Sérgio B Vianna

Sérgio B Vianna

n. 1994 BR BR

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n. 1994-02-08

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Ei-lo Aqui, Pedaço de mim?

Ei-lo aqui, pedaço de mim? 

Tu não sabes a distância que percorremos

Pelas veredas a qual passamos

Mas sinto-me velho, como um novelo enrugado

E nem ao menos cruzamos de trinta veranos 

Mas sinto em minha alma, que de mil invernos

Me fizeram um velho, todo coberto

Por medos e versos frios como a neve

 

Todos cultivam de seu próprio inferno 

Ao menos neste ano abri o meu para visitação 

E nem ao menos sei se teremos companhia

Nesta triste estadia, em que fizemos moradia

 

O frio trevoso dos invernos passados 

Mutilaram as extremidades de meus dedos cansados

Como quem surrupia algo de outrem 

Me roubaram da felicidade esquecida 

Que agora lamento, com lágrimas ao vento

 

Sentindo este cheiro?

Nosso corpo apodrece numa cama qualquer

A sepultura aguarda, como o beijo da amada

Dê-me um último selinho, seu pedaço vizinho

E nos separe para sempre, com uma pá de semente

 

Enquanto uma parte cresce 

A outra se esquece 

 

E com um ranger de dentes

Feche a tampa e olhe pra frente

O sol subirá como fogo ardente

E que da esperança 

Se faça o brilho da dança 

 

Que tu irás de executar 

Enquanto aos poucos 

Tudo ao passado ficar 

 

À uma versão melhor de mim

A ti confio mais um de nosso fim

 

(01/01/2024, Ei-lo aqui, pedaço de mim?)

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Poemas

14

Ei-lo Aqui, Pedaço de mim?

Ei-lo aqui, pedaço de mim? 

Tu não sabes a distância que percorremos

Pelas veredas a qual passamos

Mas sinto-me velho, como um novelo enrugado

E nem ao menos cruzamos de trinta veranos 

Mas sinto em minha alma, que de mil invernos

Me fizeram um velho, todo coberto

Por medos e versos frios como a neve

 

Todos cultivam de seu próprio inferno 

Ao menos neste ano abri o meu para visitação 

E nem ao menos sei se teremos companhia

Nesta triste estadia, em que fizemos moradia

 

O frio trevoso dos invernos passados 

Mutilaram as extremidades de meus dedos cansados

Como quem surrupia algo de outrem 

Me roubaram da felicidade esquecida 

Que agora lamento, com lágrimas ao vento

 

Sentindo este cheiro?

Nosso corpo apodrece numa cama qualquer

A sepultura aguarda, como o beijo da amada

Dê-me um último selinho, seu pedaço vizinho

E nos separe para sempre, com uma pá de semente

 

Enquanto uma parte cresce 

A outra se esquece 

 

E com um ranger de dentes

Feche a tampa e olhe pra frente

O sol subirá como fogo ardente

E que da esperança 

Se faça o brilho da dança 

 

Que tu irás de executar 

Enquanto aos poucos 

Tudo ao passado ficar 

 

À uma versão melhor de mim

A ti confio mais um de nosso fim

 

(01/01/2024, Ei-lo aqui, pedaço de mim?)

267

Uma Doença Silenciosa

Os ratos que vagam por ruas escuras 

São trevas em capas de pelos 

As luzes amarelas das janelas 

Os olhos que já não tem lágrimas para chorar 

Por dentro, cada alma sofre em silêncio 

Em seu desespero mundano 

 

Estou em febre, morro aos poucos 

Sinto das mãos que tocam minha alma 

Desespero 

Sinto dos ratos que procuram uma saída de minha pele 

Dor, infinita dor 

Rolo de um lado para o outro 

Grito, mas a areia sufoca minha garganta 

Não ouço nada, pois meus ouvidos mocos 

Estão lascados pela escória do mundo 

 

Vejo duas sombras que andam 

Narizes imensos 

Anjos da morte 

Capas como asas 

Não batem senão para levar os vivos 

Olham para mim 

Tocam minha pele 

Querem-me vivo, ou querem-me morto? 

