Escritas

Biografia

GERÓNIMO`S BLUES – (Plaquette) Edições O HOMEM DO SACO – 2014 – Junho
PRONTO PAGAMENTO – Editora Tea For One – 2014 – Junho
LIVRARIA BUENOS AIRES – Editora Tea For One – 2015 – Março
QUIÇE MI LÁ BUCHE – Editora Tea For One – 2015 – Dezembro
SÓ ESPERAVA A VIAGEM PROMETIDA – Editora volta d´mar – 2018

Lista de Poemas

Total de poemas: 22 Página 1 de 3

SOSSEGO

Velha fraga escondida

                                    Enternece com o olhar

                                                                O voo de quem a                                                                            procura




,2017nov_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 140 👍 1

O HÁLITO SALGADO

Está frio no meio do meu sonho.

A pele estica-se fora da dor,
fugindo do sangue atropelado 
pela lama da vida.

Tenho na mão
o hálito salgado 
dos tempos morridos
desta espera constante.

Não posso pedir ajuda
a esta importância que me julga,
neste cambalear
com que embalo o meu vazio,

pensando iluminar as agruras
onde tanto me desanimei.

Estendo sorrisos
como se a eles alguém acenasse
e assim me envolvo em bolhas de cotão.

Vou passando em todas as ruas
como a areia do deserto
que sobrevive à falta da mais pequena ternura.

Chego sempre cansado
demasiado cansado
carregando o peso da minha ausência.

Descalço o olhar
escondo o desejo
alisando a memória
nas ilustrações esbranquiçadas
da minha ilusão.

Infinito é o bocejar do meu passado
feito com o polimento das pedras
que me atiraram.

Continuo apartado.

...depois de todo este tempo.



,2017jan_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 140 👍 1

FARPAS

Desenhava grandes viagens
na almofada

Suaves voos de arpejos
trocavam  sorrisos com o
céu 

Mas, o tempo, 
nem sempre se mostra
como o amigo necessário

Uma a uma 
enterrou as farpas 
no luar onde a lua se
esconde da poesia

 
,2023Out_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 142 👍 1

A SOMBRA DE DEUS

Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras.
As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado.
Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos
resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos.
Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas
pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas.
Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente.
Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos.
Fui sequestrado por um arco-íris.
Na minha cabeça há um comboio de inquietações
sem catalogação possível, escondendo visões numa
maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas
grito que afaga suavemente confeitos envinagrados
argamassa roída coma esquelético ossos braseados
cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio,
apalpando o êxtase das entranhas deixadas
ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso.
Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas.
Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas
rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos
do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade.
Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos
num bordel de virgens electrificadas.  Psicoestimulante colérico
escravizado pelos embaixadores da maldade. 
A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim.
Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias
da nojenta oligarquia do Kremlin.
Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão.
Confissão mágica emprenhando paixões distraídas
acampadas no viaduto da burocracia.
Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas
a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz
de onde fugiu um manequim que nunca aceitou
a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões.
Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas
em postes benzidos.
De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível.
A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta.
Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente
da sombra de deus.




,2023Dez06e7_aNTÓNIODEmIRANDA
poemanaalgibeira.blogspot.com
👁️ 110

SAL!

Sal!Incendiando-me as teias, chorar nas veias e esconder-me na sarjeta da tua saia. Vale o que vale, até porque tu continuas a não saber o fel deste meu gosto que está à venda no mini mercado mais perto de ti. Porque será que me custam a respirar as palavras que nunca entendes? Não é a má vontade do meu desinteresse, até porque me cansei de ser santo, naquela vocação que me abrandava os joelhos na inglória e exacta hora, em que todas as orações eram tão sujas como o nosso não acontecer.Matei-me tantas vezes no chão numa espera sempre crescente onde só cabiam ausências indignas.Atropelei-me queimando uma pele cansada da falta de confortos e viciei-me em oráculos venenosos.Ninguém me ajuda a pegar neste andor com resumos de todas as vontades contrafeitas, pregados numa cruz encristada de pecados que não são os meus.Sal queimado na fogueira dos abrenúncios, coados nas ternuras sem sinónimos, onde lamentos acachapados escorriam de uma barrela embutida nas paletes do desespero sílica mente conservado.E a morte empalada em todas as horas do tempo que recuso viver.Por muito que me digam que gostavam de ser assim, só porque não estimo as segundas vias, prometo-vos que Isto dá-me mais canseira do que o trabalho. Até porque a vida é uma cópula institucional que não respeita a idade.Eu me saúdo no centro mundial da identidade adulterada e aguardo angústias disfarçadas de anjos maus contemplando o tempo que não me presta.Alguém que me salve sem desgosto.Sal!Incendiando-me as telas que eu continuo a rasgar com sopros que me esburacam a algibeira.E eu envolto no sal, pilhando nenúfares ao Monet do meu mar tão desassossegado.Sal e mais sal!Que ilha ainda me restará?Tenho uma sensação necrológica necessitada de uma operação urgente. E falta-me paciência para preencher o formulário da fila de espera.Reclamo o meu desespero embora saiba que ele continuará a ocupar um vão de escada onde choram outros sem abrigo.Ai de mim, ferozmente assado neste sal.Estou cansado de secar lágrimas num varal onde pousam imagens que já não sei retocar.Sal no guisado amargo da minha vida, demasiadas vezes gasta na vã ambição de cortejar a inquietude em tons diferentes.Descontinuo-me escrevendo num moral anónimo liturgias desequilibradas.Sal!Incendiando-me as veias, entupindo as teias da solidão que dorme na minha porta bagagens.Por favor, avisem quem me espera no cais que não encontro para atracar.Sabes quem és?A puta submissa da constante violação.

