Lista de Poemas
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
👁️ 1 110
SOBRE FUNDO AZUL
O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
👁️ 1 002
JANTAR FAMILIAR
Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
👁️ 1 037
CARNE DE LEITE E LUA
Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
👁️ 1 073
ALI, ONDE
Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.
Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
👁️ 1 074
DIA NÃO PASSA SEM
Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
👁️ 1 012
SALEIRO NA SERRA
Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
👁️ 879
CLARA LUZ DE VERMEER
Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
👁️ 995
ACQUA MARCIA
Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
👁️ 1 492
LESUNG
Nessas janelas sem cortinas
reflexos nos duplicam
e ao cristal dos pingentes.
Um trem passa no escuro
janelas janelas janelas
cortam nosso sorriso
varam o reservado espaço
entre olho e nariz.
Lá fora alguém viaja
em nossa pele.
Usurpador ignaro
que nem sequer nos vê
por instantes nos leva noite afora
num quadrado de luz
que logo se desfaz
como miragem.
Seburg 1995
reflexos nos duplicam
e ao cristal dos pingentes.
Um trem passa no escuro
janelas janelas janelas
cortam nosso sorriso
varam o reservado espaço
entre olho e nariz.
Lá fora alguém viaja
em nossa pele.
Usurpador ignaro
que nem sequer nos vê
por instantes nos leva noite afora
num quadrado de luz
que logo se desfaz
como miragem.
Seburg 1995
👁️ 1 059
Comentários (1)
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maria2020
2020-11-04
Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa
Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti - 58° Feira do Livro de Porto Alegre
ÁGUA ACIMA, miniconto do livro Hora de alimentar serpentes, por Marina Colasanti
Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.
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