Escritas

Biografia

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Lista de Poemas

Total de poemas: 14 Página 1 de 2

O Rato

O roto rato 

Sujo de esgoto 

Perdido no desgosto 

De se ver tão morto. 

 

Mudaria minhas vestes

Trocaria minhas botas

Botaria do perfume 

Em que o cheiro fosse doce

Como sua alma que adoece 

Me entristece, 

Feito uma prece rupestre

Onde nada lhe apetece.

 

Mas aqui estou 

Diante de ti 

Ajoelhado pra ti 

Morrendo por migalhas 

De um amor cheio de falhas. 

 

Me alimente, por favor 

Já não aguento sentir dor 

Venho aqui dos confins do mundo

O rei do submundo 

Minha capa e meu escudo 

Soturnos como os buracos 

De onde saio, me parto 

Em direção ao fardo 

Que é confundir amor 

Pela dor de se fazer favor. 

 

Me perdoe pela pressa 

Se lhe faltei com a educação 

Mas este rato desgraçado 

Está cansado do asfalto 

Por onde patas se arranham 

Pelos que caem 

Amores que iludem. 

 

Se fui feito de teste 

Até onde poderia ir 

Saiba que morri por ti 

No momento em que a vi 

Agora, aqui 

Vendo-a sorrir 

Sinto suas mãos se fechando 

Ouço meus ossos se quebrando 

De meus olhos emana o pavor 

Por onde os lábios se perdem o calor. 

 

O corpo que desce 

Escorre e se perde

Pelas águas das ruas 

Onde as lágrimas das chuvas

Me guiam para o fim 

Indo para onde saí. 

 

Dali não deveria ter sonhado 

Em ser príncipe encantado 

Apenas um roto rato 

Onde amores verdadeiros 

Não mudam o que os olhos 

Enxergam por inteiro. 

 

Morto e sem dinheiro 

Largado ao desespero 

Amaldiçoado por teus beijos 

Onde apenas sonhei em meus anseios. 

 

Sábio aquele é 

Que sabe o que quer 

Sem esperar pelo amanhecer 

Onde o príncipe se muda por inteiro 

Um monstro sem valor 

Contigo por clamor. 

 

Nunca saberemos como seria 

O rato roto te amando 

Noite e dia. 

 

(O Rato, 03/05/2023)

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Natasha

Natasha

Minha acácia, Natasha 

Encontrei seu amor 

Me perfumei em seu sabor

Seus espinhos não feriram 

Da pela dura de meu íntimo

 

Ao se ver madura, 

Se abre tão escura

Ao se ver ainda jovem, 

Se mantem dura como a lua

 

Não sei se consigo semear 

De tal mulher tão solta

Não é que eu tenha medo

Apenas não me vejo em teu seio

 

Dos ramos que florescem 

Queria ter eu apenas uma flor

Apenas uma flor, seja de acácia

Ou de Natasha

 

Seria eu em você 

Seríamos um, mesmo em alguns

Para que no outono, 

O vento solto 

Me levasse ainda absorto 

Pelo tempo amado 

Mesmo que agora largado

 

Talvez em um novo florescer 

Numa primavera eu volte a te ter 

Mesmo que com tempo marcado 

Estarei radiante 

Até ser envelhecido 

Por ter meu amor vencido. 

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Relógio Quebrado

Como um relógio antigo 

Perdido e sem tempo 

Largado em uma casa

Que se despedaça 

Em poucas passadas

O ranger sinistro 

Trilha sonora 

De um verdadeiro suplício 

 

Minhas engrenagens morreram 

Fui largado em poeira 

Do meu cuco restou

Apenas lembrança 

De um tempo perdido 

Onde meu movimento tão lindo 

Já tirou muito risos 

 

Não restou em mim 

Qualquer esperança

De um resultado feliz 

Onde viver no amargo 

Tem um gosto tão magro 

 

Não consigo mover 

Meus ponteiros cansados 

Tão enferrujados 

Se esquecem do gosto 

De ser admirado 

 

Das teias de aranha 

Minha única façanha

 

Eu me esqueci de viver

Perdi do tempo 

Que dediquei a você 

 

Se continuo aqui parado 

Como relógio quebrado 

É ao menos acertar

Duas vezes por dia

E fingir que acredito 

Ser um ato de vida.

