Escritas

Biografia

Estudei na FLUL (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e adorei :) Venho partilhar os meus sonetos em decassílabo heróico. Espero que gostem :) "Je ne veux autre recompense Que dormir satisfaict de moi." D'AUBIGNÉ, Théodore Agrippa "Les Tragiques", 1616 "(...) obedecendo às ordens do Alto, muitos agentes invisíveis dedilham sutilmente os cordéis conscienciais que ativam (...) inspirações. BORGES, Wagner D. "Falando de Espiritualidade", Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2002 Êxodo 4:12 S. 116:12

Lista de Poemas

Total de poemas: 73 Página 3 de 8

Setenta Vezes Sete

Setenta Vezes Sete

"Essa candeia que queremos acender"
VÁRIOS. "Dar E Receber". Por António Variações. Variações - As Canções de António. EMI Music Portugal. 1993
 
 
Cominam Diræ. Tártaro metuendo
E de espadas o três. Umbra. A obsidiana
Aspa em gnose ciméria (1). Atra, promana
Sem Clementia e sem Píndaro (2). Evolvendo (3).
 
Que o epifenomenismo inaniu (4). O adendo,
Com Dom Pedro terceiro ou na lantana,
Qual guipura em dialéctica hegeliana,
Emunde tacitífluo. Rarescendo
 
O indexical. Modula um pianoforte (5).
Se mutatis mutandis, Morasete (6),
Pretensamente haplónomo. Reporte:
 
Absque bona fide, nulla valet
Præscriptio. Do aretê à Estrela-do-Norte
Por eutimia - setenta vezes sete (7).
 
 
(1) PER7UME; COSTA, Paulo. "O Saber". 3D - Eixo Z: A Saudade. Vidisco. 2023. CD
 
(2) "My years have passed away in battle."
MACPHERSON, James "The Poems Of Ossian, The Son Of Fingal", 1762
 
(3) DICKINSON, Emily "A Not Admitting of the Wound", 1870
 
(4) PIMENTA, Agostinho (Frei Agostinho da Cruz) - Perdi-me Dentro de Mim. In "Sonetos", 1540 - 1619
 
(5) TCHAIKOVSKY, trio para piano em lá menor, Op. 50, 1882
 
(6) "So the darkness shall be the light and the stillness the dancing."
ELIOT, T.S. “Four Quartets", 1943
 
(7) Mateus 18:21-22
 
 
Grata pelas colaborações/sugestões, de vários quadrantes, designadamente ao Paulo Costa (Ritual Tejo):
 - por me ter apresentado o D. Pedro III;
 - pelo título "À Tona de Si", que vai para um soneto no futuro sobre autodeterminação, e respectiva música final;
 - pela escolha da música final do próximo soneto ("Diferente"), absolutamente cirúrgica - como logo verão e concordarão comigo ;)
 

29/08/2023
 

👁️ 24

À Bolina

À Bolina

"Deus fez-nos cheios de buracos na alma e o nosso dever é tapá-los todos para navegar."
Vergílio Ferreira

Nem Píramo nem Tisbe ou o pote d'ouro
Após o arco-íris, como combustível
Ou o declinante Hyperion do Keats crível
Qual gnose dum mirífico vindouro?

E nenhum barlavento haure fulgor
Ou estro, qual vão lirismo incognoscível.
Talvez o Endymion porque imarcescível,
Assim invicto em confluir ou a fé que for.

Far-se-á surdir das trevas, porventura,
Na quididade diáfana de Heráclito,
O espectro misantropo em desventura,

Adur, em senda helíaca, ressurge ínclito.
Etérea, a sua voz ainda me murmura...
À bolina dum indígete ou um paráclito.