Talvez só mais um pouco… 

 

Os bulbos escuros que perfuram minha pele 

São os tambores que guardam minha dor 

Toda a minha febre são as repulsas dos pensamentos 

Que não consigo me desfazer 

O chapéu negro paira sobre mim 

A peste negra de quem se entregou 

Sem nem ao menos saber para onde vai

Um mar de fúria e escuridão 

Nem ao menos sei se estou no oceano ou a caminho do céu 

Os raios que caem são músicas doces que espantam minhas dores 

 

Percorra minha pele 

Quebre minhas maldições 

Hoje depositarei em poemas toda a minha febre 

Que a cavalaria da peste negra tanto clama por mim 

São os tímpanos sensíveis de patas suadas 

Ah, sim 

Patinhas suadas que coçam minha mente 

As vozes finas que percorrem minhas veias 

 

Um bulbo se estoura 

Mas é no silêncio da noite 

Os outros diriam que somos fracos demais 

Mas se somos fracos demais… 

Por que um surto se estende pela noite? 

Por qual motivo tanta peste negra habita nos corações perdidos? 

 

Somos um surto 

Que nasce de uma febre coletiva 

Mas este mal que nos habita 

Não é fraqueza 

A fraqueza veio dos ossos 

Os bulbos nasceram da falta de luz 

 

O nariz longo falta me bicar 

Tomara que seja rápido como um pássaro 

E que deixe para trás uma única pena negra 

Roubada do pouquinho de trevas 

Que não expulsei de minha alma 

 

(18/11/2023, Uma Doença Silenciosa) 

172

Me Exorcize

Quando chegar minha hora 

E colocarem gentilmente meu corpo

Num sepulcro escuro 

Em algum momento eu perfurarei a terra

E me arrastarei até você 

Sentindo das lágrimas que escorrem 

Pelo seu belo rosto pálido 

 

Mas serei frio como um pensamento ruim

Serei apenas lembrança de uma dor latente

 

Não tema das ondulações do tempo, 

E me exorcize com um novo amor. 

 

 

(19/10/2023, Me Exorcize.)

*Poema escolhido pelo Dia Nacional do Poeta, e publicado no perfil @sececrj, Secretaria de Estado e Cultura e Economia do Rio de Janeiro. 

185

O Bolo

A escuridão era tão fechada 

Que de fechada se formou um bolo 

Um bolo fofo e escuro 

Que aos poucos engolia o mundo

Deveria ser engolida como bolo 

Mas como era escura como mofo 

O mundo foi tomado pela escuridão 

 

Eu a manuseei nas mãos 

Tão fofa e escura 

Que me fazia querer ver a lua 

Para talvez iluminar dessa massa escura 

Que de um bolo soturno 

Eu sabia ser o fim do mundo 

 

A mordi como se fosse o fim 

O fim de tudo 

De mim e do mundo 

De você e eu 

Quase me engasguei ao notar 

As notas pesadas de escuridão 

O pecado original 

Em sua total devassidão 

 

As asas formavam de massas escuras 

O bolo tinha asas 

Mas apenas de moscas ousadas 

Ela crescia em fúria dentro de mim 

A escuridão planava e zumbia 

Crescia e fugia 

Tomava meu corpo 

Como um bolo escuro 

Que tomou do mundo 

Toda a luz do fim do túnel 

 

Nem ao menos era de chocolate minha escuridão 

Era do mofo mais antigo do mundo 

Do odor acre que perpetua os pensamentos ruins 

A mordi com uma careta 

Mas as asas tentavam fugir pelas minhas orelhas 

 

Patinhas irresistíveis como o suplício 

De um chocolate amargo esquecido num prato 

Essa escuridão estranha 

Se tornou o mofo de minhas entranhas 

E de meu peito fez morada enlutada 

Tão pouco amada 

Por ter roubado da lua 

Toda a luz que habitava 

Num corredor escuro 

Na luz do fim do túnel 

O fim do mundo 

O fim de tudo 

 

O bolo estranho em meu prato 

Foi devorado em pedaços 

Escuro como os confins do mundo 

Agora bate asas para encontrar seu fim sozinho 

A escuridão do limbo 

Moscas negras que voam sem destreza 

É dessa infeliz tristeza 

Que elas se alimentam 

Para serem o bolo negro do meu peito 

 

Cansei de me ver perdido em versos 

Perversos como uma mosca escura 

Que foge da lua 

Enquanto paira pelo bolo de mofo 

Que comi aos poucos 

E agora sinto do estorvo 

De continuar essa caminhada 

Sem doce nem nada 

Apenas do amargo largo 

Que deixei todo quebrado 

 

De joelhos no chão 

O bolo negro me deu indigestão 

Sinto corroendo minhas entranhas 

A noite tomando a lua 

Tirando do céu, o pouco que resta do véu 

Não era a noiva que eu queria tirar para dançar 

 

Abro meu peito em completo desespero 

Uma nuvem de escuridão zomba de mim 

Atravessa pela noite se fundindo aos açoites 

A luz paira outra vez 

Diante de mim, 

Mesmo antes do fim 

 