 

(Relógio Quebrado, 06/10/2023)

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Uma Doença Silenciosa

Os ratos que vagam por ruas escuras 

São trevas em capas de pelos 

As luzes amarelas das janelas 

Os olhos que já não tem lágrimas para chorar 

Por dentro, cada alma sofre em silêncio 

Em seu desespero mundano 

 

Estou em febre, morro aos poucos 

Sinto das mãos que tocam minha alma 

Desespero 

Sinto dos ratos que procuram uma saída de minha pele 

Dor, infinita dor 

Rolo de um lado para o outro 

Grito, mas a areia sufoca minha garganta 

Não ouço nada, pois meus ouvidos mocos 

Estão lascados pela escória do mundo 

 

Vejo duas sombras que andam 

Narizes imensos 

Anjos da morte 

Capas como asas 

Não batem senão para levar os vivos 

Olham para mim 

Tocam minha pele 

Querem-me vivo, ou querem-me morto? 

Talvez só mais um pouco… 

 

Os bulbos escuros que perfuram minha pele 

São os tambores que guardam minha dor 

Toda a minha febre são as repulsas dos pensamentos 

Que não consigo me desfazer 

O chapéu negro paira sobre mim 

A peste negra de quem se entregou 

Sem nem ao menos saber para onde vai

Um mar de fúria e escuridão 

Nem ao menos sei se estou no oceano ou a caminho do céu 

Os raios que caem são músicas doces que espantam minhas dores 

 

Percorra minha pele 

Quebre minhas maldições 

Hoje depositarei em poemas toda a minha febre 

Que a cavalaria da peste negra tanto clama por mim 

São os tímpanos sensíveis de patas suadas 

Ah, sim 

Patinhas suadas que coçam minha mente 

As vozes finas que percorrem minhas veias 

 

Um bulbo se estoura 

Mas é no silêncio da noite 

Os outros diriam que somos fracos demais 

Mas se somos fracos demais… 

Por que um surto se estende pela noite? 

Por qual motivo tanta peste negra habita nos corações perdidos? 

 

Somos um surto 

Que nasce de uma febre coletiva 

Mas este mal que nos habita 

Não é fraqueza 

A fraqueza veio dos ossos 

Os bulbos nasceram da falta de luz 

 

O nariz longo falta me bicar 

Tomara que seja rápido como um pássaro 

E que deixe para trás uma única pena negra 

Roubada do pouquinho de trevas 

Que não expulsei de minha alma 

 

(18/11/2023, Uma Doença Silenciosa) 

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No Crepuscular do Altar

No crepuscular do altar 

Sempre a te exaltar 

Em rimas mediúnicas 

Feitas através de runas. 

 

O nosso amor a me assombrar 

Como fantasmas no respaldar 

Me arrepiando as costas 

Tudo através de apostas. 

 

Se eu morrer primeiro, 

Volto para lhe tirar a dor 

Através do sopro de meu amor. 

 

Enquanto a lua subir

Estarei ao lado de ti 

Se minha silhueta lhe escapar 

Nada tema ao resplendor 

Pois estarei sempre ao seu favor. 

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Me Exorcize

Quando chegar minha hora 

E colocarem gentilmente meu corpo

Num sepulcro escuro 

Em algum momento eu perfurarei a terra

E me arrastarei até você 

Sentindo das lágrimas que escorrem 

Pelo seu belo rosto pálido 

 

Mas serei frio como um pensamento ruim

Serei apenas lembrança de uma dor latente

 

Não tema das ondulações do tempo, 

E me exorcize com um novo amor. 

 

 

(19/10/2023, Me Exorcize.)

*Poema escolhido pelo Dia Nacional do Poeta, e publicado no perfil @sececrj, Secretaria de Estado e Cultura e Economia do Rio de Janeiro. 

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O Meu Eu Feio

A chuva tamborila na janela 

Os trovões me acordam aos pulos

Não consigo dormir 

Percorro meu apartamento, 

Como um sonâmbulo

O que me aflige? 

O que não me deixa dormir? 

 

Sinto que luto contra algo 

Algo que tenta dominar meus sentidos. 

Na chuva, de capa preta

Uma sombra me observa lá de baixo. 

Perscrutando formas de entrar. 

 

Corro, tonto 

Sem saber para onde ir. 

Mal reconheço da luz parca 

Que não ilumina nada. 

Algo sinistro tenta me invadir, 

Tenta usufruir daquilo 

Que deveria ser meu reino. 

 

Batidas lentas na porta 

Pelo olho mágico, 

Enxergo apenas o capuz preto

Do meu lado da porta

Ouço apenas a respiração... 

