Escritas

AS ANGÚSTIAS DE ANGÉLICA

Alberto Secama
[ Em homenagem a Maria Josefa "Angélica" ]

Incubada no porão, de Áfrika trazida
Germinou a semente Maria Josefa "Angélica"
Em mil e setecentos, na ilha da Madeira

Do Senhor Nicolas Bleeker foi escolha preferida
Depois, de François Poulin de Francheville, cuja morte trágica
Fê-la posse de Théresè de Francheville, a viúva herdeira

Em Montreal, na pequena plantação da sua Senhora
Dos coitos que teve com o vassalo Jacques cesar
Três sementes, Angélica bem viu germinar:
Um rapaz e duas gêmeas, que cedo a morte deitou fora

Cansada de ser coisa e não pessoa
Na demorada ausência da sua patroa
Em viagem, no afã de cuidar do património familiar
No celeiro da fazenda ao lado, Angélica foi-se refugiar
Para daí encentar fuga, mas muito era o frio
Assim quis o inverno; gélida, estava a água do rio
Que ela, na vã espera que a temperatura fosse aumentar
E ao atravessá-lo, livre ver-se-ia
Não tardou receber a visita dos três capitães da milícia

Devolvida à senhora Théresè, sua dona
Que já se via à rasca com a escrava refilona
Por 600 libras de pólvora com que se propôs adquiri-la
O senhor Cugnet, de Quebec, talvez por isso, o temor
De mais tarde, embarcar rumo às Antilhas
Fê-la estar mais destemida e não tranquila

Mas o fogo, naquela noite de sábado, quem foi lá pôr?
No chalé ao lado, a chama incendiária na cozinha, as chaminés sujas
Foi ou não, desleixo de Marie-Manon, quem espalhou o vago rumor?

Ante o juíz de Montreal, sob as sevícias de Mathieu Leveillé
O "mestre de tortura" que manuseava o polé da colónia
Angélica, sem demora respondeu: "sim, fui eu!"

Defronte as ruínas do fogo e a frontaria da Igreja, era bué
A turba à volta do bailéu, abaixo da forca, onde se despedia
Mais uma filha entre muitas que Áfrika assim perdeu

Alberto Secama 01 Agosto 2018