O Meu Eu Feio
A chuva tamborila na janela
Os trovões me acordam aos pulos
Não consigo dormir
Percorro meu apartamento,
Como um sonâmbulo
O que me aflige?
O que não me deixa dormir?
Sinto que luto contra algo
Algo que tenta dominar meus sentidos.
Na chuva, de capa preta
Uma sombra me observa lá de baixo.
Perscrutando formas de entrar.
Corro, tonto
Sem saber para onde ir.
Mal reconheço da luz parca
Que não ilumina nada.
Algo sinistro tenta me invadir,
Tenta usufruir daquilo
Que deveria ser meu reino.
Batidas lentas na porta
Pelo olho mágico,
Enxergo apenas o capuz preto
Do meu lado da porta
Ouço apenas a respiração...
Me afasto sem fazer barulho
Me entrego ao submundo
Soturno e arguto
Onde nada passa despercebido
Muito menos sem ser sentido.
A maçaneta se mexe,
Gestos que se repetem,
Meu peito sobe e desce
Que mal é esse que me persegue?
Grito:
“Entre criatura desgraçada,
E me faça o favor
De levar minha alma”.
A porta se abre, lenta
Morosa
Preguiçosa
Como quem não tem pressa
De sugar alma
E sangue de inocentes.
Fico parado
Apenas um depravado
Um voyeur desgraçado
Aguardando o fim
Daquilo que me clama
Fazer de mim
O que se apaga a flama
Curvado e magro
Feições distorcidas do próprio mal
Faz de minha casa
A sepultura final.
Lambe de minhas comidas,
Destrói minhas cortinas.
Deita em minha cama,
Como se fosse sua própria.
Olha para mim com escárnio,
Brinca com meus medos
Como quem retira do oxigênio.
Me sinto enlouquecendo aos poucos
Perdendo minha retidão
Me entregando à ilusão
Não consigo dar passo
Apenas aos percalços
É que foi deixando,
O pior de mim
Me levar para o fim.
Tudo isso que eu vejo
Através de tanto desespero
É o vislumbre de um ensejo
Ato final de quem morre ao leito.
A criatura zomba de mim
Troça de minhas propostas
Para ele não passo de um bosta
Largado por aí,
Sem ninguém a se lembrar de mim.
Ela tira o capuz
E em meio à escuridão
Não é possível se ver distinção
Somos um...
Apenas um...
Meu outro eu feio
É apenas como me enxergo
O tempo inteiro.
Nossa relação é assim
Um se escondendo do outro
Um culpando o outro
Pelos erros esquecidos
E ainda por aqueles
Que ainda vem vindo.
Nos batemos e socamos
Nosso ódio é mundano
Sabemos que o fim
É matarmos um ao outro.
Pois aqui, em nosso templo
Dividimos ao mesmo tempo
A mesma mente e corpo
De que se faz um esgoto.
Das paredes rachadas
Dos trincos quebrados
Nada mais fica dentro
Nada mais precisa pular pra fora
Nossa mente está aberta
Para visitação,
Daquele que tira disso
Algum tesão.
Desligo as luzes
Deixo sucumbir
Daquilo que não permito partir
Das dores ocultas,
Divididas entre versões de mim
Apenas me deito,
E dos trovões lá de fora
Faço de trilha sonora
De quem decide deixar
O que de pior
Se possa entrar.
(20/09/2023)
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