Escritas

O Meu Eu Feio

Sérgio B Vianna

A chuva tamborila na janela 

Os trovões me acordam aos pulos

Não consigo dormir 

Percorro meu apartamento, 

Como um sonâmbulo

O que me aflige? 

O que não me deixa dormir? 

 

Sinto que luto contra algo 

Algo que tenta dominar meus sentidos. 

Na chuva, de capa preta

Uma sombra me observa lá de baixo. 

Perscrutando formas de entrar. 

 

Corro, tonto 

Sem saber para onde ir. 

Mal reconheço da luz parca 

Que não ilumina nada. 

Algo sinistro tenta me invadir, 

Tenta usufruir daquilo 

Que deveria ser meu reino. 

 

Batidas lentas na porta 

Pelo olho mágico, 

Enxergo apenas o capuz preto

Do meu lado da porta

Ouço apenas a respiração... 

 

Me afasto sem fazer barulho

Me entrego ao submundo

Soturno e arguto 

Onde nada passa despercebido

Muito menos sem ser sentido. 

 

A maçaneta se mexe, 

Gestos que se repetem,

Meu peito sobe e desce 

Que mal é esse que me persegue? 

 

Grito:

“Entre criatura desgraçada,   

E me faça o favor 

De levar minha alma”.

 

A porta se abre, lenta

Morosa

Preguiçosa

Como quem não tem pressa 

De sugar alma 

E sangue de inocentes. 

 

Fico parado 

Apenas um depravado 

Um voyeur desgraçado

Aguardando o fim 

Daquilo que me clama 

Fazer de mim 

O que se apaga a flama

 

Curvado e magro

Feições distorcidas do próprio mal 

Faz de minha casa 

A sepultura final. 

Lambe de minhas comidas, 

Destrói minhas cortinas. 

Deita em minha cama, 

Como se fosse sua própria. 

Olha para mim com escárnio,  

Brinca com meus medos 

Como quem retira do oxigênio. 

 

Me sinto enlouquecendo aos poucos

Perdendo minha retidão 

Me entregando à ilusão 

Não consigo dar passo 

Apenas aos percalços

É que foi deixando, 

O pior de mim 

Me levar para o fim. 

 

Tudo isso que eu vejo 

Através de tanto desespero 

É o vislumbre de um ensejo

Ato final de quem morre ao leito. 

 

A criatura zomba de mim 

Troça de minhas propostas 

Para ele não passo de um bosta 

Largado por aí, 

Sem ninguém a se lembrar de mim. 

 

Ela tira o capuz 

E em meio à escuridão 

Não é possível se ver distinção 

Somos um... 

 

Apenas um... 

Meu outro eu feio 

É apenas como me enxergo 

O tempo inteiro. 

 

Nossa relação é assim 

Um se escondendo do outro 

Um culpando o outro

Pelos erros esquecidos 

E ainda por aqueles 

Que ainda vem vindo. 

 

Nos batemos e socamos 

Nosso ódio é mundano 

Sabemos que o fim 

É matarmos um ao outro.  

 

Pois aqui, em nosso templo

Dividimos ao mesmo tempo

A mesma mente e corpo

De que se faz um esgoto. 

 

Das paredes rachadas 

Dos trincos quebrados 

Nada mais fica dentro 

Nada mais precisa pular pra fora

Nossa mente está aberta 

Para visitação, 

Daquele que tira disso 

Algum tesão. 

 

Desligo as luzes 

Deixo sucumbir 

Daquilo que não permito partir 

Das dores ocultas, 

Divididas entre versões de mim

Apenas me deito, 

E dos trovões lá de fora 

Faço de trilha sonora 

De quem decide deixar 

O que de pior 

Se possa entrar. 

 

(20/09/2023)