Escritas

Uma Doença Silenciosa

Sérgio B Vianna

Os ratos que vagam por ruas escuras 

São trevas em capas de pelos 

As luzes amarelas das janelas 

Os olhos que já não tem lágrimas para chorar 

Por dentro, cada alma sofre em silêncio 

Em seu desespero mundano 

 

Estou em febre, morro aos poucos 

Sinto das mãos que tocam minha alma 

Desespero 

Sinto dos ratos que procuram uma saída de minha pele 

Dor, infinita dor 

Rolo de um lado para o outro 

Grito, mas a areia sufoca minha garganta 

Não ouço nada, pois meus ouvidos mocos 

Estão lascados pela escória do mundo 

 

Vejo duas sombras que andam 

Narizes imensos 

Anjos da morte 

Capas como asas 

Não batem senão para levar os vivos 

Olham para mim 

Tocam minha pele 

Querem-me vivo, ou querem-me morto? 

Talvez só mais um pouco… 

 

Os bulbos escuros que perfuram minha pele 

São os tambores que guardam minha dor 

Toda a minha febre são as repulsas dos pensamentos 

Que não consigo me desfazer 

O chapéu negro paira sobre mim 

A peste negra de quem se entregou 

Sem nem ao menos saber para onde vai

Um mar de fúria e escuridão 

Nem ao menos sei se estou no oceano ou a caminho do céu 

Os raios que caem são músicas doces que espantam minhas dores 

 

Percorra minha pele 

Quebre minhas maldições 

Hoje depositarei em poemas toda a minha febre 

Que a cavalaria da peste negra tanto clama por mim 

São os tímpanos sensíveis de patas suadas 

Ah, sim 

Patinhas suadas que coçam minha mente 

As vozes finas que percorrem minhas veias 

 

Um bulbo se estoura 

Mas é no silêncio da noite 

Os outros diriam que somos fracos demais 

Mas se somos fracos demais… 

Por que um surto se estende pela noite? 

Por qual motivo tanta peste negra habita nos corações perdidos? 

 

Somos um surto 

Que nasce de uma febre coletiva 

Mas este mal que nos habita 

Não é fraqueza 

A fraqueza veio dos ossos 

Os bulbos nasceram da falta de luz 

 

O nariz longo falta me bicar 

Tomara que seja rápido como um pássaro 

E que deixe para trás uma única pena negra 

Roubada do pouquinho de trevas 

Que não expulsei de minha alma 

 

(18/11/2023, Uma Doença Silenciosa)