Escritas

Lista de Poemas

A PERGUNTA

Não posso mais uma vez deixar de publicar aqui outro poema do poeta espanhol que admiro especialmente:VICENTE GALLEGO!

Na noite avançada e repetida
enquanto regresso bebido e solitário
da festa do mundo, com os olhos muito tristes
quando o acaso destina um corpo belo
para adornar a minha vida,essa mesma pergunta
me inquieta e me seduz como um velho veneno.
E a meio de uma farra quando um homem
reflecte um instante nos lavabos
de qualquer antro infame a que obrigam
os tributos nocturnos e umas pernas de deusa.
Mas também em casa nas noites sem pândega
nas noites que observo desta janela,
partilhando a sombra
com um corpo íntimo e repetido,
desta janela, neste mesmo quarto
onde agora estou só e me pergunto
durante quanto tempo cumprirei a pena
de procurar nos corpos e na noite
tudo isso que sei
que não escondem nem a noite nem os corpos.

Vicente Gallego

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POR ESTAS PEDRAS FICAREMOS AO PASSAR

Un motor a cantar
no silêncio das colinas.

Alguém se lembrou de olhar
esta paisagem vazia.

No monte de S Francisco
um rapazito assobiou ao meio dia.

Por estas pedras ficaremos ao passar.

Na aldeia ao sol
ele foi procurar
embora sem saber bem como é
não entrou nas casas
foi pelas ruas
sentou-se á porta do café.

O meu amor deve por lá andar disse
é nestas tardes que as pessoas se costumam matar.


antónio tropa
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GRITO EM SILÊNCIO

Não esqueci os teus olhos
nem o calor do teu corpo
Há pouco ainda te vi
na tristeza do sol posto
quando ao longe imaginei
onde costumavas estar.
Assim ali fiquei eu
a olhar o infinito e
a pensar que talvez
pudesses ouvir meu grito
pelo silêncio do ar.

antonio tropa
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OUTRO RETRATO URBANO


às tantas da madrugada de Inverno
qualquer dor é mais difícil suportar
dobrado sobre a mesa a passar a camisa
e os vizinhos de cima que se fartam de ralhar.

Não é fácil deixar esta cidade
quando se vive assim destas coisinhas:
tv, vídeo, internet e a claridade
da praia quando há sol.
Já não vejo o amor há algum tempo
e a distância só deixa mais saudade
do tempo em que se vivia sem o medo
da sida a caír como chuvinha
e ficamos na cama sem prazer
em mais uma manhã triste e sozinha.

antonio tropa

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AO MENOS A FINGIR


Ao menos a fingir
seja eu o que procuras
e tu a minha fantasia.

O amor é muito mais intenso
que o desejo dum corpo com tesão.

Não te consigo amar porque ignoraste
sempre
o que de mais profundo e belo em mim havia.

A solidão partilhada há muito existe.

antonio tropa
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RECORDAÇÕES DA INFÂNCIA


Na palma da mão nasceu um passarinho
uma cotovia que tirei do ninho
para ver como era
(Eu era um menino).

Lavravam bois além na tarde de vidro
e um assobio meio adormecido
pelo calor do sol
Eu e mais ninguém.

Num palheiro ao lado, no monte perdido
poalha de vida ,milho no telheiro
palha de centeio um pouco abafada
pelo cheiro das ovelhas, relhas, telhas, sacos
cancelas, buracos que dão para o caminho
Sombra de azinheiras
pedras velhas, cacos.

Depois lá em baixo a horta da tia
que ficava mesmo ao lado da fonte
onde as raparigas iam com os asados
menos pela água que pelos namorados.

Num dia de boda fomos á capela
era dia da festa ,perto do castelo
Por ali abaixo fui comer um cacho
sob as laranjeiras da mulher mais bela e
ver os comboios que vão prá cidade.

Com tudo isto uma grande canseira
por ali acima As rolas na eira
na hora da sesta e os corpos parados.
Um pouco depois outro fogo na serra
a tarde doía e nós por ali
num grande alvoroço de enxadas machados
Mais este desgosto.

Já é noite agora no Vale do Meio Dia
o que era alegria caiu para um poço e
aquela alminha ninguém sabe dela
vou rezar por ela para ver se a encontro.

antonio tropa

.


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AO VER TUA BELEZA

A luz que nasce dentro
ao ver tua beleza
na música que danças
nesta noite incerta
dentro da caverna
que chamam discoteca
é sempre a luz perdida
que ainda antevejo
num sorriso doce
no gosto do beijo
que sem ter já tive
neste pensamento
ao rever-me agora
jovem desejante
do teu corpo quente
roçando o meu corpo
só por um momento.

antonio tropa

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LISBOA-MAIS UM RETRATO URBANO


Não sei bem se eram gladíolos brancos
num ramo de fetos e cipreste
que a mulher maluca trazia ao peito
para ver de perto o sr. presidente.
Com um vestido de viúva pintada
e dentes de gente fina decadente
ralhava e batia nos miúdos à volta
que imitavam reportagens e lhe tiravam o retrato.
Depois veio um polícia há muito por ali
mas não foi por isso que as coisas mudaram
as águas do rio de repente escureceram
e o sol tornou-se mesmo uma coisinha de nada.
Então ela mostrou um livro da missa
levantou-o bem alto e cuspiu para as pessoas
uns que tinham razão outros que não devia
ter batido no miúdo um tabefe tão vermelho.
Que ela "coitadinha não tinha nada culpa"
ou então que "era puta pois estava só a mostrar as pernas".
Uns riam outros olhavam outros não diziam nada
outros falavam falavam falavam
só falavam.

antonio tropa
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VOU LEVAR-TE DAQUI UM RAMO DE FLORES


A realidade
uma casa branca e cinzenta
a janela semiaberta e a luz fria
através do ar ouvindo Bach
no rádio louco inventando
Poesia.
Na gaiola verde e encarnado
mm pássaro pia Quase noite
mas é a manhã dum dia festivo
Vivaldi Eu já não percebo nada.
Talvez se não fosse o nevoeiro
fosse ter com Jorge pelo campo
ou vestisse a camisa branca e abalasse para a aldeia
vestido de noivado
Tarde demais
para promessas de cristal
apenas a crescer apenas a nascer
na ternura para Lina sei-o
uma vez beijámo-nos deve ser por isso
ou então a tristeza que não sei compreender
A protegê-la é isso a protegê-la.
Era um dia lavado depois da chuva
atravessando a cidade de mãos dadas
como um par de namorados pelo parque
mais a Antónia e o Manú e ríamos ríamos
fugindo desses ambientes assim fugindo desse ambientes
compreendes Lina aí no teu castelo
como vão os teus aprendizes diferentes
e alegria disfarçada Lina
vou levar-te daqui um ramo de flores.


antonio tropa
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SOS-Saudade Ou Stress


Estava ela sentada
a passar a mão na cara
enquanto des(esperava)
que a tarde breve chegasse
para alcançar a cancela
que fica do outro lado
pois só aí descansava.

Assim ali estava ela
a escrever nuns papéis
mas sempre à procura dela
enquanto num outro sol
com olhos de passarinho
estava um lindo menino
o seu filho assim como era
a brincar na relva fresca
enquanto os comboios passavam
sem a mamã mas contente
por estar no meio da gente
que faz da vida uma festa.

E ela a pensar naquilo
enquanto escrevia a carta
para a firma do raios partam
a vida que a gente leva.

antonio tropa
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