Biografia
Lista de Poemas
Roleta-Russa
Os primeiros passos por degraus sonolentos
Uma borboleta passa por mim,
Dando rasantes pelo meu queixo
Nem ao menos lhe dei um beijo
Ela sumiu ao primeiro lampejo.
Minhas mãos percorrem pela parede
Teias de aranha, feitas de seda.
Prendem os homens em pensamentos sinistros,
Os queimam em seus próprios pecados.
Mortos em uma prisão, de onde não se vê saída.
Um fim do dia, que não se inicia.
No alto, vejo janelas
D’onde partem sombras
Delirantes e alucinantes
Dedos finos que acariciam
A alma do aflito.
Um corredor de portas se aventura
Por um mundo de penúria
Não importa minha decisão
Destino é ilusão
Eu salvaguardo decepção
Por onde não faço previsão.
Se abro da porta dos sonhos
Sigo sempre perdido
Seguindo os rastros
Sem saber se estou vivo.
Se aceito das portas ocultas
De onde me fazem promessas
Uma vida idílica
Cheia de maravilhas.
O preço? Abandonar meus anseios.
Me mudar por inteiro.
Largar daquilo que nunca deu dinheiro.
Aceitar que a vida é apenas um preço.
Se abro das portas das promessas,
E abandono o meu ser
Encontro apenas
Um revólver carregado,
Com uma única bala.
Se for para brincar de roleta-russa,
Mantenho meu ser intacto.
Meu destino inaudito.
Se for para aceitar largar tudo,
E aceitar das promessas do meu luto
Preencho com outras cápsulas,
E evito do infortúnio
De se continuar neste mundo.
(13/09/2023)
Em Todo Lugar
Às vezes é apenas um tiro
Direto na testa, assim que interessa
Nem ao menos precisa de festa
Ô Capitão, homem ao mar!
Relaxa, é apenas mentira
Cinzas de um reles mortal
Partindo em direção ao umbral.
Na espuma do mar, o meu desfazer a se realizar
Como café ralo, nem ao menos deixa amargo.
Milhares de mim, correndo sem fim
Indo ao fundo e voltando
Me fundindo e recriando
O cristalino do mar a me levar
O sol sempre ao meu redor.
Nunca me senti completo enquanto vivo
Agora vou aprendendo, descobrindo
Vivendo de uma vida que nunca pude ter
Em cada momento, em cada destino.
Nesses pequenos grãos que viajam
Vou evoluindo e fluindo
Senti mais do sol do que em toda a minha vida
Aprendi com pessoas de idiomas que eu nem ao menos conheço
Senti da chuva que alçava as ondas em direções furiosas
Esbarrei em animais que nem ao menos notaram minha presença.
Em algum lugar, minha consciência continuava a navegar
Aprendendo de tudo, de cada pedaço perdido pelo mundo
Nunca enxerguei do fim que me prometeram
Apenas senti o prazer de ser livre.
Passando pelas portas do universo
Me tornando a poeira que avançou pelo vento
Me fundindo a novas terras, novos horizontes
Em novos planetas, sendo parte do chão de uma nova civilização
Pelo céu voando como qualquer ave que nunca há de cair.
Saiba que no dia em que parti
Nunca foi tão fácil de me encontrar.
(Em Todo Lugar, 24/04/2023)
*Poema escolhido pelo concurso “Poesia Br”, número 6, publicado em livro físico pela editora Versiprosa.