 

Me afasto sem fazer barulho

Me entrego ao submundo

Soturno e arguto 

Onde nada passa despercebido

Muito menos sem ser sentido. 

 

A maçaneta se mexe, 

Gestos que se repetem,

Meu peito sobe e desce 

Que mal é esse que me persegue? 

 

Grito:

“Entre criatura desgraçada,   

E me faça o favor 

De levar minha alma”.

 

A porta se abre, lenta

Morosa

Preguiçosa

Como quem não tem pressa 

De sugar alma 

E sangue de inocentes. 

 

Fico parado 

Apenas um depravado 

Um voyeur desgraçado

Aguardando o fim 

Daquilo que me clama 

Fazer de mim 

O que se apaga a flama

 

Curvado e magro

Feições distorcidas do próprio mal 

Faz de minha casa 

A sepultura final. 

Lambe de minhas comidas, 

Destrói minhas cortinas. 

Deita em minha cama, 

Como se fosse sua própria. 

Olha para mim com escárnio,  

Brinca com meus medos 

Como quem retira do oxigênio. 

 

Me sinto enlouquecendo aos poucos

Perdendo minha retidão 

Me entregando à ilusão 

Não consigo dar passo 

Apenas aos percalços

É que foi deixando, 

O pior de mim 

Me levar para o fim. 

 

Tudo isso que eu vejo 

Através de tanto desespero 

É o vislumbre de um ensejo

Ato final de quem morre ao leito. 

 

A criatura zomba de mim 

Troça de minhas propostas 

Para ele não passo de um bosta 

Largado por aí, 

Sem ninguém a se lembrar de mim. 

 

Ela tira o capuz 

E em meio à escuridão 

Não é possível se ver distinção 

Somos um... 

 

Apenas um... 

Meu outro eu feio 

É apenas como me enxergo 

O tempo inteiro. 

 

Nossa relação é assim 

Um se escondendo do outro 

Um culpando o outro

Pelos erros esquecidos 

E ainda por aqueles 

Que ainda vem vindo. 

 

Nos batemos e socamos 

Nosso ódio é mundano 

Sabemos que o fim 

É matarmos um ao outro.  

 

Pois aqui, em nosso templo

Dividimos ao mesmo tempo

A mesma mente e corpo

De que se faz um esgoto. 

 

Das paredes rachadas 

Dos trincos quebrados 

Nada mais fica dentro 

Nada mais precisa pular pra fora

Nossa mente está aberta 

Para visitação, 

Daquele que tira disso 

Algum tesão. 

 

Desligo as luzes 

Deixo sucumbir 

Daquilo que não permito partir 

Das dores ocultas, 

Divididas entre versões de mim

Apenas me deito, 

E dos trovões lá de fora 

Faço de trilha sonora 

De quem decide deixar 

O que de pior 

Se possa entrar. 

 

(20/09/2023) 

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Te Dedico

Dedico o meu tempo a alguém que nunca me amou, 

Seja em prosa, em música ou em letras maiúsculas, 

Gritadas pelas paredes ocas de meu coração. 

Coração, este em que guardo as piores delas 

Como em sepulcros soturnos, 

Por vezes aberto apenas como um desejo mórbido 

De lembrar de nós dois. 

 

Por onde andas tu?

Ainda omitindo, mentindo

Para quem lhe entregou seu coração? 

Ainda fingindo sentir, algo que seu frio reinado de gelo, 

Congelou e matou, para nunca mais se levantar? 

 

Por onde passa, seus amantes se tornam estátuas 

Impedidos de saber o que é amar. 

Um reflexo das traições que não apenas perfuram, 

Mas destroem e corroem as almas. 

 

Eu lhe entreguei minha vida, minhas promessas 

Eram sinceras. O meu amor não era de brinquedo, 

E por isso jamais seria quebrado, embora brincado 

Jogado fora, largado como um salto alto arrebentado. 

 

Como aquele usado na noite 

Em que o outro beijou teus lábios.

Os lábios usados nos meus, 

As mentiras usadas em meu ouvido. 

E eu acreditando, indo dormir com o seu 

“Te amo”. 

 

Ao partir, tudo que perdi foram 

Falsidades e o controle de você sobre mim. 

Não me deixando enxergar, 

Não me deixando lutar. 

Me mantendo preso ao que eu acreditava de você.

 

Hoje, não sei quem era. 

Para onde foi, ou para quem mente. 

Mas sei que nunca alguém amará como eu, 

Te entregará o corpo e a alma sem pestanejar. 

Sempre ali para te ajudar. 

