Uma Doença Silenciosa
Os ratos que vagam por ruas escuras
São trevas em capas de pelos
As luzes amarelas das janelas
Os olhos que já não tem lágrimas para chorar
Por dentro, cada alma sofre em silêncio
Em seu desespero mundano
Estou em febre, morro aos poucos
Sinto das mãos que tocam minha alma
Desespero
Sinto dos ratos que procuram uma saída de minha pele
Dor, infinita dor
Rolo de um lado para o outro
Grito, mas a areia sufoca minha garganta
Não ouço nada, pois meus ouvidos mocos
Estão lascados pela escória do mundo
Vejo duas sombras que andam
Narizes imensos
Anjos da morte
Capas como asas
Não batem senão para levar os vivos
Olham para mim
Tocam minha pele
Querem-me vivo, ou querem-me morto?
Talvez só mais um pouco…
Os bulbos escuros que perfuram minha pele
São os tambores que guardam minha dor
Toda a minha febre são as repulsas dos pensamentos
Que não consigo me desfazer
O chapéu negro paira sobre mim
A peste negra de quem se entregou
Sem nem ao menos saber para onde vai
Um mar de fúria e escuridão
Nem ao menos sei se estou no oceano ou a caminho do céu
Os raios que caem são músicas doces que espantam minhas dores
Percorra minha pele
Quebre minhas maldições
Hoje depositarei em poemas toda a minha febre
Que a cavalaria da peste negra tanto clama por mim
São os tímpanos sensíveis de patas suadas
Ah, sim
Patinhas suadas que coçam minha mente
As vozes finas que percorrem minhas veias
Um bulbo se estoura
Mas é no silêncio da noite
Os outros diriam que somos fracos demais
Mas se somos fracos demais…
Por que um surto se estende pela noite?
Por qual motivo tanta peste negra habita nos corações perdidos?
Somos um surto
Que nasce de uma febre coletiva
Mas este mal que nos habita
Não é fraqueza
A fraqueza veio dos ossos
Os bulbos nasceram da falta de luz
O nariz longo falta me bicar
Tomara que seja rápido como um pássaro
E que deixe para trás uma única pena negra
Roubada do pouquinho de trevas
Que não expulsei de minha alma
(18/11/2023, Uma Doença Silenciosa)
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