Obrigado por não me deixar partir 

As moscas saíram de mim 

Agora já posso dormir 

E fingir que nunca vim aqui 

 

Nunca um chocolate amargo 

Me custou tão caro 

 

(01/12/2023, O Bolo)

178

Natasha

Natasha

Minha acácia, Natasha 

Encontrei seu amor 

Me perfumei em seu sabor

Seus espinhos não feriram 

Da pela dura de meu íntimo

 

Ao se ver madura, 

Se abre tão escura

Ao se ver ainda jovem, 

Se mantem dura como a lua

 

Não sei se consigo semear 

De tal mulher tão solta

Não é que eu tenha medo

Apenas não me vejo em teu seio

 

Dos ramos que florescem 

Queria ter eu apenas uma flor

Apenas uma flor, seja de acácia

Ou de Natasha

 

Seria eu em você 

Seríamos um, mesmo em alguns

Para que no outono, 

O vento solto 

Me levasse ainda absorto 

Pelo tempo amado 

Mesmo que agora largado

 

Talvez em um novo florescer 

Numa primavera eu volte a te ter 

Mesmo que com tempo marcado 

Estarei radiante 

Até ser envelhecido 

Por ter meu amor vencido. 

188

Melancolia

A melancolia era como um raio

Um raio azul que me atingiu 

Tingiu o mundo do mais terrível azul 

 

Era um oceano onde eu me afogava 

Mergulhava tão fundo 

Que por vezes não queria retornar 

 

Enxergava do mundo 

Como por uma fresta de porta 

Aberta, entreaberta 

A boca que me dizia coisas 

Ininteligíveis 

Mas ela se fechava como uma rajada 

 

De um raio tão azul 

Que deixava marcas em meu corpo 

A eletricidade que trouxe um louco à vida 

Poderia ser o que tiraria o de outro louco 

Mesmo que um pouco 

Mesmo que por pouco 

Não estava eu tão louco? 

 

Talvez nunca normal 

Não ao ponto de saber a diferença 

 

Pela fresta azul da boca de um oceano 

Desembocava o raio que mataria os loucos 

Mesmo que afogados em seus raios 

Os loucos, perdidos 

Pediam por raios 

 

Mas eram azuis 

Do azul da solidão 

Da melancolia que atraía depressão 

A porta que se fechou 

Profetizou meu coração 

Fechado para o agrado 

Apenas louco desvairado 

 

Coração cheio de raios 

Que contornavam em veias azuis 

Saturadas de dor 

A melancolia era uma veia azul inchada 

Causava arritmia ao se ver tão linda 

Arrebentava em frios raios azuis 

A pulsação azul de quem enlouqueceu ao se fechar a porta 

 

Mas eram dos raios que eu tinha medo 

O alto ribombar de um coração batendo 

A porta que fechava no escuro 

Deixando em trevas o azul noturno 

 

Era do azul que eu tinha medo 

O raio que cruzaria meu coração 

Partiria das veias da decepção 

Um último suspiro ininteligível de um louco

O trovão do ribombar de um coração 

A porta se abre para um oceano azul 

 

Mas era da melancolia triste 

Azulada e inchada 

Que deixava escapar 

De um último raio azul 

Que matava afogado aquele louco 

Num oceano de raios azuis 

Onde apenas ao fechar da porta 

Que se manteria aberta o azul que importa 

 

(Melancolia, 04/11/2023)

197

O Meu Eu Feio

A chuva tamborila na janela 

Os trovões me acordam aos pulos

Não consigo dormir 

Percorro meu apartamento, 

Como um sonâmbulo

O que me aflige? 

O que não me deixa dormir? 

 

Sinto que luto contra algo 

Algo que tenta dominar meus sentidos. 

Na chuva, de capa preta

Uma sombra me observa lá de baixo. 

Perscrutando formas de entrar. 

 

Corro, tonto 

Sem saber para onde ir. 

Mal reconheço da luz parca 

Que não ilumina nada. 

Algo sinistro tenta me invadir, 

Tenta usufruir daquilo 

Que deveria ser meu reino. 

 

Batidas lentas na porta 

Pelo olho mágico, 

Enxergo apenas o capuz preto

Do meu lado da porta

Ouço apenas a respiração... 

 

Me afasto sem fazer barulho

Me entrego ao submundo

Soturno e arguto 

Onde nada passa despercebido

Muito menos sem ser sentido. 

