Escritas

A SOMBRA DE DEUS

ANTÓNIO DE MIRANDA
Estranha linguagem falava de poesia no leilão das palavras sem letras.
As metáforas foram desviadas para a secção do silêncio privado.
Os lotes mais atrevidos secretamente consignados a troco de chorudos
resgates. Há um ninho apodrecido pela ganância de habituais curiosos.
Detesto personagens. Trago o mundo na malga das frustrações ilustradas
pela coragem do monitor. Soluço moribundo. Lembranças destroçadas.
Fobia estereotipada. Alma enforcada. Os livros ardem apressadamente.
Fartaram-se das brincadeiras dos profetas curiosos.
Fui sequestrado por um arco-íris.
Na minha cabeça há um comboio de inquietações
sem catalogação possível, escondendo visões numa
maratona de demências. Janela insensata alucinações digitalizadas
grito que afaga suavemente confeitos envinagrados
argamassa roída coma esquelético ossos braseados
cuspidos com todo o desdém por visionários do subúrbio,
apalpando o êxtase das entranhas deixadas
ao abandono nos insuspeitos mictórios do cinismo misericordioso.
Panfletos contra a opressão das vidraças indigestas.
Incógnito, o pianista de jazz iludindo o azar a duzentas
rotações por minuto. Crepúsculo contemplando a cópula no caos
do líder instantâneo, tatuada no prazo de validade da eternidade.
Bactérias antiaéreas invadem vómitos frenéticos aplaudidos
num bordel de virgens electrificadas.  Psicoestimulante colérico
escravizado pelos embaixadores da maldade. 
A rosa enlameada das asas loucas oferecendo vazios sem fim.
Diálogo de defuntos aquecido por velas cristalizadas com fragâncias
da nojenta oligarquia do Kremlin.
Pedófilos ainda não castrados regendo a ilusão.
Confissão mágica emprenhando paixões distraídas
acampadas no viaduto da burocracia.
Caridade sinistra oferecendo exéquias requentadas
a arcanjos desossados. Solidões nuas pregadas na cruz
de onde fugiu um manequim que nunca aceitou
a cegueira escrita na indecência dos boletins das submissões.
Mentalidade absurda para podar cabeças empaladas
em postes benzidos.
De nada vale a pressa na prisão sem fuga possível.
A cicatriz da viagem permanecerá violentamente intacta.
Na peça de teatro celebra-se a morte perante o aplauso complacente
da sombra de deus.




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