31/10/2019

👁️ 10

Longe a infância

Longe a infância

"Often rebuked, yet always back returning
To those first feelings that were born with me"
BRONTË, Emily - Often rebuked, yet always back returning. In "Wuthering Heights and Agnes Grey", 1850

Ástreo o noema ou Poimandres num valete
De paus, luminar dúctil, asa lesta (1),
É a Aletheia a iriar em cônsona celesta,
E devine estelante. Axial, remete

A uma taumaturgia, ádito dos sete
Céus. "Laques" de Platão tenebriza esta
Mirificada progne quando entesta
A um aljube um quasar, noutra claquete (2):

A Oniro ocursa um hausto de cicuta,
Soçobrada a titónia, eduz daquela
Dessuetude noctífera, diluta (3).

Mas verne uma exitância paralela,
Remémora (4), feraz, que repercuta
Na sonoite um arché (5) e susta a procela.

 
(1) DICKINSON, Emily «“Hope” is the thing with feathers», 1861

(2) SHELLEY, Percy Bysshe - Mutability ["We are as clouds that veil the midnight moon"]. In "Alastor, or The Spirit of Solitude: And Other Poems", 1816

(3) MALLARMÉ, Stéphane - Renouveau.  In "Poésies", 1866

(4) BRONTË, Charlotte - Winter Stores. In "Poems by Currer, Ellis, and Acton Bell" London: Aylott and Jones, 8, Paternoster Row, 1846

(5) DICKINSON, Emily "Forever – is composed of Nows", 1863


17/04/2022
 

👁️ 25

Lâminas por Pétalas

Lâminas por Pétalas

Encapeladas lâminas girando
A toda a minha volta. Fluxo flébil
Hiante de outrora, afã consumpto estéril
Duma ausência afinal presente, instando

Júbilo da verdade revelada,
Novamente impassível ao rolar
do Tempo. Conjugado o verbo amar,
Presente sempiterno, visitada

Inopinadamente, no acro em mim.
Abaluarta-me a essência tua atinente,
De pétalas de mil cores sem fim.

Lépido, trocas lâminas cortantes
Pela hossana de pétalas enfim
Até ao diedro feliz d'eternamente.


escrito em 2009 (em memória do Peter Pan - gatinho de estimação)

👁️ 55

Renascer

Renascer

"Longa e fatigante é a senda ante ti, ó discípulo."
BLAVATSKY, Helena "A Voz do Silêncio", 1998, edição 494, tradução de Fernando Pessoa, Assírio & Alvim

No hiemal liame a Nix e Érebo, injucundo,
Estertora num búzio um mesto alburno
Num tal dédalo impérvio e taciturno,
Que plange Undina (1) em terra, contrafundo.

Mas "Deixa a dor nas aras"(2), sitibundo,
Pélago de Chopin num seu nocturno,
Prorrompe-lhe uma Lilith, lio diuturno,
Transubstancia as Euménides segundo

O que inflecte o aquilão, minui o frendor,
Na "Elevação" (3), a catexe que se acera,
Fulge às fadas de Cumbria ou ao elo vector

Do Ápeiron (4) ou da "Amazing Grace" (5), vera
Crisálida num féretro a transpor:
Consagra em si a surgente primavera.



(1) SOLLOGUB, Vladimir "Undina", 1869, tradução de Vasili Jukovski da obra "Ondine" de Friedrich de la Motte Fouqué, ópera de Tchaikovski em três actos

(2) PESSOA, Fernando "Odes de Ricardo Reis", 1946. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraDownload.do?select_action=&co_obra=16549&co_midia=2>. Acesso em: 28 abr. 2021.

(3) BAUDELAIRE, Charles "As Flores do Mal", 1857. 
Disponível em: < http://www.agr-tc.pt/bibliotecadigital/aetc/download/466/As%20Flores%20do%20Mal%20-%20Baudelaire%2C%20Charles.pdf.> Acesso em: 28 abr. 2021.

BAUDELAIRE, Charles "Les fleurs du mal", 1857. 
Disponível em: <http://elg0001.free.fr/pub/pdf/baudelaire_les_fleurs_du_mal.pdf.> Acesso em: 28 abr. 2021.

(4) Anaximandro, séc. VI a.C.

