Lista de Poemas
AMO SOMENTE OS SOLITÁRIOS
Amo o pássaro que abandona o bando
para ver o último raio de sol morrer detrás dos arvoredos.
Amo a voz que canta solitária no seio da floresta abandonada.
Amo os barcos que partem na escuridão,
antes que as casas despertem do seu sono.
Eu amo os passos que ecoam pela rua deserta,
tendo por companheira somente a própria sombra.
Amo o poeta, o coração enclausurado numa torre de marfim.
Amo o lobo que se afasta da matilha
para se embriagar com as luzes do luar.
Amo a estrela que mantem-se acesa
Antes de ser despedaçada pela escuridão.
Eu amo o náufrago, o órfão e o moribundo
Porque só eles compreendem a filosofia mais profunda.
Amo os prados ermos onde um homem pode se sentir em casa
E amo a borboleta antes que ela derrame pelo espaço
Sua torrente de cores e movimentações.
Amo a palmeira que sozinha resiste aos golpes do vento
E amo a vela temerária que desafia a tempestade.
Amo o silêncio da enorme noite cósmica
Que nada faz para responder nossas perguntas e apelos.
Amo o murmúrio das ondas quando fala somente aos meus ouvidos
e amo o verde do mar quando somente meus olhos presenteia.
Amo o vulto silente que passa nos campos desolados
e que se alegra e ri consigo mesmo.
Amo a estrada que não foi pisada, a vereda que não foi aberta,
o pensamento selado, a palavra que não foi pronunciada,
o estrangeiro que se maravilha com a sua própria estranheza.
Só amo a estrela que se reconhece estrela
e sabe que não necessita de outra fonte pra brilhar.
Só amo aqueles que amam a própria solidão.
TRISTEZA
De uma tristeza funda e sem sentido
Como se no meu peito dolorido
Um punhal se cravasse com frieza.
A tua mão é bálsamo e alento
Para a minha alma triste e angustiada,
Quando, sozinha, ela sonha o Nada,
Querendo as lajes ao sabor do vento.
Minha tristeza é noite que se esfuma
E dilacera as fibras, uma a uma,
De um coração que vive insatisfeito.
Mas teu amor é luz imaculada,
É faca que degola a madrugada,
Alvorada que explode no meu peito.
NICOTINA
'Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos'
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)
Preso em meus dedos um cigarro ameno
- Tragos de tédio e brasas de desejo,
Destilando o cilíndrico veneno,
Tendo a morte e o prazer no mesmo beijo.
Se adelgaça no ar o doce fumo
Como fosse uma etérea serpentina
Nada importa, se agora me consumo.
Em minhas veias corre nicotina.
'Tu morrerás!', 'E eu não duvido', digo.
'Tão triste é perder novo um grande amigo'
E eu me disperso nesse lento crime...
Nada mais justo, minha doce irmã,
Trocar uns dias de uma vida vã
Por uns minutos de prazer sublime
QUANDO OS CORVOS CHORAM
A negra envergadura
Sobre a face do abismo
E o gosto das alturas
Definha no seu peito,
É hora de dizer adeus.
Quando a noite não traz
Na fria face de breu
A recôndita ausência
Dos males do mundo.
É hora de dizer adeus.
Quando ele vê brotar
No coração afeito à luta
Uma dor maior que o suportável
E vê rolar na face
A lágrima de ferro,
É hora de dizer adeus...
Quando até mesmo o céu
Lhe nega o refrigério
Que, malogrado, desistiu
De procurar na terra,
É hora de dizer adeus...
Mas não! É cedo!
Inda nem desmaiou a luz do dia...
Mas quando até mesmo os corvos choram,
Querida, é hora de dizer adeus.
AUTO-ANAMNESE
Que não sabia escrever
Quando percebi
Que não sabia rimar
Amor com dor.
Descobri
Que não sabia viver
Quando percebi
Que não sabia sofrer
Nem sabia sonhar.
Descobri, enfim
Que não sabia amar
Quando percebi
Que não sabia rimar
Solidão com amor.
NÃO HEI DE ALARDEAR O MEU AMOR
Nem o divulgarei pelos jornais.
Pois meu amor é meu tesouro oculto
Que eu mantenho bem longe dos chacais.
Não vou gritá-lo aos quatro ventos, não,
Não vou pichá-lo nas paredes nuas.
Só no meu peito é que ele encontra alento
E nos meus versos é que beija a glória.
O meu amor é meu, de mais ninguém.
Ostentem os seus, como se fossem adorno
De uma vida vazia e sem sentido.
O meu amor é minha estrela errante,
Ave, suspiro, vinho delirante,
Mais linda flor do meu jardim secreto.
SONETO 666
Gênio das artes, da Sabedoria,
Invoco o esplendor da tua figura,
Enchei minha caveira de Poesia.
Anjo exilado, Pai da Rebeldia,
Somos iguais, Irmãos na Desventura.
Eu, que oscilo entre a vida tão vazia
E a solidão atroz da sepultura.
Anjo de luz e de clarões sidéreos,
Conheces os mais íntimos mistérios
Que encerram as fronteiras do Universo,
Mostra o caminho para eu ir além...
A inspiração que só de Ti provém...
Dai o toque de Midas no meu verso.
SONETO DO AMOR VAGABUNDO
'Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim'
(Caetano Veloso)
Tão grande é o meu amor para entregá-lo
A uma pessoa só no vasto mundo.
Não pode do luar o branco halo
Esgotar a si próprio num segundo,
Nem pode o grande Sol iluminar
Na Terra inteira um único vivente,
Tampouco poderia ser o mar
De apenas uma nau benemerente.
Não chame o meu amor de falsidade
Pois nunca ouvirá maior verdade
De alguma outra pessoa neste mundo.
Por isso que esta noite eu te dedico,
Nos versos de um soneto impudico,
Meu coração, embora vagabundo.
O MARTELO DAS BRUXAS
Perdido no campo
Do antes e agora
Quem sabe mais antes
O pão de quimera
Com trigo de vento
Põe a prosa no saco
E foge ao teu encontro
Aperta os dentes
No sorriso
Orfeu está morto!
Não há nem pra que
Beijar estrelas
E plantar mariposas...
Será que o remorso
Resume a figura
Dos ossos falantes
Que outrora roemos?
Pão de verso na mesa
Escorre na rima da boca
Um segredo sem roupas
Não hei de ser um boi!
Melhor é ser castor gigante
E roer as bordas do tempo...
O TEU AMOR
De tantas coisas quantas há no mundo
Ou que sonharam antigos visionários,
De tantos entes quantos há no Empíreo
Ou substantivos que há nos dicionários,
De tantas coisas que, no tédio infindo
De Deus tiveram sua criação,
De tantas coisas que, nos seus esforços
Alcançar possa a imaginação,
De tantas coisas que em mistérios dormem
E as palavras não podem nomear
Somente o teu amor é meu anseio
E em teu abraço posso descansar.
Se tudo isso a mim fosse ofertado
E eu não tivesse o teu amor comigo
De nada serviriam tais agrados
Seria como eu me tornar mendigo
Mas mesmo que eu não tenha nada disso
Se eu tiver ao meu lado o teu amor
Nenhum estoico é mais feliz que eu
E nenhum rei mais rico do que eu sou.
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