Escritas

Lista de Poemas

SOBRE A GUERRA

Se vissem como sou velho
e como a dor já me cansa
ao olhar essa criança
com o corpo rebentado
na televisão desligada.
Se vissem como a luz escura
entristece toda a casa
luz de míssil desalmada
espalhando pelo ar
o veneno e a loucura
de quem nunca soube amar.
Se antes brilhassem no céu
estrelas de muitas cores
toda a alegria da terra
e quem a soube encontrar
em vez desse vomitado
de bombas em Telaviv
em Cabul ou em Bagdad.
Se os gritos das sirenes
fossem os do carrocel
numa festa suburbana
às vezes aqui ao lado
pensaria que sou novo
e em mais um fim de semana.

antonio tropa
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O CORPO DO AMOR


Regresso às primeiras claridades
ao vento que nasce nas colinas
e traz pelo silêncio das tardes
o cheiro de pinhais e tangerinas

O corpo do amor pelos caminhos
encontra-se nas aldeias nas herdades
súbitamente aparece nos subúrbios
e perde-se no meio das cidades.
Assim forte bom e insaciavel
do último acto vivo ainda quente
poisa agora os olhos na distância
na neve que se avista do cimento
Ali fica depois já sem cansaços
mais por hábito que solidão sofrida
a receber do ar o sol nos braços
que é tal como ele a própria vida.

antónio tropa
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AINDA SOBRE A GUERRA

Do silêncio nasceu um granada
que rebentou com os vidros das janelas

Beirute Luanda
Santiago Lisboa

Vejo-te agora na poeira da estrada
triturado pelo pavor das metralhadoras

Beirute Luanda
Santiago Lisboa

Um grito já não é um grito
Nem uma criança é alguém que implora


Beeirute Luanda
Santiago Lisboa


Uma mulher ou um menino chora
o silêncio é total e atordoa

Beirute Luanda
Santiago Lisboa.

antonio tropa
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ALCAINS EM AGOSTO


O canto da fábrica e da rapariga
O suor o ladrar do cão
O ar espelho de granito azul
O vento e as giestas.
A mulher da horta pela rua
O som do sino e da motorizada.
Passam de bicicleta
Os pedreiros da escola.
Os pardais.
Enquanto o velho adormece
O rapaz muda um pneu.
Muito pela sombra
O riso breve
A rapaziada
Os estudantes
Os que estão em França
Os que ainda não fazem nada.
A rua
A cerveja
O café
O futebol.
Por entre as ervas secas e as pedras
As ovelhas pastam mansamente
Alguém assobia lá ao longe
Está contente
Sorrio
E olho para o sol.

antónio tropa
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RETRATO URBANO 3


Ali ficaste de olhos acesos
enquanto a noite acontecia
meio adormecida e quase tua.

Num cabaret muito próximo
ou boîte ou lá o que era
uns músicos masoquistas
cantavam pelo ar de chuva miudinha
uma dessas canções parvas
de breves paixões nocturnas.

Um qualquer passou por baixo
do silêncio a vomitar alegria.

Entretanto no quarto
que a tua imaginação tornou mais suportável
o emaranhado azul do sonho os olhos os cabelos.

Pela manhã
lavaste-o na pele
embora quisesses ficar
com o seu amor
para sempre.

antónio tropa
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RETRATO URBANO 2




Quem os vê afluindo ao coração da cidade
saberá com quem dormem ou brincam saciados
quando aflora um sorriso
nos seus olhos brancos.
quem os viu estremecendo pouco tempo antes
não dirá que o medo
foge dos seus corpos
só nesses momentos.

antonio tropa.
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ERÓTICA 4

Assim era o começo
eram as mãos
suavemente abertas sobre o corpo.
Era isto apenas que me lembro
e um tremor a nascer no ventre aflito.

Sou eu somos nós
estou aqui
essa urgência de amor
quase era um grito.

"Mil crianças impelem-me para ti
para ti para ti"
até respirar o teu ar
próximo já do infinito.

antonio tropa
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PICASSO


PICASSO.
Ele disse-nos tudo
O que um homem pode dizer
A outro homem.

antónio tropa
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RECADO PARA UM AMIGO ALCOOLICO


Trocas o amor pelo alcool
E eu não sei o que fazer
Para te animar um pouco.
Da vida tens quase nada
De alegria pra sentir.
Não te vou chamar de louco
Pode um dia acontecer
Perderes o tino de vez
Com tanto desassossego.
Dos outros não queres saber
Quando estás naquele estado
Muito menos criticado
Por ti próprio desta vez
Sim porque tu és o algoz
Dos teus tormentos diários
Tu para ti és feroz
Mesmo sem estares com os copos.

antonio tropa
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EU QUERIA DIZER TODA A VERDADE

Eu queria dizer toda a verdade
mas só palavras secas me nasciam
nas mãos que em teu corpo pressentiam
a montanha a impedir a claridade.
Mas já não sei bem se procurava
no teu corpo ao meu assim unido
a raiz da luz ou o porque
de tanto sol escondido.
Por isso insisto na certeza
que me traz a voz do sentimento
ou um pássaro só a morrer dentro
das grades do silêncio e da tristeza.

antónio tropa
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