Escritas

Lista de Poemas

AINDA NA CASA A LAREIRA ACESA


As águas perdidas no fim do Verão
por esses valados aonde irão ter
vindas das montanhas que ninguém ainda viu
Por sombras húmidas esvoaçam verdes
pássaros fugindo da noite onde estão
nas matas as silvas picam-nos formigas
horizonte de chuva negra chuva azeda.
São terras lavradas troncos de oliveiras
ervas já molhadas e pinheiros em fúria
corvos de outras eras penhascos de cinza
pássaros azúis já só dão tristeza
Ainda na casa a lareira acesa
que frio faz na terra o sol já morreu
tragam o pão coloquem a jarra
a sopa e chamem para a mesa.

antonio tropa
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CONVIVO TODOS OS DIAS COM ANESTESIADOS

Covivo todos os dias com anestesiados
ao contrário do que diz o espanhol
convivo todos os dias com eles
assim sérios ou muito desportivos
a falarem de serviço e futebol.
Convivo com assinados todos os dias
vestidos de funeral engomadinhos
incapazes de "chorar perante uma orquídia"
ou simplesmente olharem para o sol.
Convivo todos os dias com eles
casadinhos com a instituição
com os sentidos há muito apaziguados
porque assim "são mais úteis á nação".
É pena que alguns estejam mortos
e nem sequer recordem ser meninos
pois deixando de lado os sentimentos
poderão ser também eles assassinos.

antónio tropa
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OUTRO RETRATO URBANO


Deve haver uma porta de saída
para tanta indiferença
nesta multidão anónima e apressada.

Recordar o cheiro da terra
o vento o sol das manhãs floridas
nestas ruínas
não é o mesmo que senti-lo.

Depois este tédio este pesar
pela vossa nossa antiga alegria.

É como ter perdido todas
as pessoas Nossos pais nossos amigos
pelas ruas escuras da vida.

antonio tropa
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O JUCA NA DISCOTECA


Um pouco irreal
para me sentir feliz
sou agora no ar
o jovem prometido
sobre a moto da noite e
abraçando tudo.
Um pouco mais acima
todo o oiro do corpo
o vento nos cabelos
a música por dentro
com muita muita gente
a aplaudir meus gestos
a beijar-me os olhos e
a roçar meu ventre
longa longa corrida
com "neve" quente e sempre
o terror inquietante
de só ter esta vida.

antonio tropa
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ESTE SILÊNCIO SEM NINGUÉM

Um corpo sem palavras ou
o desespero de mais
uma noite

depois
este pulso sangrando
este sabor do alcool Este silêncio
sem ninguém

por aqui a alegria forçada
de quem espera o quê Quem nos espera
nestas ruas escuras da vida.

antonio tropa
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HÁ PEQUENAS COISAS QUE NOS DÃO CORAGEM

"Se as cotovias são filhas de Deus
e as andorinhas a sua mensagem
há pequenas coisas até as mais negras
que nos dão coragem".
§
Depois da horta do monte e das figueiras
a sombra lenta e escura dos rochedos
pelo ar alguns pássaros furtivos
fogem em silêncio dos seus medos
para a noite assombrada dos pinheiros
para troncos e buracos para o azul
mais denso e profundo dos silvados.
Pelo caminho ainda arde a tarde
no chão no corpo no olhar
na dormência de mansos animais
no brilho apagado ou antes verde
acinzentado de densos matagais.
Depois paredes velhas azinheiras
abelhas moscas folhas palha cacos
quase á beira da noite chedas escuras
esvoaçam descuidadas pelo ar
no calor horizontal dos cardos secos.

antonio tropa
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SOS-Saudade Ou Stress


Estava ela sentada
a passar a mão na cara
enquanto des(esperava)
que a tarde breve chegasse
para alcançar a cancela
que fica do outro lado
pois só aí descansava.

Assim ali estava ela
a escrever nuns papéis
mas sempre à procura dela
enquanto num outro sol
com olhos de passarinho
estava um lindo menino
o seu filho assim como era
a brincar na relva fresca
enquanto os comboios passavam
sem a mamã mas contente
por estar no meio da gente
que faz da vida uma festa.

E ela a pensar naquilo
enquanto escrevia a carta
para a firma do raios partam
a vida que a gente leva.

antonio tropa
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PERFEITOS QUASE E DESCONTENTES


Ali sentados
assim como dois compadres
a ver os outros indiferentemente
divertidos
a falar com os olhos com a boca
com as mãos e tudo
durante uma tarde inteira no meio da gente
no café dos pobres
a beber uns cafezinhos parvos
depois de laranjadas e bagaços
e assuntos desempregados
até às tantas
porque não há aulas às duas e meia
nem física ou matemática pra chatear.
Ali assim
fartos de esperar não se sabe o quê
com a felicidade na ponta dos olhos em riste
só às vezes avistada só às vezes esboçada
Como um desenho inacabado e triste.

antonio tropa
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POEMAS PARA LINA


I
Se a gente quando morre vai para o céu
a Lina com certeza é dos que vai
na esperança com que toda a noite sai
nestes tempos perigosos e de sida
à procura dum amor para toda a vida.

II
Na casa dela o que falta é um abraço
Quem não esquece chegará à porta
já se ouve a chuva no telhado.

À beira do abismo e tanta gente.
Onde irá tanta luz tanto esquecimento.

III
Não será só a sombra dos teus olhos
que me faz ter mais pena de ti
è olhar para ti como nos espelhos.

Tanta noite perdida sem amor
tanta vida e tanto para ser.

mas o difícil e cruel é não saber.

Não saber e nem sequer sentir.

O castigo de quem não quer morrer
ou pensar na morte e no prazer.


antonio tropa
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CAMPO IMENSO E VERDE


Campo imenso e verde para a água do sol
espaço limpo e alto para ser mais azul
tão irmão do lume que a infância aqueceu
porque nâo é mais?!

Pelo teu silêncio e os olhos magoados
as mãos quase contentes tanto se temeu
contigo irei,

para casa agora que já é sol posto
por ervas e pedras toda a luz do teu rosto.


antonio tropa
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