Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 22 Página 1 de 3

CÃO MORTO

Em plena rodovia
Por que passa um belo Mercedes
Sem vida, jaz um cão vadio
Onde os vermes ao banquete, até arrepia
Saber que só vós não vedes
Que a moral já se degrada anos a fio


Alberto Secama 04-Set-18



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BOA INTENÇÃO

Ó Guimarães Costa!
Por que deste o seu assento
Para o Anacleto Ferreira?

O que fizestes, foi coisa que não presta
A passeio? É claro que não, depois do julgamento
Num calabouço em Benguela, Cosme Damião Pereira
Preso e torturado, a dez anos d'exílio
Foi condenado p'la " Revolta dos Alfaiates "
E no caminho, foi " Boa Intenção "
Talvez com ess'outro navio
Tenha cruzado, e sem rebates
Para o Rio de Janeiro, seguiu então

Ó capitão Guimarães!
Por que deste ao Anacleto
O comando da " Boa intenção?"

Ouve agora, o choro das Mães
Cujos filhos, como tralha, no porão repleto
À força, levastes para o mundo da escravidão!


Alberto Secama 03 de Setembro de 2018

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NOS BAIRROS IMUNDOS DA PERIFERIA

Notícias de violação sexual
E assaltos à mão-armada
Recheiam as páginas do jornal
Qu'informa a multidão deseperada

Disparos de arma de fogo
Ouvem-se com doentia frequência
E os cadáveres, ao léu, qual sôo oco
Nos bairros imundos da periferia

Às largas, pelas ruas, está a incerteza a deambular
Nos bairros famigerados da periferia
Onde o luto é um pomar
E a dor, geme deliciosa melodia
No infinito adeus, aos que vão a enterrar

Com o descaso da autoridade policial
A insónia que agora implode
Nos corações aflitos da multidão
À quem, somente o favor de Deus acode
Senão p'las próprias mãos, quem fará
A justiça qu'inexiste cá?


Alberto Secama 25 de Agosto de 2018
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VINDICTAS ERUPÇÕES

Ao chão, plásticos, papéis e metais
À mistura, sucatas, pneus estragados e sujos pedaços de pano
Em meio a ecossistemas naturais
De cuja laxação escapa natural
O inflamável gás metano

Triatómica, é a variedade alterada do oxigénio, pela acção
De descargas eléctricas nas alturas
Cujo estrago total, com o inventar da máquina à vapor
E o desenvolver da indústria, começou então
O prenúncio de que as gerações futuras
Viveriam no claustro do climatérico pavor

Às vezes, com os abusos, parece que se conforma
Quando nas florestas, indiscriminadamente aos milhões
Patógenos abates, exacerbam o enfisema pulmonar
Do planeta azul, cuja fúria é o magma
Que nada poupa e tudo consome em vindictas erupções

Alberto Secama 15 de Julho de 2015
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AS ANGÚSTIAS DE ANGÉLICA

[ Em homenagem a Maria Josefa "Angélica" ]

Incubada no porão, de Áfrika trazida
Germinou a semente Maria Josefa "Angélica"
Em mil e setecentos, na ilha da Madeira

Do Senhor Nicolas Bleeker foi escolha preferida
Depois, de François Poulin de Francheville, cuja morte trágica
Fê-la posse de Théresè de Francheville, a viúva herdeira

Em Montreal, na pequena plantação da sua Senhora
Dos coitos que teve com o vassalo Jacques cesar
Três sementes, Angélica bem viu germinar:
Um rapaz e duas gêmeas, que cedo a morte deitou fora

Cansada de ser coisa e não pessoa
Na demorada ausência da sua patroa
Em viagem, no afã de cuidar do património familiar
No celeiro da fazenda ao lado, Angélica foi-se refugiar
Para daí encentar fuga, mas muito era o frio
Assim quis o inverno; gélida, estava a água do rio
Que ela, na vã espera que a temperatura fosse aumentar
E ao atravessá-lo, livre ver-se-ia
Não tardou receber a visita dos três capitães da milícia

Devolvida à senhora Théresè, sua dona
Que já se via à rasca com a escrava refilona
Por 600 libras de pólvora com que se propôs adquiri-la
O senhor Cugnet, de Quebec, talvez por isso, o temor
De mais tarde, embarcar rumo às Antilhas
Fê-la estar mais destemida e não tranquila

Mas o fogo, naquela noite de sábado, quem foi lá pôr?
No chalé ao lado, a chama incendiária na cozinha, as chaminés sujas
Foi ou não, desleixo de Marie-Manon, quem espalhou o vago rumor?