2016,09aNTÓNIODEmIRANDA

👁️ 112

POEMA PARA UMA PASSAGEM DE ANO COM FINAL FELIZ

Lembro-me de certos dias,
De um sonho sem retorno,
De alguns passos desviados,
e Da matança integral
Dos fracassos com doses de naftalina.
Da aparição púdica do homem barata,
e Da alfabetização
Da ejaculação colectiva.
Dos buracos ocasionais
Da estrada Da glória,
De alguns erros De palmatória que não pude escusar, 
De certas acções De castidade mal sucedidas,
De elogios frios como o mármore,
De favores perfeitamente dispensáveis,
De poucas curvas sem muita gravidade,
De aparições cósmicas sem serem convidadas,
De senilidades não vigiadas,
De carícias tímidas,
De poucas conversas envergonhadas,
De algumas urgências atrapalhadas,
De poucos convites para a deserção social.
Também me lembro Dos dias restantes.
Mas esses serão sempre pertença minha.
Permitam-me que me apresente:
sou um homem que em mim tem fé,
e, pelo qual nutro a simpatia suficiente.



,2017dez_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 127

A FERRUGEM NUNCA DORME

Quando te tratarem sempre como um brinquedo Desconfia da intenção Ainda não chegou Dezembro A ferrugem nunca dorme Entretém-se a espalhar cruelmente a infâmia Que consome os nossos dias Enrouquece-nos os sentidos Não esquece um só pormenor Pinta-nos no corpo O som da dor E Por vezes Impede-nos de passar a ferro As pregas da saia da Marilyn Sabemos Sempre que é necessário Que para morrer um grande amor É preciso continuar a viver A ferrugem nunca dorme Compunge-nos com um hálito cínico Fingindo uma preocupação melíflua Exaurida na mentira abundante Com um amanhã Provavelmente tímido Sem nada para acontecer A ferrugem nunca dorme Transforma qualquer vontade Em torno deste tempo Num penhasco onde te possas inclinar.


2016,03
aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 127

Pai! POEMA PARA ABÍLIO de MIRANDA (1927.12.04 – 1987.11.03)

Podemos começar ouvindo Charles Aznavour cantando  
“ La Bohème”ou para momentos mais sérios escutar
a “ Avé Maria “ de Schubert. 
Passaram-se dias, muitos deles acompanhados
daquelas cores feitas com lágrimas. 
Alguns ainda em que o sangue beijou o chão.
Foi numa terça feira, ao cair da tarde
( sei agora que é o momento em que o sol
vai dormir com a lua),
que me disse as suas últimas palavras : 
às 7 vou deixar de ser anão . Levanta-me ! … 
E assim, partimos os dois, o senhor abraçando os meus braços. 
Ás vezes sinto-me como uma criança perdida,
mirando uma qualquer estrela que passeia despreocupada
lá naquele lugar com um nome tão estranho e tão longe. 
Ás vezes sinto-me cansado e durmo como se mil sonhos e
stivessem á espera de me acordar.
A verdade é que estou  menos novo, e, a Mãe,o Jorge Faria,
o tio António
e a Guilhermina, já não podem ficar nas fotografias. 
A vida vai gastando o tempo
e filtrando na sua imensa paciência, os verdadeiros amigos. 
Não me arrependo de lhe ter dito algumas verdades
( daquelas que doem a sério ),
mesmo sabendo que estava pronto para a viagem. 
Recordo-me das nossas festas,
das nossas canções, cantadas como só aqueles
que se gostam podem fazer.
Tenho na garganta o sabor daquele “americano”. 
Tenho na pele a promessa de tomar conta da Mãe. 
Tenho no coração a mais linda declaração de amor 
( falava você com a ela), que alguma vez ouvi. 
Tenho a certeza que você era diferente dos outros !
Lembro-me perfeitamente quando com um sorriso
cúmplice me dizia : tens lá em baixo livros “novos”. 
O que eu aprendi consigo !
Sentado neste banco de memórias,
deixo-lhe a minha saudade.

