Escritas

Lista de Poemas

QUE ALEGRIA NÃO QUISESTE TER

As mãos assim esquecidas
a boca amordaçada no desejo.

Ave que não levantou voo
animal que nasceu para morrer.

Esqueceste-te de mim ou de ti?

Uma força explode o teu coração
por medo Que alegria não quiseste ter?

Porque não me dás a mão? Vem

Aqui podia ser o sol
o rio além
a neve que beija o azul.


antonio tropa
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DESEJO QUE ARDE

São sombras de gente
ou gado caminhando
na poalha fria
e cinzenta da tarde.

Algo se levanta
ave ou desejo que arde
o corpo do amor
que o sonho traz pelo ar.

Ao passar por aqui
voltarei a cantar
Luz de oiro matinal
calma brisa do mar.

antonio tropa
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EM BREVE CAIRÁ A NOITE

(Mais um trabalho de um poeta espanhol que admiro:JOSÉ MATEOS)

O tempo leva afectos e amizades
e um vento cruel corrompe os nossos sonhos
Até que um dia, por fim, nos damos conta
de que estamos sozinhos.
Nada, nem os livros
que principiam a falar quando os abrimos,
nem os versos que fomos despertando
para adiar e fugir do nosso rosto
enchem um vazio,formam uma pátria.

Em redor de nós é tudo simples,
ou assim parece: o pássaro na antena
a nuvem anónima no céu luminoso...
Para nós, porém, crescem as sombras,
ninguém para nós acende a luz.

Sem esperança, sem fé outra tarde morre,
E é esse o disco riscado da vida,
o frouxo amor, a idade do desencanto.

José Mateos
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COMO EU TE COMPREENDO

Ai Manuela como eu te compreendo
minha vizinha da rua aqui ao lado
Só me lembro de chamar-te assim
nome que invento ( não é só para rimar)
quando passas por mim com os cães à trela.
Com os olhos mortiços e a moleza
numa tarde doirada de domingo a qualquer hora
dizes olá com a mesma indiferença
com que te imagino a ti aqui agora.
Calam-se os pardais nas árvores de repente
ladram outros cães nas varandas fechados
riem-se os miúdos que jogam à bola.
Será por sermos os dois tão parecidos
que me angustia o facto só de ver-te
passear os cães como quem morre
cada dia que passa sem amor
que deixou de existir há muito
com o gordo arrogante que engataste
ou te engatou a ti há algum tempo
que se serve de ti como dum traste
que não tem lá grande utilidade
a não der servir-lhe de alimento
ao seu egoismo de desprezível macho
dependente da boazona que o faz
sentir-se ainda mais importante
aos olhos dos outros como ele
que parecem desprezar o que já têm
e sentem às vezes qualquer coisa
de repente.
Ai Manuela!

antonio tropa







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SIMPLICIDADE E BELEZA


Recordo agora
neste ar de chuva escura
os pinheiros altos
a respiração sossegada.

Na casa do amigo
a infância era um cordeiro
que brincava para nós
no alpendre.

Os montes e as searas
eram a paisagem
fértil e madura.

Na casa de cal
laranja e linho
de mel
à janela o sol poisava
e abria satisfeito
as asas.

antonio tropa
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CINEMA ERÓTICO

1. O desejo nasce
onde o sexo começa.
Estende os seus ramos
de sangue á cabeça.

2. Uma perna se entende
quanto mais perto esteja.

3. A mão também deseja.

4. No cinema as palmeiras
e o rio estão mais perto.

5. Toda a luz do corpo
para sair do deserto.


antonio tropa
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INVERNO NA ALDEIA


Este Inverno de hoje traz-me lembranças doutros Invernos
numa aldeia não sei bem se era uma aldeia
era um conjunto de pessoas e casas paradas ao longo duma rua
por onde corria a água da chuva
dos beirais que nos obrigavam a ficar
ás portas.
Nas abertas dávamos uma corrida até á taberna
onde os homens bebiam vinho e comiam amendoins
entre bocejos húmidos.
Realmente era uma chatice se chovia
nas matanças do porco as carquejas não ardiam
depois a gente com os pés enlameados a entrar e a sair de casa
As mães não gostavam mas ficavam contentes:
Sempre para trás e para a frente sentai-vos ao lume quietinhos
ou então assai castanhas que estragais as brasas
Ide mas é apanhar azeitona quando deixar de chover
Não deixai-vos estar aqui
faz muito frio.

antonio tropa




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A NAVE

Se de repente isto se transformasse
numa nave espacial e abalasse
para outros espaços mais além

decerto ía haver menos enganos
aqui neste combóio de suburbanos.

antónio tropa
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A NOITE NAS CIDADES


Completamente rendido ao que escrevem alguns poetas espanhóis contemporâneos, não posso deixar de registar aqui um poema de Vicente Gallego. É uma pérola !!! Para ler devagar .Simples intensa e verdadeira. Assim deveria ser toda a poesia!

A NOITE NAS CIDADES

(Looking for the heart of saturday night)
Tom Waits

Ao longo do tempo
e em diversas cidades, observei essa gente
que transita na noite: bebedores anónimos,
rapariguitas de um dia, quarentões
que regressam vencidos do amor, todos eles
à procura sem mapa de um tesouro.

Para aliviar outra sede bebem sem vontade,
e nos seus olhos vi essas perguntas
que às vezes o amor soube acalmar,
porém morto o amor, de regresso à noite,
nos seus olhos continuavam as perguntas,
essas mesmas perguntas que fizeram
os poetas românticos ao contemplar a lua,
mas também os gregos e os árabes
e tantos outros cuja história
desconhece essa gente que se faz
essas mesmas perguntas, essas tristes perguntas
que me assaltam a mim diante deste copo:
na moeda falsa da noite,
procurei o seu brilho ou a sua sombra?
Que resta da ventura que num sábado qualquer
julguei sentir, ou existe
apenas fingimento na alegria?
Que cidades, que noites, que luzes ou que sombras,
que palavras, que corpos,
ou que estranho cansaço acalmarão
esta vontade de viver que a vida não sacia?

Para exprimir o que nas noites sinto,
o que em tantas cidades e através dos anos
senti ao regressar aos sábados a casa,
derrotado e feliz, solitário
deveria talvez recorrer à imagem
desses copos vazios que a noite abandona
e nos quais brilha o sol
por um instante ao despontar o dia,
ou ter sido um bom músico talvez,
escutem Tom Waits e deixem de me ler:
agora
apenas a um blues se parece a minha alma.

Vicente Gallego


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AINDA SEREI AQUELE SER DE LUZ


(Homenagem a todas as crianças
de todas as idades)
&

A noite passada fez muito frio.
O passarinho caíu do ninho
morreu gelado.
De manhã
fiz uma cova debaixo da laranjeira do quintal
embrulhei-o bem em algodão
depois deitei a terra em cima.
Pensei na história da flauta milagrosa
em que nascia uma flor ou um bambu numa sepultura
depois já não sei bem
Tudo isto são histórias de crianças
e eu já não sou nenhuma criança
mas não interessa
nem interessa
não interessa.

antonio tropa
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