Ante o juíz de Montreal, sob as sevícias de Mathieu Leveillé
O "mestre de tortura" que manuseava o polé da colónia
Angélica, sem demora respondeu: "sim, fui eu!"

Defronte as ruínas do fogo e a frontaria da Igreja, era bué
A turba à volta do bailéu, abaixo da forca, onde se despedia
Mais uma filha entre muitas que Áfrika assim perdeu

Alberto Secama 01 Agosto 2018



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BAQUAQUA EM CASA DO AMO PADEIRO

Em geral, nas ruas, Baquaqua vendia
Todíssima produção do pão que fazia
Mas, se por acaso, caísse o facturamento
A punição era " chicotes naquele momento "

Em casa do amo padeiro
Baquaqua, o escravo de tabuleiro
Com outros quatro, partilhava o inferno
De trabalhar o dia todo, até as nove da noite

Em casa daquele português católico
Qual desatenção ou sonolência
Eram desaconselhados p'lo comprido açoite
Na hora dos cultos, qu'eram dois por dia;

O sinal da cruz, que tinham de fazer
E palavras estranhas pronunciar
Tão rápido, Baquaqua s'esforçou a entender
E a língua de Camões, cedo aprendeu a falar

Mas, depois d'incontáveis surras
Não fosse o álcool, que passou a beber sem freio
Baquaqua, meu kamba de quantas amarguras
Considerado um "caso difícil", foi revendido
Para um capitão de navio

Alberto Secama 17-Ago-18
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EM OLINDA, BAQUAQUA TORNOU-SE ESCRAVO DE TABULEIRO

[ Em homenagem a Mahommah Gardo Baquaqua ]

Trocados por rum, tabaco
E muitas outras mercadorias
À bordo, para o Brasil, em Pernambuco
Pára mim, Baquaqua chorou ao desabafar
Do que viveu em mil agonias
Enfiado no porão daquele navio:

- " Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar
nunca serão apagados da minha memória "

Pela primeira vez, as laranjas que viu
Foi na costa, após o navio tumbeiro atracar
À escassos metros da majestosa residência
Cuj'ornamentação d'humanos crânios
A um Senhor d'imensos feudos pertencia

Marcados a ferro quente
Aí ficámos à venda
Até chegar de Olinda
Um comprador português, que era padeiro
E lá, a zungar pálas ruas, os pães que fazia
Baquaqua tornou-se escravo de tabuleiro

Alberto Secama 08-Agosto-18



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O SOL LÁ FORA

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu esplendor
Brilha que brilha
Das alturas qual favor!

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu encanto
Brilha que brilha
Das alturas brilhando tanto

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre montes e vales
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre todos os males

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre áfrika e o mundo
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre mim vagabundo.

Alberto Secama 11 de Janeiro de 1998



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PERGUNTEM AO PRUDÊNCIO

Perguntem ao Prudêncio Vital de Lemos
Crudelíssimo capitão do " Feliz Destino "
Se para tanto, o que foi que lhe fizemos?
Se não, por que ousou ser desumano?

Perguntem ao Prudêncio Vital
Crudelíssimo capitão
Se para tanto mal
Qual foi a razão?

Perguntem ao senhor Prudêncio
Crudelíssimo capitão de navio
Se ao invés do fundo do mar
Os 39 não mereciam outro lugar?

Alberto Secama 17-Ago-18


Nota: De todas as viagens do navio negreiro Feliz Destino, a mais mortal foi a de 1821, conduzida pelo capitão Prudêncio Vital de Lemos; dos 416 escravos colhidos a força no oeste de África, apenas 377 chegaram
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RAPTO

[Em homenagem à Olaudah Equiano]

Olaudah, ainda menino
Com sua irmã e outros petizes
Enquanto brincavam n'aldeia
Um rapto mudou-lhes o destino
E para Bridgetown, Barbados
Em quanta angústia
De Igboland, o Atlântico viu-os partir
Entre 244 cruelmente acorrentados
No apertadíssimo porão
De Ogden, a negreira embarcação

Dias depois, para a Virgínia
Nas margens do rio York
Partiu o miúdo Equiano
Com a alma podre e fria
À bordo de Nancy

Com os pés descalços
E a pesada bagagem
No imaginário sem norte
Equiano calcou no solo americano
O medo da morte

Nada mais temia
E nada mais sentia
Nem dor nem alegria

Alberto Secama 27 de Setembro de 2015
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