Biografia
Lista de Poemas
O Rato
O roto rato
Sujo de esgoto
Perdido no desgosto
De se ver tão morto.
Mudaria minhas vestes
Trocaria minhas botas
Botaria do perfume
Em que o cheiro fosse doce
Como sua alma que adoece
Me entristece,
Feito uma prece rupestre
Onde nada lhe apetece.
Mas aqui estou
Diante de ti
Ajoelhado pra ti
Morrendo por migalhas
De um amor cheio de falhas.
Me alimente, por favor
Já não aguento sentir dor
Venho aqui dos confins do mundo
O rei do submundo
Minha capa e meu escudo
Soturnos como os buracos
De onde saio, me parto
Em direção ao fardo
Que é confundir amor
Pela dor de se fazer favor.
Me perdoe pela pressa
Se lhe faltei com a educação
Mas este rato desgraçado
Está cansado do asfalto
Por onde patas se arranham
Pelos que caem
Amores que iludem.
Se fui feito de teste
Até onde poderia ir
Saiba que morri por ti
No momento em que a vi
Agora, aqui
Vendo-a sorrir
Sinto suas mãos se fechando
Ouço meus ossos se quebrando
De meus olhos emana o pavor
Por onde os lábios se perdem o calor.
O corpo que desce
Escorre e se perde
Pelas águas das ruas
Onde as lágrimas das chuvas
Me guiam para o fim
Indo para onde saí.
Dali não deveria ter sonhado
Em ser príncipe encantado
Apenas um roto rato
Onde amores verdadeiros
Não mudam o que os olhos
Enxergam por inteiro.
Morto e sem dinheiro
Largado ao desespero
Amaldiçoado por teus beijos
Onde apenas sonhei em meus anseios.
Sábio aquele é
Que sabe o que quer
Sem esperar pelo amanhecer
Onde o príncipe se muda por inteiro
Um monstro sem valor
Contigo por clamor.
Nunca saberemos como seria
O rato roto te amando
Noite e dia.
(O Rato, 03/05/2023)
Natasha
Natasha
Minha acácia, Natasha
Encontrei seu amor
Me perfumei em seu sabor
Seus espinhos não feriram
Da pela dura de meu íntimo
Ao se ver madura,
Se abre tão escura
Ao se ver ainda jovem,
Se mantem dura como a lua
Não sei se consigo semear
De tal mulher tão solta
Não é que eu tenha medo
Apenas não me vejo em teu seio
Dos ramos que florescem
Queria ter eu apenas uma flor
Apenas uma flor, seja de acácia
Ou de Natasha
Seria eu em você
Seríamos um, mesmo em alguns
Para que no outono,
O vento solto
Me levasse ainda absorto
Pelo tempo amado
Mesmo que agora largado
Talvez em um novo florescer
Numa primavera eu volte a te ter
Mesmo que com tempo marcado
Estarei radiante
Até ser envelhecido
Por ter meu amor vencido.
Relógio Quebrado
Como um relógio antigo
Perdido e sem tempo
Largado em uma casa
Que se despedaça
Em poucas passadas
O ranger sinistro
Trilha sonora
De um verdadeiro suplício
Minhas engrenagens morreram
Fui largado em poeira
Do meu cuco restou
Apenas lembrança
De um tempo perdido
Onde meu movimento tão lindo
Já tirou muito risos
Não restou em mim
Qualquer esperança
De um resultado feliz
Onde viver no amargo
Tem um gosto tão magro
Não consigo mover
Meus ponteiros cansados
Tão enferrujados
Se esquecem do gosto
De ser admirado
Das teias de aranha
Minha única façanha
Eu me esqueci de viver
Perdi do tempo
Que dediquei a você
Se continuo aqui parado
Como relógio quebrado
É ao menos acertar
Duas vezes por dia
E fingir que acredito
Ser um ato de vida.
(Relógio Quebrado, 06/10/2023)
Uma Doença Silenciosa
Os ratos que vagam por ruas escuras
São trevas em capas de pelos
As luzes amarelas das janelas
Os olhos que já não tem lágrimas para chorar
Por dentro, cada alma sofre em silêncio
Em seu desespero mundano
Estou em febre, morro aos poucos
Sinto das mãos que tocam minha alma
Desespero
Sinto dos ratos que procuram uma saída de minha pele
Dor, infinita dor
Rolo de um lado para o outro
Grito, mas a areia sufoca minha garganta
Não ouço nada, pois meus ouvidos mocos
Estão lascados pela escória do mundo
Vejo duas sombras que andam
Narizes imensos
Anjos da morte
Capas como asas
Não batem senão para levar os vivos
Olham para mim
Tocam minha pele
Querem-me vivo, ou querem-me morto?
Talvez só mais um pouco…
Os bulbos escuros que perfuram minha pele
São os tambores que guardam minha dor
Toda a minha febre são as repulsas dos pensamentos
Que não consigo me desfazer
O chapéu negro paira sobre mim
A peste negra de quem se entregou
Sem nem ao menos saber para onde vai
Um mar de fúria e escuridão
Nem ao menos sei se estou no oceano ou a caminho do céu
Os raios que caem são músicas doces que espantam minhas dores
Percorra minha pele
Quebre minhas maldições
Hoje depositarei em poemas toda a minha febre
Que a cavalaria da peste negra tanto clama por mim
São os tímpanos sensíveis de patas suadas
Ah, sim
Patinhas suadas que coçam minha mente
As vozes finas que percorrem minhas veias
Um bulbo se estoura
Mas é no silêncio da noite
Os outros diriam que somos fracos demais
Mas se somos fracos demais…
Por que um surto se estende pela noite?
Por qual motivo tanta peste negra habita nos corações perdidos?
Somos um surto
Que nasce de uma febre coletiva
Mas este mal que nos habita
Não é fraqueza
A fraqueza veio dos ossos
Os bulbos nasceram da falta de luz
O nariz longo falta me bicar
Tomara que seja rápido como um pássaro
E que deixe para trás uma única pena negra
Roubada do pouquinho de trevas
Que não expulsei de minha alma
(18/11/2023, Uma Doença Silenciosa)
No Crepuscular do Altar
No crepuscular do altar
Sempre a te exaltar
Em rimas mediúnicas
Feitas através de runas.
O nosso amor a me assombrar
Como fantasmas no respaldar
Me arrepiando as costas
Tudo através de apostas.
Se eu morrer primeiro,
Volto para lhe tirar a dor
Através do sopro de meu amor.
Enquanto a lua subir
Estarei ao lado de ti
Se minha silhueta lhe escapar
Nada tema ao resplendor
Pois estarei sempre ao seu favor.
Me Exorcize
Quando chegar minha hora
E colocarem gentilmente meu corpo
Num sepulcro escuro
Em algum momento eu perfurarei a terra
E me arrastarei até você
Sentindo das lágrimas que escorrem
Pelo seu belo rosto pálido
Mas serei frio como um pensamento ruim
Serei apenas lembrança de uma dor latente
Não tema das ondulações do tempo,
E me exorcize com um novo amor.
(19/10/2023, Me Exorcize.)
*Poema escolhido pelo Dia Nacional do Poeta, e publicado no perfil @sececrj, Secretaria de Estado e Cultura e Economia do Rio de Janeiro.
O Meu Eu Feio
A chuva tamborila na janela
Os trovões me acordam aos pulos
Não consigo dormir
Percorro meu apartamento,
Como um sonâmbulo
O que me aflige?
O que não me deixa dormir?
Sinto que luto contra algo
Algo que tenta dominar meus sentidos.
Na chuva, de capa preta
Uma sombra me observa lá de baixo.
Perscrutando formas de entrar.
Corro, tonto
Sem saber para onde ir.
Mal reconheço da luz parca
Que não ilumina nada.
Algo sinistro tenta me invadir,
Tenta usufruir daquilo
Que deveria ser meu reino.
Batidas lentas na porta
Pelo olho mágico,
Enxergo apenas o capuz preto
Do meu lado da porta
Ouço apenas a respiração...
Me afasto sem fazer barulho
Me entrego ao submundo
Soturno e arguto
Onde nada passa despercebido
Muito menos sem ser sentido.
A maçaneta se mexe,
Gestos que se repetem,
Meu peito sobe e desce
Que mal é esse que me persegue?
Grito:
“Entre criatura desgraçada,
E me faça o favor
De levar minha alma”.
A porta se abre, lenta
Morosa
Preguiçosa
Como quem não tem pressa
De sugar alma
E sangue de inocentes.
Fico parado
Apenas um depravado
Um voyeur desgraçado
Aguardando o fim
Daquilo que me clama
Fazer de mim
O que se apaga a flama
Curvado e magro
Feições distorcidas do próprio mal
Faz de minha casa
A sepultura final.
Lambe de minhas comidas,
Destrói minhas cortinas.
Deita em minha cama,
Como se fosse sua própria.
Olha para mim com escárnio,
Brinca com meus medos
Como quem retira do oxigênio.
Me sinto enlouquecendo aos poucos
Perdendo minha retidão
Me entregando à ilusão
Não consigo dar passo
Apenas aos percalços
É que foi deixando,
O pior de mim
Me levar para o fim.
Tudo isso que eu vejo
Através de tanto desespero
É o vislumbre de um ensejo
Ato final de quem morre ao leito.
A criatura zomba de mim
Troça de minhas propostas
Para ele não passo de um bosta
Largado por aí,
Sem ninguém a se lembrar de mim.
Ela tira o capuz
E em meio à escuridão
Não é possível se ver distinção
Somos um...
Apenas um...
Meu outro eu feio
É apenas como me enxergo
O tempo inteiro.
Nossa relação é assim
Um se escondendo do outro
Um culpando o outro
Pelos erros esquecidos
E ainda por aqueles
Que ainda vem vindo.
Nos batemos e socamos
Nosso ódio é mundano
Sabemos que o fim
É matarmos um ao outro.
Pois aqui, em nosso templo
Dividimos ao mesmo tempo
A mesma mente e corpo
De que se faz um esgoto.
Das paredes rachadas
Dos trincos quebrados
Nada mais fica dentro
Nada mais precisa pular pra fora
Nossa mente está aberta
Para visitação,
Daquele que tira disso
Algum tesão.
Desligo as luzes
Deixo sucumbir
Daquilo que não permito partir
Das dores ocultas,
Divididas entre versões de mim
Apenas me deito,
E dos trovões lá de fora
Faço de trilha sonora
De quem decide deixar
O que de pior
Se possa entrar.
(20/09/2023)
Te Dedico
Dedico o meu tempo a alguém que nunca me amou,
Seja em prosa, em música ou em letras maiúsculas,
Gritadas pelas paredes ocas de meu coração.
Coração, este em que guardo as piores delas
Como em sepulcros soturnos,
Por vezes aberto apenas como um desejo mórbido
De lembrar de nós dois.
Por onde andas tu?
Ainda omitindo, mentindo
Para quem lhe entregou seu coração?
Ainda fingindo sentir, algo que seu frio reinado de gelo,
Congelou e matou, para nunca mais se levantar?
Por onde passa, seus amantes se tornam estátuas
Impedidos de saber o que é amar.
Um reflexo das traições que não apenas perfuram,
Mas destroem e corroem as almas.
Eu lhe entreguei minha vida, minhas promessas
Eram sinceras. O meu amor não era de brinquedo,
E por isso jamais seria quebrado, embora brincado
Jogado fora, largado como um salto alto arrebentado.
Como aquele usado na noite
Em que o outro beijou teus lábios.
Os lábios usados nos meus,
As mentiras usadas em meu ouvido.
E eu acreditando, indo dormir com o seu
“Te amo”.
Ao partir, tudo que perdi foram
Falsidades e o controle de você sobre mim.
Não me deixando enxergar,
Não me deixando lutar.
Me mantendo preso ao que eu acreditava de você.
Hoje, não sei quem era.
Para onde foi, ou para quem mente.
Mas sei que nunca alguém amará como eu,
Te entregará o corpo e a alma sem pestanejar.
Sempre ali para te ajudar.
Nem o pacto com o diabo custaria tão caro.
