem perceber e acho graça de mim mesma quando impeço-me de corrigi-los. Não há um só cenário em que uma conversa nossa não me cause arritmia. Por isso, preciso dizer-te que meu coração já é meio calejado. Meu cardiologista não é seu maior fã. Explicou-me que tomar desse meio-amor inventado é altamente desaconselhável. Minha cabeça já convive com um punhado de fracassos. Minha terapeuta observa com cuidado. Sei que, no geral, sou muito chata e não faço questão de esconder. Mas sem frase pronta, lugar comum ou clichê: quando estou perto de você, esforço-me para não ser desagradável. Fato é que eu te tolero mais do que qualquer um. Mais do que a mim mesma. Talvez chegue o dia em que vou transformar tudo isso em poema. Até lá, finjo que te quero tanto como quero qualquer um, sem declaração ou dilema.
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Anonimato
No mundo, há milhares de poetas mudos
Escrevem versos em cadernos sujos
Que morrem com os autores, ruídos surdos
Sem conhecer os prazeres e as dores
De revelar seus absurdos
Esses feiticeiros do cotidiano
Que seguem na vida pública, silenciosos
Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos
E terminam em quartos revelando, escondidos
A verdade entre gemidos
Mas quando chega a segunda-feira
O despertador toca da mesma maneira
E são obrigados a levantar para o trabalho
São comerciantes, cozinheiros e advogados
Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado
No mundo, há milhares de poetas mudos
Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade
Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade
Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo
Sem rosto nem poder
Ainda esperando meu vir-a-ser
Escrevem versos em cadernos sujos
Que morrem com os autores, ruídos surdos
Sem conhecer os prazeres e as dores
De revelar seus absurdos
Esses feiticeiros do cotidiano
Que seguem na vida pública, silenciosos
Às vezes esbarram-se pelos bares, ociosos
E terminam em quartos revelando, escondidos
A verdade entre gemidos
Mas quando chega a segunda-feira
O despertador toca da mesma maneira
E são obrigados a levantar para o trabalho
São comerciantes, cozinheiros e advogados
Que fingem se preocupar com a inflação e com o mercado
No mundo, há milhares de poetas mudos
Ler o que têm a dizer, é minha maior vontade
Tirar seus poemas da gaveta, descobrir sua identidade
Assim o faria se não fosse eu mesma um ruído surdo
Sem rosto nem poder
Ainda esperando meu vir-a-ser
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Pensamento circular
De tempos em tempos eu volto aqui
E que gostoso voltar
Às vezes eu acho que minha vida
É andar em voltas
É de tempos em tempos voltar
E voltar a gostar de alguma coisa
Que eu já não gostava
E voltar a não gostar de mim
Apesar de eu já ter aprendido a gostar
A minha vida é dar voltas
Os seios de uma mulher
São duas grandes voltas
Os olhos de um homem velho
São duas grandes voltas
O miado de um gato
É uma grande volta
Assim como é também
O teu desprezo pelo meu amor
Esse sim, uma grandessíssima volta
De tempos em tempos eu volto a pensar
E que estranho pensar
Às vezes eu acho que minha vida
É pensar mais um pouco
É de tempos em tempos parir um pensamento
E pensar de novo algo esquecido
Que eu já não lembrava
E pensar que talvez eu não seja tão boa assim
Apesar de eu já ter provado ser
A minha vida é pensar
O orgasmo
É um pensamento que eu não tive
O sofrimento
É um pensamento que eu não consegui impedir
A morte
É um pensamento que eu ainda não conheço
E o meu problema
É que de tempos em tempos
Eu finjo que sei
Mas ainda não descobri
E que gostoso voltar
Às vezes eu acho que minha vida
É andar em voltas
É de tempos em tempos voltar
E voltar a gostar de alguma coisa
Que eu já não gostava
E voltar a não gostar de mim
Apesar de eu já ter aprendido a gostar
A minha vida é dar voltas
Os seios de uma mulher