Não sei qual é a pressa de acelerar a minha corrida. 

Afinal a vida continua a ser um lugar estranho para se morrer!


,2013.out30_aNTÓNIO­ DEmIRANDA

👁️ 126

A FOME NÃO QUER MAIS A MORTE

Vejo a fome distribuída em longas filas.
Máscaras com um choro envergonhado.
Olhares perdidos na lama da desilusão.
Não é minha esta paisagem,
esta certeza que já nada abriga.
Um saco de lágrimas.
É o que tenho para oferecer ao caixote solidário.
A fome não quer mais a morte.
Caminho no chão das luvas, serpenteio nos desejos
da aproximação desconfiada.
Olho para os rostos, mas,
não tenho memória para gostar.
Passa por mim um cão.
Não abana o rabo, simplesmente ignora-me,
obedecendo à vontade do olfacto,
farejando a ausência do vírus.
Tornei-me num eu sem mim.
Alojei-me no lugar que partiu,
despido de qualquer lembrança.
Sigo descalço para a fonte dos ocasos.  
Desejo uma coisa estranha.
Uma anomalia surda que obedeça à voz que já não ouço.
A gravação não funciona.
A fita iludiu a cassete.
Ignoro o convite da porta.
Estou confortavelmente fechado
nos golpes das curiosidades que não me aliciam.
Escondi os cadeados da ousadia.
Imagino encenações porque não sei desenhar sonhos.
Desconheço quem irá suicidar-me,
depois de embriagar o desalento.
A fome não quer mais a morte.
Isto não está a correr bem.
Resta-me a sagrada violação da poesia nojenta,
mas, o ar condicionado não funciona,
e a vontade vai-se finando.
A fome não quer mais a morte.
Um gato pardacento encosta os bigodes no meu peito.
Atiro a má disposição para as persianas.
Dou voltas enroladas neste sofá,
escrito com recordações pantanosas.
Não sei o que faço, pendurado na árvore de natal.
Só pretendo conhecer um cheiro parecido com a vida.
Convivo bem com os arautos da tempestade.
Abraço-me nos seus gritos.
Agora já nada me custa.
Por vezes, sou um lobo vestido com uivos desabitados,
que não compreendem o apelo ao perdão.
Não sei que conforto poderá oferecer o cemitério.
Já escrevi o meu elogio fúnebre.
E, ele não comporta mais palavras.
A fome não quer mais a morte.
Andei tanto aos tombos que nem me lembro
das paredes que sangrei.
Bebi nas noites longas,
o amparo que tudo prometia.
Beijei noivas hesitantes,
conspurquei os futuros mais risonhos.
Continuo a levantar-me num acordar alegre.
Tiro a ramela dos olhos,
pisco os olhos para o gajo do espelho,
alvejamo-nos no ritual costumeiro.
Despedimo-nos delicadamente.
Sento-me na sanita para aliviar a vontade.
A fome não quer mais a morte.
Diz a canção que preciso de alguém para amar.
A melhor oração para um defunto.
Nunca serei um voluntário das intenções, mesmo boas,
que não me respeitem.
Na verdade estou farto da sorte aos trambolhões,
do jackpot das hipóteses aputalhadas,
dos conselhos respeitáveis que constantemente
batem à porta.
Viajo nos lugares que não conheço.
Tenho saudades de ti, velho amigo. 
A fome não quer mais a morte.
Onde teremos andado,
agora que não encontro o nosso passar? 
Quando voltaremos a beber o som daquele sax
que escreve as palavras do único verdadeiro deus vivo?
Paramos nesta página.


,2020mai_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 132

A ÚLTIMA VEZ

Diz-me que não estou errado, 
quando consigo falar com os anjos.
Só pretendo o abandono
desta dor que mostra
a luz definitiva.
“sister morphine”,
reza comigo, nesta cama,
para o breve sonho da morte.
Beija-me a febre,
com o alegre suor das lágrimas
vermelhas.
Posso agora contar-te
o meu único segredo:
em nada pretendi ser exemplar.


2019out_aNTÓNIODEmIRANDA
👁️ 115