 

A maçaneta se mexe, 

Gestos que se repetem,

Meu peito sobe e desce 

Que mal é esse que me persegue? 

 

Grito:

“Entre criatura desgraçada,   

E me faça o favor 

De levar minha alma”.

 

A porta se abre, lenta

Morosa

Preguiçosa

Como quem não tem pressa 

De sugar alma 

E sangue de inocentes. 

 

Fico parado 

Apenas um depravado 

Um voyeur desgraçado

Aguardando o fim 

Daquilo que me clama 

Fazer de mim 

O que se apaga a flama

 

Curvado e magro

Feições distorcidas do próprio mal 

Faz de minha casa 

A sepultura final. 

Lambe de minhas comidas, 

Destrói minhas cortinas. 

Deita em minha cama, 

Como se fosse sua própria. 

Olha para mim com escárnio,  

Brinca com meus medos 

Como quem retira do oxigênio. 

 

Me sinto enlouquecendo aos poucos

Perdendo minha retidão 

Me entregando à ilusão 

Não consigo dar passo 

Apenas aos percalços

É que foi deixando, 

O pior de mim 

Me levar para o fim. 

 

Tudo isso que eu vejo 

Através de tanto desespero 

É o vislumbre de um ensejo

Ato final de quem morre ao leito. 

 

A criatura zomba de mim 

Troça de minhas propostas 

Para ele não passo de um bosta 

Largado por aí, 

Sem ninguém a se lembrar de mim. 

 

Ela tira o capuz 

E em meio à escuridão 

Não é possível se ver distinção 

Somos um... 

 

Apenas um... 

Meu outro eu feio 

É apenas como me enxergo 

O tempo inteiro. 

 

Nossa relação é assim 

Um se escondendo do outro 

Um culpando o outro

Pelos erros esquecidos 

E ainda por aqueles 

Que ainda vem vindo. 

 

Nos batemos e socamos 

Nosso ódio é mundano 

Sabemos que o fim 

É matarmos um ao outro.  

 

Pois aqui, em nosso templo

Dividimos ao mesmo tempo

A mesma mente e corpo

De que se faz um esgoto. 

 

Das paredes rachadas 

Dos trincos quebrados 

Nada mais fica dentro 

Nada mais precisa pular pra fora

Nossa mente está aberta 

Para visitação, 

Daquele que tira disso 

Algum tesão. 

 

Desligo as luzes 

Deixo sucumbir 

Daquilo que não permito partir 

Das dores ocultas, 

Divididas entre versões de mim

Apenas me deito, 

E dos trovões lá de fora 

Faço de trilha sonora 

De quem decide deixar 

O que de pior 

Se possa entrar. 

 

(20/09/2023) 

176

Roleta-Russa

Os primeiros passos por degraus sonolentos 

Uma borboleta passa por mim, 

Dando rasantes pelo meu queixo 

Nem ao menos lhe dei um beijo

Ela sumiu ao primeiro lampejo. 

 

Minhas mãos percorrem pela parede

Teias de aranha, feitas de seda. 

Prendem os homens em pensamentos sinistros, 

Os queimam em seus próprios pecados. 

Mortos em uma prisão, de onde não se vê saída. 

Um fim do dia, que não se inicia. 

 

No alto, vejo janelas 

D’onde partem sombras 

Delirantes e alucinantes 

Dedos finos que acariciam 

A alma do aflito. 

 

Um corredor de portas se aventura 

Por um mundo de penúria 

Não importa minha decisão 

Destino é ilusão 

Eu salvaguardo decepção 

Por onde não faço previsão. 

 

Se abro da porta dos sonhos 

Sigo sempre perdido 

Seguindo os rastros 

Sem saber se estou vivo. 

 

Se aceito das portas ocultas 

De onde me fazem promessas 

Uma vida idílica 

Cheia de maravilhas. 

 

O preço? Abandonar meus anseios. 

Me mudar por inteiro. 

Largar daquilo que nunca deu dinheiro. 

Aceitar que a vida é apenas um preço. 

 

Se abro das portas das promessas, 

E abandono o meu ser

Encontro apenas 

Um revólver carregado, 

Com uma única bala. 

 

Se for para brincar de roleta-russa, 

Mantenho meu ser intacto. 

Meu destino inaudito. 

Se for para aceitar largar tudo, 

E aceitar das promessas do meu luto

Preencho com outras cápsulas,

E evito do infortúnio 

De se continuar neste mundo. 

 

(13/09/2023)

179

Lilith

És tão bela e amena como um dia de verão… 

Não, poema errado. 

