Lista de Poemas
OS MORTOS
Em que os mortos pensam, nessa noite
Sem fim em que se deitam e que se perdem?
A quem os mortos amam nos seus sonhos
Isentos de sentido e de sabores?
A morte priva os mortos de carpir
Mas rouba-lhe as mãos de trabalhar.
Se os mortos não tem boca pra sorrir
Também lhes faltam olhos pra chorar.
Os mortos não entendem ontologia
Os mortos não vasculham bibliotecas
E nem recitam versos ao luar
O coração dos mortos é um castelo
Sem hóspedes e sem anfitrião
Onde a saudade nunca pode entrar.
A LÍNGUA DE ÁCIDO
Eu sou a nuvem trazendo a tempestade,
Sente o fumo profético de Delfos, ó príncipe.
Eu sou o anjo mal enviado por Deus,
A lira furiosa em mãos de aço e sangue;
Eu sou a mancha na face dos heróis
E a flecha mortal no calcanhar de Aquiles;
Eu sou a estrela na mão dos operários,
Meu brado de fogo afugenta os fantasmas;
Eu sou o titã estremecendo os céus
E as tropas dionisíacas invadindo o Parnaso;
Eu sou o silêncio nos lábios do poeta morto
E a voz que fica presa em por túmulos alheios;
Eu sou o martelo que esmaga os ídolos,
Eu vim pra reviver as ninfas do Tietê;
A minha língua é ácido para os ouvidos
De quem só vê beleza nas telas do passado.
A NAVE DO PASSADO (SAMBA)
Cabisbaixo e desolado
Pelos cantos da cidade.
Já não tenho mais o alento
Dos teus beijos ou os do vento
Nem o abraço da amizade.
Tenho andado tão sozinho
E assim, no meu caminho,
É difícil de seguir.
Sou refém dessa saudade,
Um órfão da felicidade
Que não tem mais onde ir.
Tenho andado desolado
Mas a nave do passado
Explodiu de vez no ar.
Mesmo sendo tão escuro
Ponho os olhos no futuro
E tento continuar.
Se você sentir saudade
E ao andar pela cidade
Vir a vontade de chorar
Saberá que a minha vida
Tão amarga e tão sofrida
Foi difícil de levar
Que eu fui feito uma criança
Cuja única esperança
Era um dia acordar
Em um mundo ensolarado
E na nave do passado
Sem remorsos embarcar.
Mas nós somos estudados
E sabemos que o passado
Ele não existe mais
Sei que tudo que existe
É só um presente triste
Onde os dias são iguais.
JARDIM SECRETO
Que a noite esconda dos ladrões
As flores que plantei.
Ainda que apenas os beijos do tempo
Arranquem-lhe o perfume e a cor,
Ainda que os morcegos venham violá-las
Como bárbaros em guerra,
Ainda que as crianças pisoteiem
Com os pés da negligência o coração dos lírios
E ainda que sucumbam ao peso
Insuportável da esperança,
Deixai-as longe dos olhos dos ladrões.
Deixai apenas que um soluço brando
Brilhe como uma seta no silêncio-escuro,
Fazendo mãos de gelo se mover no espaço
- O semelhante encontra o semelhante...
Deixai que o beijo incerto de um fuzil
Apontando para a face da noite
Encontre meus olhos repletos de insônia,
Velando o jardim secreto onde enterrei meus deuses,
Onde escondi meu pranto, onde encontrei meu corpo
E onde plantei meu coração.
PEQUENA ODE PAULISTA
Meu coração é como os ferros da Estação da Luz!
Das horas da minha curta e solitária infância
Trago na boca o teu sabor amargo.
Mas de que valem as mãos se não para acenar
E de que vale a boca se não para dizer adeus?
Mas de que vale o coração
Se não para nos seus recônditos abrigos
Guardar uma saudade impertinente?
Saudade sim, das tuas molduras de concreto,
Do teu céu de chumbo e do teu rosto indiferente.
O que seria de mim se não fosse a tua solidão,
São Paulo?
A estrada da vida não é feita de asfalto
Não obstante, nela a grama já não cresce.
Nas ruas nadam peixes de metal
Rumo ao mar que nunca alcançam.
Olhos de vidro das janelas
Passam mirando minha melancolia.
Sou filho dos teus rudes trejeitos, São Paulo.