 

Nem o pacto com o diabo custaria tão caro. 

Aliás, prefiro ele a você. 

 

Ao partir, você perdeu um amor de verdade. 

Ao partir, eu enfim ganhei liberdade. 

 

(Te Dedico) 

*Poema escolhido pelo concurso “Poetize 2024”, e publicado em livro físico pela editora Vivara Editora Nacional. 

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Lilith

És tão bela e amena como um dia de verão… 

Não, poema errado. 

Se em meus brados te acordo 

Entre as tumbas esquecidas 

É porque de ti ainda não me desfiz. 

 

Se em teu seio eu me fiz feliz 

Um parceiro para esta vil vida 

Então aqui retorno para fazer meus votos 

Do meu sangue eu te dou 

De meu coração abro mão 

 

Tudo para lhe retomar a razão 

Te trazer de volta ao perdão 

 

Caminhei ao teu lado pelos campos escuros 

Onde sol algum tocaria nossas peles 

De mãos dadas pelas lápides, proferimos promessas 

Destas apenas da morte você ainda a cumprir 

 

Em teus olhos vermelhos 

Dos lábios escuros 

Do cabelo da noite 

A ti me entrego por inteiro 

 

Seu fiel escudeiro 

O cavaleiro negro 

Do castelo de pedra 

Que tombaria céu ao chão 

Congelaria o inferno em prisão 

 

Se de tua alma a me escapar 

Então não terei escolha senão me matar 

Para do outro lado continuar sendo teu bardo 

Que ao cantar minhas letras 

Tão perdidas em trevas 

Te encontrem no amor, por onde escondo minha dor. 

 

No véu negro da noite 

Por onde anda teus pés 

Me farei teu refém

Que leve para o além 

Onde ninguém me retém. 

 

Deitados em caixões 

Sem velas em porões 

Te abro minha veia 

Como quem uma torneira 

E deixo escorrer, do elixir de viver 

 

Voando no céu pelos ares de véu 

Um morcego qualquer 

A procura de fé 

Caindo aos teus pés 

Carente por sangue 

Em teu seio crispado. 

 

Lilith, minha Rainha do amor 

Se nos outros causa pavor 

Saiba que em mim nunca faltará calor 

 

És tão bela e amena como meia-noite de inverno 

Onde o frio emplaca o sentimento que mata 

Em teu vestido negro salpicado de rubro 

Rubis de um vinho nada caro em te dar 

Te beijo no infinito prazer 

Onde sei que nunca vou te perder 

 

Nesta lua tão branda que em meu sentimento espanta 

Qualquer medo do escuro 

Que num passado soturno 

Aguardei por você, em cada sombra na parede 

Cada sussurro no escuro 

Uma mão em meu peito 

 

Um latejar imperfeito 

De quem te ama no leito. 

 

(Lilith, 24/04/2023)

*Poema escolhido pelo concurso do Projeto Apparere, e publicado em livro físico na 7º Coletânea de Poemas, Sonetos e Cordéis. 

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Ei-lo Aqui, Pedaço de mim?

Ei-lo aqui, pedaço de mim? 

Tu não sabes a distância que percorremos

Pelas veredas a qual passamos

Mas sinto-me velho, como um novelo enrugado

E nem ao menos cruzamos de trinta veranos 

Mas sinto em minha alma, que de mil invernos

Me fizeram um velho, todo coberto

Por medos e versos frios como a neve

 

Todos cultivam de seu próprio inferno 

Ao menos neste ano abri o meu para visitação 

E nem ao menos sei se teremos companhia

Nesta triste estadia, em que fizemos moradia

 

O frio trevoso dos invernos passados 

Mutilaram as extremidades de meus dedos cansados

Como quem surrupia algo de outrem 

Me roubaram da felicidade esquecida 

Que agora lamento, com lágrimas ao vento

 

Sentindo este cheiro?

Nosso corpo apodrece numa cama qualquer

A sepultura aguarda, como o beijo da amada

Dê-me um último selinho, seu pedaço vizinho

E nos separe para sempre, com uma pá de semente

 

Enquanto uma parte cresce 

A outra se esquece 

 

E com um ranger de dentes

Feche a tampa e olhe pra frente

O sol subirá como fogo ardente

E que da esperança 

Se faça o brilho da dança 

 

Que tu irás de executar 

Enquanto aos poucos 

Tudo ao passado ficar 

 

À uma versão melhor de mim

A ti confio mais um de nosso fim

 

(01/01/2024, Ei-lo aqui, pedaço de mim?)

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