Se em meus brados te acordo 

Entre as tumbas esquecidas 

É porque de ti ainda não me desfiz. 

 

Se em teu seio eu me fiz feliz 

Um parceiro para esta vil vida 

Então aqui retorno para fazer meus votos 

Do meu sangue eu te dou 

De meu coração abro mão 

 

Tudo para lhe retomar a razão 

Te trazer de volta ao perdão 

 

Caminhei ao teu lado pelos campos escuros 

Onde sol algum tocaria nossas peles 

De mãos dadas pelas lápides, proferimos promessas 

Destas apenas da morte você ainda a cumprir 

 

Em teus olhos vermelhos 

Dos lábios escuros 

Do cabelo da noite 

A ti me entrego por inteiro 

 

Seu fiel escudeiro 

O cavaleiro negro 

Do castelo de pedra 

Que tombaria céu ao chão 

Congelaria o inferno em prisão 

 

Se de tua alma a me escapar 

Então não terei escolha senão me matar 

Para do outro lado continuar sendo teu bardo 

Que ao cantar minhas letras 

Tão perdidas em trevas 

Te encontrem no amor, por onde escondo minha dor. 

 

No véu negro da noite 

Por onde anda teus pés 

Me farei teu refém

Que leve para o além 

Onde ninguém me retém. 

 

Deitados em caixões 

Sem velas em porões 

Te abro minha veia 

Como quem uma torneira 

E deixo escorrer, do elixir de viver 

 

Voando no céu pelos ares de véu 

Um morcego qualquer 

A procura de fé 

Caindo aos teus pés 

Carente por sangue 

Em teu seio crispado. 

 

Lilith, minha Rainha do amor 

Se nos outros causa pavor 

Saiba que em mim nunca faltará calor 

 

És tão bela e amena como meia-noite de inverno 

Onde o frio emplaca o sentimento que mata 

Em teu vestido negro salpicado de rubro 

Rubis de um vinho nada caro em te dar 

Te beijo no infinito prazer 

Onde sei que nunca vou te perder 

 

Nesta lua tão branda que em meu sentimento espanta 

Qualquer medo do escuro 

Que num passado soturno 

Aguardei por você, em cada sombra na parede 

Cada sussurro no escuro 

Uma mão em meu peito 

 

Um latejar imperfeito 

De quem te ama no leito. 

 

(Lilith, 24/04/2023)

*Poema escolhido pelo concurso do Projeto Apparere, e publicado em livro físico na 7º Coletânea de Poemas, Sonetos e Cordéis. 

237

Te Dedico

Dedico o meu tempo a alguém que nunca me amou, 

Seja em prosa, em música ou em letras maiúsculas, 

Gritadas pelas paredes ocas de meu coração. 

Coração, este em que guardo as piores delas 

Como em sepulcros soturnos, 

Por vezes aberto apenas como um desejo mórbido 

De lembrar de nós dois. 

 

Por onde andas tu?

Ainda omitindo, mentindo

Para quem lhe entregou seu coração? 

Ainda fingindo sentir, algo que seu frio reinado de gelo, 

Congelou e matou, para nunca mais se levantar? 

 

Por onde passa, seus amantes se tornam estátuas 

Impedidos de saber o que é amar. 

Um reflexo das traições que não apenas perfuram, 

Mas destroem e corroem as almas. 

 

Eu lhe entreguei minha vida, minhas promessas 

Eram sinceras. O meu amor não era de brinquedo, 

E por isso jamais seria quebrado, embora brincado 

Jogado fora, largado como um salto alto arrebentado. 

 

Como aquele usado na noite 

Em que o outro beijou teus lábios.

Os lábios usados nos meus, 

As mentiras usadas em meu ouvido. 

E eu acreditando, indo dormir com o seu 

“Te amo”. 

 

Ao partir, tudo que perdi foram 

Falsidades e o controle de você sobre mim. 

Não me deixando enxergar, 

Não me deixando lutar. 

Me mantendo preso ao que eu acreditava de você.

 

Hoje, não sei quem era. 

Para onde foi, ou para quem mente. 

Mas sei que nunca alguém amará como eu, 

Te entregará o corpo e a alma sem pestanejar. 

Sempre ali para te ajudar. 

 

Nem o pacto com o diabo custaria tão caro. 

Aliás, prefiro ele a você. 

 

Ao partir, você perdeu um amor de verdade. 

Ao partir, eu enfim ganhei liberdade. 

 

(Te Dedico) 

*Poema escolhido pelo concurso “Poetize 2024”, e publicado em livro físico pela editora Vivara Editora Nacional. 

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