O Bolo
A escuridão era tão fechada
Que de fechada se formou um bolo
Um bolo fofo e escuro
Que aos poucos engolia o mundo
Deveria ser engolida como bolo
Mas como era escura como mofo
O mundo foi tomado pela escuridão
Eu a manuseei nas mãos
Tão fofa e escura
Que me fazia querer ver a lua
Para talvez iluminar dessa massa escura
Que de um bolo soturno
Eu sabia ser o fim do mundo
A mordi como se fosse o fim
O fim de tudo
De mim e do mundo
De você e eu
Quase me engasguei ao notar
As notas pesadas de escuridão
O pecado original
Em sua total devassidão
As asas formavam de massas escuras
O bolo tinha asas
Mas apenas de moscas ousadas
Ela crescia em fúria dentro de mim
A escuridão planava e zumbia
Crescia e fugia
Tomava meu corpo
Como um bolo escuro
Que tomou do mundo
Toda a luz do fim do túnel
Nem ao menos era de chocolate minha escuridão
Era do mofo mais antigo do mundo
Do odor acre que perpetua os pensamentos ruins
A mordi com uma careta
Mas as asas tentavam fugir pelas minhas orelhas
Patinhas irresistíveis como o suplício
De um chocolate amargo esquecido num prato
Essa escuridão estranha
Se tornou o mofo de minhas entranhas
E de meu peito fez morada enlutada
Tão pouco amada
Por ter roubado da lua
Toda a luz que habitava
Num corredor escuro
Na luz do fim do túnel
O fim do mundo
O fim de tudo
O bolo estranho em meu prato
Foi devorado em pedaços
Escuro como os confins do mundo
Agora bate asas para encontrar seu fim sozinho
A escuridão do limbo
Moscas negras que voam sem destreza
É dessa infeliz tristeza
Que elas se alimentam
Para serem o bolo negro do meu peito
Cansei de me ver perdido em versos
Perversos como uma mosca escura
Que foge da lua
Enquanto paira pelo bolo de mofo
Que comi aos poucos
E agora sinto do estorvo
De continuar essa caminhada
Sem doce nem nada
Apenas do amargo largo
Que deixei todo quebrado
De joelhos no chão
O bolo negro me deu indigestão
Sinto corroendo minhas entranhas
A noite tomando a lua
Tirando do céu, o pouco que resta do véu
Não era a noiva que eu queria tirar para dançar
Abro meu peito em completo desespero
Uma nuvem de escuridão zomba de mim
Atravessa pela noite se fundindo aos açoites
A luz paira outra vez
Diante de mim,
Mesmo antes do fim
Obrigado por não me deixar partir
As moscas saíram de mim
Agora já posso dormir
E fingir que nunca vim aqui
Nunca um chocolate amargo
Me custou tão caro
(01/12/2023, O Bolo)
Melancolia
A melancolia era como um raio
Um raio azul que me atingiu
Tingiu o mundo do mais terrível azul
Era um oceano onde eu me afogava
Mergulhava tão fundo
Que por vezes não queria retornar
Enxergava do mundo
Como por uma fresta de porta
Aberta, entreaberta
A boca que me dizia coisas
Ininteligíveis
Mas ela se fechava como uma rajada
De um raio tão azul
Que deixava marcas em meu corpo
A eletricidade que trouxe um louco à vida
Poderia ser o que tiraria o de outro louco
Mesmo que um pouco
Mesmo que por pouco
Não estava eu tão louco?
Talvez nunca normal
Não ao ponto de saber a diferença
Pela fresta azul da boca de um oceano
Desembocava o raio que mataria os loucos
Mesmo que afogados em seus raios
Os loucos, perdidos
Pediam por raios
Mas eram azuis
Do azul da solidão
Da melancolia que atraía depressão
A porta que se fechou
Profetizou meu coração
Fechado para o agrado
Apenas louco desvairado
Coração cheio de raios
Que contornavam em veias azuis
Saturadas de dor
A melancolia era uma veia azul inchada
Causava arritmia ao se ver tão linda
Arrebentava em frios raios azuis
A pulsação azul de quem enlouqueceu ao se fechar a porta
Mas eram dos raios que eu tinha medo
O alto ribombar de um coração batendo
A porta que fechava no escuro
Deixando em trevas o azul noturno
Era do azul que eu tinha medo
O raio que cruzaria meu coração
Partiria das veias da decepção
Um último suspiro ininteligível de um louco
O trovão do ribombar de um coração
A porta se abre para um oceano azul
Mas era da melancolia triste
Azulada e inchada
Que deixava escapar
De um último raio azul
Que matava afogado aquele louco
Num oceano de raios azuis
Onde apenas ao fechar da porta
Que se manteria aberta o azul que importa
(Melancolia, 04/11/2023)
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