Da fina garoa que reflete
A tristeza que guardo no meu peito
E as feias flores que crescem na sarjeta
São minhas tristes irmãs neste destino.
TROIA
É preciso urgentemente um coração
Duro como ferro, mas que saiba amar.
É preciso urgentemente um coração
Que seja terno, mas difícil de quebrar.
Fomos vencidos, mas dos nossos ossos
Levantar-se-á uma vasta legião
De crianças negras, as mãos possantes,
Os olhos transbordando de vingança.
Das nossas cinzas, ó desventurados,
Anjos caídos tecerão estrelas.
Dos nossos gritos, enfrentando o tempo,
Os menestréis celebrarão a Glória.
Ergamos as cabeças sobre os muros
Do dédalo que cresce em nossa volta.
Andemos, semeando terremotos,
Gravando nossos passos no asfalto quente.
Forjemos asas de cimento e vidro,
Lanças perfurando a abóbada celeste,
E tragamos em nossas mãos banhadas em sangue
Tênues raios de sol, filhos bastardos do dia.
Tróia urge um coração, duro como ferro
Que nem Aquiles possa transpassar.
Tróia urge um coração, que seja terno,
Mas duro como aço e grande como o mar.
O FIO DE ARIADNE
...E era a tormenta a estraçalhar meus barcos,
E era o soluço amargo e a agonia,
E eram meus sonhos naufragando sempre
No mesmo mar em que o amor ardia.
Minha alma triste em mais de mil infernos
Jogou seus passos tortos certo dia,
Mas tu me deste a chave perigosa
Que aos dédalos escuros conduzia
A mente heróica que não teme a morte
Voltando a si, na escuridão interna
Desafiar seus próprios minotauros
Depois voltar para uma paz eterna.
Eu hoje posso nesta paz augusta
Deitar-me à sombra do teu vulto enorme
De olhos abertos te encontrar sorrindo
Enquanto o resto da cidade dorme...
A FLOR INVOLUNTÁRIA
Ela é o ninho onde cabem minhas asas;
Ela é a luz do firmamento, onde o poeta
Ensaia os vôos siderais;
Ela é o espaço onde as etéreas ilusões se fazem carne;
Ela é o mistério que se oculta na catástrofe da vida;
O sono que me chega no ventre da noite esquartejada;
Ela é o sussurro que me fala quando estou sozinho;
Seus braços são o ardor da flor fecunda
De abraços onde cabe o mundo inteiro;
Ela é lembrança do orvalho no campo imaculado
Antes que o Tempo viesse roer os rochedos
E ela é o segredo do velho alquimista
Que via os dias correndo sem tempo
Sem jamais dar razão aos relógios;
Ela é o medo que projeta a sombra enorme
No corpo do simples mistério de amar;
Ela é um trunfo tirado do acaso, roleta russa,
A flor involuntária dos meus sonhos febris,
O instante de paz e de um lindo abandono
Nesta viagem sem destino que chamamos de vida;
Os olhos do Amor que não vive no escuro,
A lua que passa espalhando saudades,
A forma mais pura de medo e saudade,
Simplesmente Natasha...
O PÊNDULO
Que jogaram na estrada?
Sou o medo de tudo
E a certeza de nada.
Quem roubou meu sorriso
Quando o mar é transposto?
Foi a mão que lhe arranca
A beleza do rosto.
Onde fica a beleza
Da promessa cumprida?
No silêncio das rosas
E nas sombras da vida.
Por que a vida não voa
Como a flecha no espaço?
Porque os homens não cabem
Na ternura do abraço.
O que move estes homens
Que caminham na estrada?
É o medo de tudo
E a certeza de nada.
O MARINHEIRO
O marinheiro leva no peito uma chama
Que nem os sete mares podem apagar,
Nem pode enfraquecê-lo o brilho do luar,
Tampouco o tempo, que toda ferida flama.
Ele olha ao redor... Sobre a terra não há
Onde ancorar o coração de alguém que ama.
Come a erva de Glauco e deita sobre a cama
Infinita, profunda e silente do mar.
Deixa no peito a dor que te torna sombrio
Pois não é bom andar de coração vazio...
Leva dentro de ti uma mágoa secreta.
Sente o amor e o mar tornar o espaço raso...
Sente o tempo passando nas rugas do ocaso...
Sente a morte selar teus dias de poeta...
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