(5) NEWTON, John "Amazing Grace", 1772


05/06/2021
 

👁️ 8

Futuridade

Futuridade

"uma certa afecção particular, por meio dos discursos, a alma experimenta."
GÓRGIAS, "Elogio de Helena", 414 a. C.


Caligante ou em lai, o númeno ora a Luna (1),
Insciente se ao delubro se ao alcantil (2).
Fenestrando a sofrósina que, exil
De obsoletismo e de húbris, desaduna

A tenebrosidade. Asserida e una,
Qual fora uma hamadríade, que burile,
Paragone, em dianoia e em contracarril.
"Alea iacta est", desde a asir (3) ao que premuna

Um cenagal, um lahar ou mear-se em pane.
Mesmo ao que breia e arpoa, quer esplanda indemne,
Quer aniilado em gólgota, que trane (4):

"pulsate, et aperietur vobis" (5). Crene
O que excarcera. Undívago, aleie imane,
Magnificar em péan ou lausperene.



(1) mitologia romana

(2) HUGO, Victor - Quelle est la fin de tout?. In "Les voix intérieures", 1837

(3) "(...) there is a time for building
And a time for living and for generation
And a time for the wind to break the loosened pane"
ELIOT, T.S. “Four Quartets", 1943

(4) "L’ame cerche tousjours de ses prisons les huis
D’où, pour petits qu’ils soient, on trouve les pertuis"
D'AUBIGNÉ, Théodore Agrippa "Les Tragiques", 1616

(5) S. Lucas, Evangelho, X, 9


29/07/2022

👁️ 16

Afinal Perto (a infância)

Afinal Perto (a infância)

"Já fui menino
Agora sou crescido"
AR DE ROCK. "Fui Andar Pela Noite". Mudam-se os Tempos. Vidisco 2011. CD
 
Compos sui. Se não eidético (1), subtrai
Da "Árvore de Porfírio" o que aviria
Em hieros logos (2). Crê a tigmonastia
Em Domiduca, Aveta ou Cimist. Lai
 
D'antifilosofia. Qual Proteu, extrai
O aion (3) a contrario sensu todavia.
Pois se n' agraphos nomos (4) - noologia.
Num hesicasmo essivo. De Adonai (5)
 
Ou Dubhe, ascenso ao zénite (6), o nadir
Refulge medular (7) , ergon d'austaga,
Summum bonum lumínico a anadir
 
Hic et ubique onde se pervaga (8)
Essoutra astenosfera. Um abadir
Numa barcana abscôndita entoa a raga (9).
 
 
(1) "Aconteceu então que a alma exterior, que dantes era o sol, o ar, o campo (...) mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem."
ASSIS, Machado de "O Espelho", 1882
 
(2) "(...) através do que em ti vê e ouve (o teu íntimo), é o Verbo (...)"
TRISMEGISTO, Hermes "Corpus Hermeticum", 1469
 
(3) RITUAL TEJO. "Perto de Deus". Perto de Deus. Warner Music Portugal, Lda. 1992. CD
 
(4) DUARTE, Aldina. "Araucária". 2024
 
(5) Atos 17:28
 
(6) RITUAL TEJO. "Fairyland". Perto de Deus. Warner Music Portugal, Lda. 1992. CD
RITUAL TEJO. "Fairyland". Oitentaenove.01. 2012. CD
 
(7) CHÍCHARO, Idalina - Menina. In "Tudo Nela Brilha e Sonha", 2023
 
(8) KYAO, Rão. "Gnomos e Duendes". Aventuras da Alma. 2017. CD
 
(9) MEYER, Augusto - Alvorada. In "Coração verde", 1926
 
 
 
Agradecimentos:
 
- aos que "(...) do Alto, (...) invisíveis dedilham sutilmente os cordéis conscienciais que ativam (...) inspirações."
BORGES, Wagner D. "Falando de Espiritualidade", Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2002
 