São duas grandes voltas
Os olhos de um homem velho
São duas grandes voltas
O miado de um gato
É uma grande volta
Assim como é também
O teu desprezo pelo meu amor
Esse sim, uma grandessíssima volta
De tempos em tempos eu volto a pensar
E que estranho pensar
Às vezes eu acho que minha vida
É pensar mais um pouco
É de tempos em tempos parir um pensamento
E pensar de novo algo esquecido
Que eu já não lembrava
E pensar que talvez eu não seja tão boa assim
Apesar de eu já ter provado ser
A minha vida é pensar
O orgasmo
É um pensamento que eu não tive
O sofrimento
É um pensamento que eu não consegui impedir
A morte
É um pensamento que eu ainda não conheço
E o meu problema
É que de tempos em tempos
Eu finjo que sei
Mas ainda não descobri
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Reflexões de uma jovem poetisa
O primeiro poema é
Uma expressão ingênua
De uma cabeça
Que pensa
E acha que
Pensa alguma coisa importante
Ao ponto de ser escrita
O segundo poema é
Uma expressão fabricada
De um coração
Que tem medo
De não sentir algo
Tão genuíno assim
O segundo poema é
Por regra geral
Ou acaso
Ou destino
Um poema pudico
Contido
Comprimido pela noção
De que o primeiro poema
Talvez não seja
Tão bom assim
E o primeiro poema
Segue inabalável
Sabendo que
Pode ser bom
Ou ruim
Mas tranquilo porque
Não existirá
Outro como ele
Uma expressão ingênua
De uma cabeça
Que pensa
E acha que
Pensa alguma coisa importante
Ao ponto de ser escrita
O segundo poema é
Uma expressão fabricada
De um coração
Que tem medo
De não sentir algo
Tão genuíno assim
O segundo poema é
Por regra geral
Ou acaso
Ou destino
Um poema pudico
Contido
Comprimido pela noção
De que o primeiro poema
Talvez não seja
Tão bom assim
E o primeiro poema
Segue inabalável
Sabendo que
Pode ser bom
Ou ruim
Mas tranquilo porque
Não existirá
Outro como ele
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Inquietude
Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem ser pretensiosa ao ponto de
Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa
Ou como qualquer outro poeta
Que se preze
Não quero passar a minha vida
Escrevendo neste caderno empoeirado
Ou em tantos outros cardernos empoeirados
Que moram nas minhas estantes
Espalhadas pela casa
Não quero chegar aos 30 anos
Lançar-me ao mar violento
Extravasando toda impulsividade que reservei
[por 30 anos
Para ser resgatada e precisar fingir
Que não queria morrer na praia
Não quero viver de frames da vida alheia
Nem ser enfadonha ao ponto de
Falar que não é tão importante assim a vida
[dos outros
Que se atirem de pontes e me comovam para
Que eu possa sentir algo profundo
Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath
Mas meu Desassossego é tão evidente
(Que para não imitar alguém)
Chamarei esta minha Redoma de Vidro de
Inquietude
Nem ser pretensiosa ao ponto de
Acreditar que posso escrever como Fernando Pessoa
Ou como qualquer outro poeta
Que se preze
Não quero passar a minha vida
Escrevendo neste caderno empoeirado
Ou em tantos outros cardernos empoeirados
Que moram nas minhas estantes
Espalhadas pela casa
Não quero chegar aos 30 anos
Lançar-me ao mar violento
Extravasando toda impulsividade que reservei
[por 30 anos
Para ser resgatada e precisar fingir
Que não queria morrer na praia
Não quero viver de frames da vida alheia
Nem ser enfadonha ao ponto de
Falar que não é tão importante assim a vida
[dos outros
Que se atirem de pontes e me comovam para
Que eu possa sentir algo profundo
Não quero imitar Fernando Pessoa
Nem Goethe, Nietzsche ou Sylvia Plath
Mas meu Desassossego é tão evidente
(Que para não imitar alguém)
Chamarei esta minha Redoma de Vidro de
Inquietude
👁️ 471
Comentários (2)
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Flaquiote
2020-06-15
Que bom, gostei galera
bianopes
2020-06-11
Obrigada, João. Gosto muito dos teus versos!
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