Lista de Poemas

BOA INTENÇÃO

Ó Guimarães Costa!
Por que deste o seu assento
Para o Anacleto Ferreira?

O que fizestes, foi coisa que não presta
A passeio? É claro que não, depois do julgamento
Num calabouço em Benguela, Cosme Damião Pereira
Preso e torturado, a dez anos d'exílio
Foi condenado p'la " Revolta dos Alfaiates "
E no caminho, foi " Boa Intenção "
Talvez com ess'outro navio
Tenha cruzado, e sem rebates
Para o Rio de Janeiro, seguiu então

Ó capitão Guimarães!
Por que deste ao Anacleto
O comando da " Boa intenção?"

Ouve agora, o choro das Mães
Cujos filhos, como tralha, no porão repleto
À força, levastes para o mundo da escravidão!


Alberto Secama 03 de Setembro de 2018

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CÃO MORTO

Em plena rodovia
Por que passa um belo Mercedes
Sem vida, jaz um cão vadio
Onde os vermes ao banquete, até arrepia
Saber que só vós não vedes
Que a moral já se degrada anos a fio


Alberto Secama 04-Set-18



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O MAKONGO DE ZAMBA

Zillah, a esposa, ao vê-lo partir
Em pranto, desatou a lamentar:
" Zamba, por que tanto queres ir
Para tão longe passear?"

Um tal de Winton
Era capitão, e o convidara
A acompanhá-lo à Inglaterra, depois ao Congo
Tramado, numa palntação em Charleston
Quarenta anos, foi quanto lhe custara
O passeio que deu num grande makongo

Alberto Secama 28-Jul-18
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O SOL LÁ FORA

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu esplendor
Brilha que brilha
Das alturas qual favor!

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Nas alturas do seu encanto
Brilha que brilha
Das alturas brilhando tanto

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre montes e vales
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre todos os males

O Sol lá fora
Brilha que brilha
Sobre áfrika e o mundo
Brilha que brilha
Deitando suas réstias sobre mim vagabundo.

Alberto Secama 11 de Janeiro de 1998



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LIVRO NUNCA FOLHEADO

No misto de poeira
Que repousa serena
Sobre a velha estante
Encostada, à parede pouco resistente
Da sala apertada de tão pequena
Para a mobília fora de moda
Há tanta bicharia
Como que numa boda
A degustar com insaciável folia
A liberdade da poesia
Nas folhas, em papel reciclado
Dum livro nunca folheado

Alberto Secama 04 de Agosto de 2015
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KIMPA VITA

[ À memória de Kimpa Vita ]


Nas terras do Kongo dya Ntotila
Monte Kibango te viu nascer
Ó destemida filha de fala tranquila

Nganga Marinda do clã Mwana Kongo
No " Antonianismo ", tua crença deste a conhecer
Aos dogmas da fé católica, foste contrária
" Herege! " - a morte condenou-te o clero
Viva, no fogo que tanto ardia
Ainda assim, teu adeus foi sincero

Agora, profundo que é o sono
De louros coroada, na eterna glória
Descansa esquecida do imundo colono

Alberto Secama 13 de Setembro de 2015
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EM OLINDA, BAQUAQUA TORNOU-SE ESCRAVO DE TABULEIRO

[ Em homenagem a Mahommah Gardo Baquaqua ]

Trocados por rum, tabaco
E muitas outras mercadorias
À bordo, para o Brasil, em Pernambuco
Pára mim, Baquaqua chorou ao desabafar
Do que viveu em mil agonias
Enfiado no porão daquele navio:

- " Oh! A repugnância e sujeira daquele lugar
nunca serão apagados da minha memória "

Pela primeira vez, as laranjas que viu
Foi na costa, após o navio tumbeiro atracar
À escassos metros da majestosa residência
Cuj'ornamentação d'humanos crânios
A um Senhor d'imensos feudos pertencia

Marcados a ferro quente
Aí ficámos à venda
Até chegar de Olinda
Um comprador português, que era padeiro
E lá, a zungar pálas ruas, os pães que fazia
Baquaqua tornou-se escravo de tabuleiro

Alberto Secama 08-Agosto-18



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MOTIM À BORDO

Dizem que eram cinquenta e três
Sob o comando bravo de Cinqué, o escol
Da tribo de Mende, qual varão serra leonês!

A muitas milhas para lá da costa de Cuba
Firme, estava o mastro do navio espanhol
Quando o capitão gritou: "Deus, por favor nos acuda!"

Com as amarras quebradas, o bravo da tribo de Mende
Com um macete, desferiu um golpe na barriga grande
Do pobre capitão, que ficou estendido ao chão
Onde jaziam falecidos, metade da sua tripulação

Dos restantes, rendeu-se também o navegador experiente
A quem Cinqué ordenou meia-volta, para África
Mas ele, de tão astuto, velejou para outro continente

Alberto Secama 03-Ago-18
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PERGUNTEM AO PRUDÊNCIO

Perguntem ao Prudêncio Vital de Lemos
Crudelíssimo capitão do " Feliz Destino "
Se para tanto, o que foi que lhe fizemos?
Se não, por que ousou ser desumano?

Perguntem ao Prudêncio Vital
Crudelíssimo capitão
Se para tanto mal
Qual foi a razão?

Perguntem ao senhor Prudêncio
Crudelíssimo capitão de navio
Se ao invés do fundo do mar
Os 39 não mereciam outro lugar?

Alberto Secama 17-Ago-18


Nota: De todas as viagens do navio negreiro Feliz Destino, a mais mortal foi a de 1821, conduzida pelo capitão Prudêncio Vital de Lemos; dos 416 escravos colhidos a força no oeste de África, apenas 377 chegaram
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ALBÍZZIA LEBBECK

Da família das leguminosas
Chamam-lhe Albízzia Lebbeck
DáÁfrica, sua terra natal
Levou-a Dom João VI , para o Brasil
Onde as suas cascas para curtume
Para indústria a sua madeira
E sua folhagem forrageira
São os seus donativos

De aspecto agradável
É a sua folhagem, com flores
Tão pouco visíveis; os frutos dáafro sabores
Que pelo número e dimensão
São vagens amarelas e delgadas
Porém, bastante alongadas
Como longa se tornou a lição
Do pernoite que durou
Quinhentos anos de escravidão

Alberto Secama 19 de Julho de 2015
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