- ao Paulo Costa, dos Ritual Tejo (ao vivo já a 8/3! no Casino Estoril - eu não perco!):
> pelo entusiasmo, pela sensibilidade artística, aqui a colorir o meu tecnicismo
> pelo poema "Menina" (7) e pelo fado "Araucária" (4)
> pela música "Foram Cardos, Foram Prosas"  para o "by the river, by the sound"  
(RITUAL TEJO. "Foram Cardos, Foram Prosas". Perto de Deus. Warner Music Portugal, Lda. 1992. CD
RITUAL TEJO. "Foram Cardos, Foram Prosas". Oitentaenove.01. 2012. CD)
> pelos temas: "Maria da Paz", "by the river, by the sound"  e "D'imaterial"
 
"Os mundos possíveis não actuais não são planetas distantes."
MURCHO, Desidério “Essencialismo Naturalizado”, Coimbra: Angelus Novus, 2002

25/02/2024
 

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Mnemónica de Abraão

Mnemónica de Abraão

Mnemónica de Abraão em Canaã aventada,
Troveja a selva urbana embravecida.
Torvelinho, Betel. Enfim, a vida
Impele, propulsiona. Desterrada.

Clade d' Avalon(1), ruína, qual errata
À vista? E, só, em deserto amanhecida.
Ressurge-me no espaço-tempo a Vida
De mim, a Melusina mais abstracta.

Palingenesia embraia sob tais ventos,
Qual fiorde em tessituras desumanas
E laudativamente nos(2) reinvento

A fim de nos mantermos em hosana.
Não consinto em quedar-me comummente
E assim me transfiguro em inumana.

(1) do mito celta de Melusina


26/11/2016
 

👁️ 22

Epifania

Epifania

"Brilho noturno de noite alheia vagando entorno à Terra"
PARMÉNIDES, "Sobre a Natureza" Fragmento 14, entre 490 a.C. e 475 a.C.
 
 
Nimba em Serendip (1), ainda que em Otranto (2),
Êxule o transe de Hamelin e flauta (3)
Obducta, já o revérbero se pauta
P'lo Caminho da Mão Direita (4) enquanto
 
Alvorece um Período Edo (5) num canto
Feérico, numa lira sonial, nauta
Do empíreo, do latíbulo, aura incauta  
Alvinitente em Heorot (6). Lene o quanto
 
Hipostaticamente une, dilecta,
Fanal de venustade. Monet adentro,
Constelação de evérgetas, roleta
                       
Do tético, é Mirphak, enlevo bento
Lucente, exalça como calafeta,
Na serendipidade em sacramento.
 

(À cadela Cuca e em memória do meu Tejo)
 
 
 
(1) WALPOLE, Horace “Os Três Príncipes de Serendip”, 1754
 
(2) WALPOLE, Horace “The Castle of Otranto", 1764
 
(3) BROWNING, Robert "The Pied Piper of Hamelin", 1842
 
(4) FORTUNE, Dion "Autodefesa Psíquica", 1983, tradução de Mário Muniz Ferreira, Editora Pensamento-Cultrix, Lda.
 
(5) Período Edo ou Idade da Paz Ininterrupta (1603-1868) (Japão)
 
(6) "Beowulf", 1000

 
28/04/2021
 

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Intocável

Intocável

Apodo "ferocactus" se sem hipanto,
Num cárcere de gelo, qual jazigo.
Esgrime o seu vil naipe, até consigo,
E anela por Porphyria* e doravante

Mimetiza em cristal Plutão porquanto
Obdurado, senão ao toque - erodido.
Na fria horripilação do desabrigo,
Aninha-se em si só, recalcitrante.

E todavia... plasmado em Shelley, um véu
Embai, como em Shalott**, as cordas mesmas
Daquela harpa indelével, cosmo seu,                

Que exe luída e sem eira de alfazemas.
Roga a Manitu em vão fácies de ateu
E subjazem-lhe lúridas algemas.   
       

* BROWNING, Robert "Porphyria’s Lover" (1836)

** TENNYSON, Alfred "The Lady of Shalott" (1832)

inspirado no ("meu") gato de rua Pierrot, tão traumatizado que não se deixava tocar, e em todos os seres afins (humanos e animais)


21/10/2020

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