Escritas

Lista de Poemas

Total de poemas: 22 Página 2 de 3

KIMPA VITA

[ À memória de Kimpa Vita ]


Nas terras do Kongo dya Ntotila
Monte Kibango te viu nascer
Ó destemida filha de fala tranquila

Nganga Marinda do clã Mwana Kongo
No " Antonianismo ", tua crença deste a conhecer
Aos dogmas da fé católica, foste contrária
" Herege! " - a morte condenou-te o clero
Viva, no fogo que tanto ardia
Ainda assim, teu adeus foi sincero

Agora, profundo que é o sono
De louros coroada, na eterna glória
Descansa esquecida do imundo colono

Alberto Secama 13 de Setembro de 2015
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ALBÍZZIA LEBBECK

Da família das leguminosas
Chamam-lhe Albízzia Lebbeck
DáÁfrica, sua terra natal
Levou-a Dom João VI , para o Brasil
Onde as suas cascas para curtume
Para indústria a sua madeira
E sua folhagem forrageira
São os seus donativos

De aspecto agradável
É a sua folhagem, com flores
Tão pouco visíveis; os frutos dáafro sabores
Que pelo número e dimensão
São vagens amarelas e delgadas
Porém, bastante alongadas
Como longa se tornou a lição
Do pernoite que durou
Quinhentos anos de escravidão

Alberto Secama 19 de Julho de 2015
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RITMO RITMADO DE JAZZ

Simples simplicíssima
Doce mensagem quáés minháalma
Num ritmo ritmado de Jazz
Aqui distante ou além próximo
Só um negro nigérrimo
Sabe o ritmo sincopado que paz

Quero como sempre quis
Querendo quão bem te fiz
Um ritmo ritmado de Jazz
Que só o faz um negro negrão
Cá sem dita ou lá suspicaz
Sabe por que entoa triste canção

Ritmo titmado de Jazz
Tem triste tristeza de quem o bem-faz
Quáimporta a hora ou o lugar
Se a negra negrura da negridão
Só um negro saberá negrejar?

Alberto Secama 05 de Agosto de 2018
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DIAFORESE

As pedras que foste colocar
Nos alicerces pálo mundo afora
Me fazem merecer o chão
Qu'eles m'impedem de pisar
Não fosse a cangalha em que se transformara
Meu mundo por meio da escravidão

" A Depressão " que aprendeste a cantar
À bordo de negreiras embarcações
Me faz entender a coisa diabólica
Que foram as travessias difíceis, em alto-mar
E o ardor do Sol, nas vastas plantações
Onde na terra, se meteram sementes d'África

O doce de nostalgia com amarga calda
É a labiríntica herança do dia
Que parecia nunca ter fim
Mas, depois de tirada a nojenta fralda
Vê-se agora, claramente, a diaforese da poesia
Que acaba de sair de dentro de mim

Alberto Secama 23 de Junho de 2018
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ZILLAH AO ENCONTRO DE ZAMBA

Em Charleston, era grande a saudade
Que Zamba, de Zillah sentia
E nas margens do rio Congo, dia após dia
Sentada, Zillah esperava vê-lo de volta

À noite, deitada, imensa era a falta
Que Zamba, seu amor, tanto lhe fazia
Por isso, uma coisa apenas dizia:

" Se d'América, o navio que chegar
Eu juro, hei de m'entregar "

Ao ver atracar " The Hunter "
Proveniente do estado da Carolina
Zillah, sem medo, em surdina
No porão foi se esconder

Por entre o vasto amontoado
Do lastro a base de ferro
Naquele porão bué fundo
Bastou num velho estrado
O prego saliente, e o cheiro a esturro
Para fazê-la suspirar "ah, que lugar imundo!"

Em Charleston, como ígneas chamas
Rápido s'espalhavam as notícias
D'embarcações prestes a chegar
E Zamba foi também, ver as almas
Todas negras de quantas agonias

Fatigadas da sempre difícil travessia
Do porão, à granel, a carga viva saía
Quando em alto sôo
Do fundo uma voz ele ouviu:
- " Zamba, meu amor! "
E num salto, qual vôo
O vendaval d'emoções qu'ele sentiu
Naquele abraço tão forte
Foi mesmo uma grande sorte

Alberto secama 21-Ago-18
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BÂTEGA

Às escâncaras
O céu cinzento e falto de vergonha
Dá espirros esganiçados
E sobre o zinco dos casebres
Especados no chão da montanha
Cai arrogante, a bâtega
Impregnando dáacrimoniosos vapores
Até à pulverulenta substância do solo

Depois dáoligarca bâtega
Com o medo que está agora
A atmosfera humedecida
Até quando essa vida
Misérrima e cheia do que só apavora?


Alberto Secama 14 de Agosto de 2015
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MOTIM À BORDO

Dizem que eram cinquenta e três
Sob o comando bravo de Cinqué, o escol
Da tribo de Mende, qual varão serra leonês!

A muitas milhas para lá da costa de Cuba
Firme, estava o mastro do navio espanhol
Quando o capitão gritou: "Deus, por favor nos acuda!"

Com as amarras quebradas, o bravo da tribo de Mende
Com um macete, desferiu um golpe na barriga grande
Do pobre capitão, que ficou estendido ao chão
Onde jaziam falecidos, metade da sua tripulação

Dos restantes, rendeu-se também o navegador experiente
A quem Cinqué ordenou meia-volta, para África
Mas ele, de tão astuto, velejou para outro continente

Alberto Secama 03-Ago-18
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O MAKONGO DE ZAMBA

Zillah, a esposa, ao vê-lo partir
Em pranto, desatou a lamentar:
" Zamba, por que tanto queres ir
Para tão longe passear?"

Um tal de Winton
Era capitão, e o convidara
A acompanhá-lo à Inglaterra, depois ao Congo
Tramado, numa palntação em Charleston
Quarenta anos, foi quanto lhe custara
O passeio que deu num grande makongo

Alberto Secama 28-Jul-18
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EU, ZEMBOLA E CUGOANO EMBAIXO DO CONVÉS

[ Em homenagem à Zamba Zembola e Ottobah Cugoano ]

Embaixo do convés
Quem não cantou os choros
Enquanto a masmorra e o açoite
Escamaram do pescoço aos pés
Da negra pele quais desaforos
Quase matei aquele brutamontes
Não fosse tu, ó irmão Zembola
De pressa arrear meus braços
E tu também, ó irmão Cugoano
Sempre calmo, qual bússola
Naquele instante, qu'entre soluços
Apenas quis exprimir o dano
Em ser arrancado da minha terra: Angola

Alberto Secama 19-Jul-18

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LIVRO NUNCA FOLHEADO

No misto de poeira
Que repousa serena
Sobre a velha estante
Encostada, à parede pouco resistente
Da sala apertada de tão pequena
Para a mobília fora de moda
Há tanta bicharia
Como que numa boda
A degustar com insaciável folia
A liberdade da poesia
Nas folhas, em papel reciclado
Dum livro nunca folheado

Alberto Secama 04 de Agosto de 2015
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