Escritas

Lista de Poemas

CIRCO DE SOL

Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.

Viena 1995
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SOBRE FUNDO AZUL

O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
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JANTAR FAMILIAR

Caçada estampada na louça
do prato
javalis e cães com castelo ao fundo.
A pêra cortada
não verte sangue
nem geme a branca polpa
sob a faca.
Somos nós que
por cima do prato
por cima da pêra
por cima das láminas
arreganhamos dentes e
rosnamos
na antiga caça
da familia
à mesa.
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CARNE DE LEITE E LUA

Nenhuma mulher foi mais branca
que Suzana
despida para o banho.
Carne de leite e lua
papel da pele
e o sangue todo oculto
em falsa neve.
Uma perna na água
verde
escuro
um reflexo no espelho
negro
fundo
e um pente de marfim
sobre o gramado.
Não tem corpo
Suzana
luz somente
que em forma de mulher
se banha à fonte.
Nem tem corpo
esse velho que rasteja
vermelha larva
duas mãos e uma calvicie
arrastando a luxúria como
um manto.
As escamas das tranças
coroam Suzana.
Ao longe
entre folhagens
outro velho espia.
Só Tintoretto olha
sem cobiça
a carne
que se banha
em sua palheta.
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ALI, ONDE

Onde a coxa acaba
e a nádega começa
fronteira do obscuro
que ainda não é sexo
mas diz do seu início
há um resvalar de curvas
beirando o precipicio
prenúncio de voragem
onde o futuro é agora.

Ali, onde sol não nasce,
evadem-se os caminhos
ali traçam-se os rumos
se homem
se mulher
carta marcada.
E ali o desejo dorme
ou canta
senhor da encruzilhada.
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DIA NÃO PASSA SEM

Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.

Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.

Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
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SALEIRO NA SERRA

Aqui, onde são largas
as sombras
e o sol nunca chega à cozinha
a umidade molha o sal
com língua grossa.
Enfia-se no saleiro
lambe grão a grão.
e a baba escorre ao fundo
ardida
poça de mar.
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CLARA LUZ DE VERMEER

Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta lida
por Vermeer.
Naquela sala que escurece à noite
que o vigia escurece à noite
com um toque no interruptor
naquela sala a que o vigia traz noite
toda noite
na exata hora do fechamento
naquela sala escura como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de Vermeer
a clara luz clara água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
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ACQUA MARCIA

Em todo lugar sou estrangeira
menos na minha casa.
E mesmo na minha casa
nenhum habitante sabe
que o gosto justo da água
é aquele daquela água
que em minha terra se bebe.
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LESUNG

Nessas janelas sem cortinas
reflexos nos duplicam
e ao cristal dos pingentes.
Um trem passa no escuro
janelas janelas janelas
cortam nosso sorriso
varam o reservado espaço
entre olho e nariz.
Lá fora alguém viaja
em nossa pele.
Usurpador ignaro
que nem sequer nos vê
por instantes nos leva noite afora
num quadrado de luz
que logo se desfaz
como miragem.

Seburg 1995
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Comentários (1)

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maria2020
maria2020
2020-11-04

Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa