Escritas

Biografia

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Lista de Poemas

Total de poemas: 14 Página 2 de 2

Roleta-Russa

Os primeiros passos por degraus sonolentos 

Uma borboleta passa por mim, 

Dando rasantes pelo meu queixo 

Nem ao menos lhe dei um beijo

Ela sumiu ao primeiro lampejo. 

 

Minhas mãos percorrem pela parede

Teias de aranha, feitas de seda. 

Prendem os homens em pensamentos sinistros, 

Os queimam em seus próprios pecados. 

Mortos em uma prisão, de onde não se vê saída. 

Um fim do dia, que não se inicia. 

 

No alto, vejo janelas 

D’onde partem sombras 

Delirantes e alucinantes 

Dedos finos que acariciam 

A alma do aflito. 

 

Um corredor de portas se aventura 

Por um mundo de penúria 

Não importa minha decisão 

Destino é ilusão 

Eu salvaguardo decepção 

Por onde não faço previsão. 

 

Se abro da porta dos sonhos 

Sigo sempre perdido 

Seguindo os rastros 

Sem saber se estou vivo. 

 

Se aceito das portas ocultas 

De onde me fazem promessas 

Uma vida idílica 

Cheia de maravilhas. 

 

O preço? Abandonar meus anseios. 

Me mudar por inteiro. 

Largar daquilo que nunca deu dinheiro. 

Aceitar que a vida é apenas um preço. 

 

Se abro das portas das promessas, 

E abandono o meu ser

Encontro apenas 

Um revólver carregado, 

Com uma única bala. 

 

Se for para brincar de roleta-russa, 

Mantenho meu ser intacto. 

Meu destino inaudito. 

Se for para aceitar largar tudo, 

E aceitar das promessas do meu luto

Preencho com outras cápsulas,

E evito do infortúnio 

De se continuar neste mundo. 

 

(13/09/2023)

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Em Todo Lugar

Às vezes é apenas um tiro 

Direto na testa, assim que interessa 

Nem ao menos precisa de festa 

Ô Capitão, homem ao mar! 

Relaxa, é apenas mentira 

Cinzas de um reles mortal

Partindo em direção ao umbral. 

 

Na espuma do mar, o meu desfazer a se realizar 

Como café ralo, nem ao menos deixa amargo. 

 

Milhares de mim, correndo sem fim 

Indo ao fundo e voltando 

Me fundindo e recriando 

O cristalino do mar a me levar 

O sol sempre ao meu redor. 

 

Nunca me senti completo enquanto vivo 

Agora vou aprendendo, descobrindo 

Vivendo de uma vida que nunca pude ter 

Em cada momento, em cada destino. 

 

Nesses pequenos grãos que viajam 

Vou evoluindo e fluindo 

Senti mais do sol do que em toda a minha vida 

Aprendi com pessoas de idiomas que eu nem ao menos conheço 

Senti da chuva que alçava as ondas em direções furiosas 

Esbarrei em animais que nem ao menos notaram minha presença. 

 

Em algum lugar, minha consciência continuava a navegar 

Aprendendo de tudo, de cada pedaço perdido pelo mundo 

Nunca enxerguei do fim que me prometeram 

Apenas senti o prazer de ser livre. 

 

Passando pelas portas do universo 

Me tornando a poeira que avançou pelo vento 

Me fundindo a novas terras, novos horizontes 

Em novos planetas, sendo parte do chão de uma nova civilização 

Pelo céu voando como qualquer ave que nunca há de cair. 

 

Saiba que no dia em que parti 

Nunca foi tão fácil de me encontrar. 

 

 

(Em Todo Lugar, 24/04/2023)

*Poema escolhido pelo concurso “Poesia Br”, número 6, publicado em livro físico pela editora Versiprosa. 

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O Bolo

A escuridão era tão fechada 

Que de fechada se formou um bolo 

Um bolo fofo e escuro 

Que aos poucos engolia o mundo

Deveria ser engolida como bolo 

Mas como era escura como mofo 

O mundo foi tomado pela escuridão 

 

Eu a manuseei nas mãos 

Tão fofa e escura 

Que me fazia querer ver a lua 

Para talvez iluminar dessa massa escura 

Que de um bolo soturno 

Eu sabia ser o fim do mundo 

 

A mordi como se fosse o fim 

O fim de tudo 

De mim e do mundo 

De você e eu 

Quase me engasguei ao notar 

As notas pesadas de escuridão 

O pecado original 

Em sua total devassidão 

 

As asas formavam de massas escuras 

O bolo tinha asas 

Mas apenas de moscas ousadas 

Ela crescia em fúria dentro de mim 

A escuridão planava e zumbia 

Crescia e fugia 

Tomava meu corpo 

Como um bolo escuro 

Que tomou do mundo 

Toda a luz do fim do túnel 

 

Nem ao menos era de chocolate minha escuridão 

Era do mofo mais antigo do mundo 

Do odor acre que perpetua os pensamentos ruins 

A mordi com uma careta 

Mas as asas tentavam fugir pelas minhas orelhas 

 

Patinhas irresistíveis como o suplício 

De um chocolate amargo esquecido num prato 

Essa escuridão estranha 

Se tornou o mofo de minhas entranhas 

E de meu peito fez morada enlutada 

Tão pouco amada 

Por ter roubado da lua 

Toda a luz que habitava 

Num corredor escuro 

Na luz do fim do túnel 

O fim do mundo 

O fim de tudo 

 

O bolo estranho em meu prato 

Foi devorado em pedaços 

Escuro como os confins do mundo 

Agora bate asas para encontrar seu fim sozinho 

A escuridão do limbo 

Moscas negras que voam sem destreza 

É dessa infeliz tristeza 

Que elas se alimentam 

Para serem o bolo negro do meu peito 

 

Cansei de me ver perdido em versos 

Perversos como uma mosca escura 

Que foge da lua 

Enquanto paira pelo bolo de mofo 

Que comi aos poucos 

E agora sinto do estorvo 

De continuar essa caminhada 

Sem doce nem nada 

Apenas do amargo largo 

Que deixei todo quebrado 

 

De joelhos no chão 

O bolo negro me deu indigestão 

Sinto corroendo minhas entranhas 

A noite tomando a lua 

Tirando do céu, o pouco que resta do véu 

Não era a noiva que eu queria tirar para dançar 

 

Abro meu peito em completo desespero 

Uma nuvem de escuridão zomba de mim 

Atravessa pela noite se fundindo aos açoites 

A luz paira outra vez 

Diante de mim, 

Mesmo antes do fim 

 

Obrigado por não me deixar partir 

As moscas saíram de mim 

Agora já posso dormir 

E fingir que nunca vim aqui 

 

Nunca um chocolate amargo 

Me custou tão caro 

 

(01/12/2023, O Bolo)

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Melancolia

A melancolia era como um raio

Um raio azul que me atingiu 

Tingiu o mundo do mais terrível azul 

 

Era um oceano onde eu me afogava 

Mergulhava tão fundo 

Que por vezes não queria retornar 

 

Enxergava do mundo 

Como por uma fresta de porta 

Aberta, entreaberta 

A boca que me dizia coisas 

Ininteligíveis 

Mas ela se fechava como uma rajada 

 

De um raio tão azul 

Que deixava marcas em meu corpo 

A eletricidade que trouxe um louco à vida 

Poderia ser o que tiraria o de outro louco 

Mesmo que um pouco 

Mesmo que por pouco 

Não estava eu tão louco? 

 

Talvez nunca normal 

Não ao ponto de saber a diferença 

 

Pela fresta azul da boca de um oceano 

Desembocava o raio que mataria os loucos 

Mesmo que afogados em seus raios 

Os loucos, perdidos 

Pediam por raios 

 

Mas eram azuis 

Do azul da solidão 

Da melancolia que atraía depressão 

A porta que se fechou 

Profetizou meu coração 

Fechado para o agrado 

Apenas louco desvairado 

 

Coração cheio de raios 

Que contornavam em veias azuis 

Saturadas de dor 

A melancolia era uma veia azul inchada 

Causava arritmia ao se ver tão linda 

Arrebentava em frios raios azuis 

A pulsação azul de quem enlouqueceu ao se fechar a porta 

 

Mas eram dos raios que eu tinha medo 

O alto ribombar de um coração batendo 

A porta que fechava no escuro 

Deixando em trevas o azul noturno 

 

Era do azul que eu tinha medo 

O raio que cruzaria meu coração 

Partiria das veias da decepção 

Um último suspiro ininteligível de um louco

O trovão do ribombar de um coração 

A porta se abre para um oceano azul 

 

Mas era da melancolia triste 

Azulada e inchada 

Que deixava escapar 

De um último raio azul 

Que matava afogado aquele louco 

Num oceano de raios azuis 

Onde apenas ao fechar da porta 

Que se manteria aberta o azul que importa 

 

(Melancolia, 04/11/2023)

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