Aliás, prefiro ele a você.
Ao partir, você perdeu um amor de verdade.
Ao partir, eu enfim ganhei liberdade.
(Te Dedico)
*Poema escolhido pelo concurso “Poetize 2024”, e publicado em livro físico pela editora Vivara Editora Nacional.
Lilith
És tão bela e amena como um dia de verão…
Não, poema errado.
Se em meus brados te acordo
Entre as tumbas esquecidas
É porque de ti ainda não me desfiz.
Se em teu seio eu me fiz feliz
Um parceiro para esta vil vida
Então aqui retorno para fazer meus votos
Do meu sangue eu te dou
De meu coração abro mão
Tudo para lhe retomar a razão
Te trazer de volta ao perdão
Caminhei ao teu lado pelos campos escuros
Onde sol algum tocaria nossas peles
De mãos dadas pelas lápides, proferimos promessas
Destas apenas da morte você ainda a cumprir
Em teus olhos vermelhos
Dos lábios escuros
Do cabelo da noite
A ti me entrego por inteiro
Seu fiel escudeiro
O cavaleiro negro
Do castelo de pedra
Que tombaria céu ao chão
Congelaria o inferno em prisão
Se de tua alma a me escapar
Então não terei escolha senão me matar
Para do outro lado continuar sendo teu bardo
Que ao cantar minhas letras
Tão perdidas em trevas
Te encontrem no amor, por onde escondo minha dor.
No véu negro da noite
Por onde anda teus pés
Me farei teu refém
Que leve para o além
Onde ninguém me retém.
Deitados em caixões
Sem velas em porões
Te abro minha veia
Como quem uma torneira
E deixo escorrer, do elixir de viver
Voando no céu pelos ares de véu
Um morcego qualquer
A procura de fé
Caindo aos teus pés
Carente por sangue
Em teu seio crispado.
Lilith, minha Rainha do amor
Se nos outros causa pavor
Saiba que em mim nunca faltará calor
És tão bela e amena como meia-noite de inverno
Onde o frio emplaca o sentimento que mata
Em teu vestido negro salpicado de rubro
Rubis de um vinho nada caro em te dar
Te beijo no infinito prazer
Onde sei que nunca vou te perder
Nesta lua tão branda que em meu sentimento espanta
Qualquer medo do escuro
Que num passado soturno
Aguardei por você, em cada sombra na parede
Cada sussurro no escuro
Uma mão em meu peito
Um latejar imperfeito
De quem te ama no leito.
(Lilith, 24/04/2023)
*Poema escolhido pelo concurso do Projeto Apparere, e publicado em livro físico na 7º Coletânea de Poemas, Sonetos e Cordéis.
Ei-lo Aqui, Pedaço de mim?
Ei-lo aqui, pedaço de mim?
Tu não sabes a distância que percorremos
Pelas veredas a qual passamos
Mas sinto-me velho, como um novelo enrugado
E nem ao menos cruzamos de trinta veranos
Mas sinto em minha alma, que de mil invernos
Me fizeram um velho, todo coberto
Por medos e versos frios como a neve
Todos cultivam de seu próprio inferno
Ao menos neste ano abri o meu para visitação
E nem ao menos sei se teremos companhia
Nesta triste estadia, em que fizemos moradia
O frio trevoso dos invernos passados
Mutilaram as extremidades de meus dedos cansados
Como quem surrupia algo de outrem
Me roubaram da felicidade esquecida
Que agora lamento, com lágrimas ao vento
Sentindo este cheiro?
Nosso corpo apodrece numa cama qualquer
A sepultura aguarda, como o beijo da amada
Dê-me um último selinho, seu pedaço vizinho
E nos separe para sempre, com uma pá de semente
Enquanto uma parte cresce
A outra se esquece
E com um ranger de dentes
Feche a tampa e olhe pra frente
O sol subirá como fogo ardente
E que da esperança
Se faça o brilho da dança
Que tu irás de executar
Enquanto aos poucos
Tudo ao passado ficar
À uma versão melhor de mim
A ti confio mais um de nosso fim
(01/01/2024, Ei-lo aqui, pedaço de mim?)
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